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Fique de olho
Publicado em 12/8/2013 17:51:53

DIREITOS HUMANOS

Audiência Pública aborda as atrocidades cometidas em hospital psiquiátrico em Minas Gerais; CRP SP participa da atividade

Reafirmando a importância de uma sociedade sem manicômios e que respeite os direitos humanos, a Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva promoveu, em 9 de agosto, Audiência Pública que marcou o lançamento da publicação Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex. O livro fala das cruéis práticas cometidas de 1903 a 1980, período em que estava em atividade o Hospital Psiquiátrico Colônia, em Barbacena, Minas Gerais. Há registro de 60 mil mortes nos anos de funcionamento do Hospital, entre homens, mulheres e crianças, a extrema maioria internada à força. O CRP SP esteve presente na atividade.

O livro dá continuidade a uma série de reportagens que Daniela Arbex publicou no jornal Tribuna de Minas. Ao ter acesso às imagens do fotógrafo Luiz Alfredo, feitas em 1961 para a revista O Cruzeiro, a jornalista ficou chocada com o desconhecimento de sua geração desta tragédia silenciosa e iniciou as reportagens com o objetivo de denunciar o fato. "Eu queria contar esta história pela ótica dos (as) sobreviventes. Então comecei a busca por testemunhas, que contaram fatos como que a comida no local era para 30 pessoas, quando havia 300 internadas; que as camas foram substituídas por capim no chão; estupros sistemáticos das mulheres que, tinham seus filhos tirados depois do nascimento; crianças eram aprisionadas em jaulas; eletrochoques, frio, descaso. Um cenário de campo de concentração".



Além disso, Daniela conta que encontrou documentos que comprovaram a venda de cadáveres de internos do Colônia para cursos de Medicina de universidades federais do país. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos foram comercializados. Os relatos presentes no livro chocam pela crueldade e provocam indignação, pois tudo o que acontecia no Colônia era com a conivência do poder público, que considerava a vida daquelas pessoas, de menor importância.
Porém, a prática segue em curso, com outros nomes, como lembrou os (as) representantes de diversas organizações que compuseram a mesa da Audiência Pública. A defensora pública Daniela Scromov entregou à jornalista mineira o estudo realizado por Marcos Garcia sobre o índice de mortalidade de internos dos hospitais psiquiátricos da região de Sorocaba. "Hoje vemos uma suavização dos nomes: clínica de reabilitação, comunidade terapêutica, porque não pega bem falar manicômio, mas o modelo asilar continua. O presente repete o passado". Daniela Arbex complementou: "Se fizermos um levantamento de quantas pessoas morreram em hospitais psiquiátricos desde que eles foram criados até hoje, chegaremos em um número impressionante".



A Conselheira do CRP SP, Maria Orlene Daré falou sobre a Inspeção Nacional que o Sistema Conselhos realizou em 2004 em hospitais psiquiátricos em todo o país e, em 2011 nas comunidades terapêuticas constatando os aspectos degradantes dos pacientes, em ambos os lugares. "O que vemos hoje é um holocausto repaginado, porque as violações de direitos seguem acontecendo nestes espaços. Permanecemos em luta por uma sociedade sem manicômios. Nossa prática, enquanto psicólogos (as) não irá compactuar com violência e morte", afirmou.
Para a Daniela Scromov é preciso buscar um modelo resolutivo que trate estas pessoas com dignidade, em uma luta que deve ser de toda a sociedade. "Todos na indiferença podem fazer parte dessa engrenagem do mal", defendeu.
Estiveram presentes ainda na mesa Juliana Cardoso, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal; Pe.Júlio Lancelotti, da Pastoral de Rua; Paulo Fadigas, juiz da Vara de Infância e Juventude, entre outros (as).
O livro Holocausto Brasileiro é um importante documento histórico de uma tragédia que aconteceu diante aos olhos de todo o país e cujos desdobramentos seguem na vida social brasileira. Uma leitura necessária. A publicação pode ser adquirida pela internet.