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Fique de olho
Publicado em 8/12/2011 16:25:46

DISCRIMINAÇÂO RACIAL

Seminário discute o sofrimento psíquico causado pelo preconceito racial

Em pleno século 21, a sociedade brasileira ainda é palco de episódios lamentáveis de discriminação racial. Um recente acontecimento onde uma estagiária negra foi orientada por sua chefe, para apresentar boa aparência, a alisar o cabelo e a usar roupas largas para disfarçar seus largos quadris, é apenas um, entre diversos casos, de como o preconceito persiste nas relações sociais no país, o que contradiz em termos concretos, o mito da democracia racial. Para intensificar as discussões sobre o assunto, o CRP SP organizou o seminário Racismo e Sofrimento Psíquico, que aconteceu em 7 de dezembro no auditório da sede do Conselho.

"É no diálogo coletivo que iremos conseguir forças para colocar esse debate na rua e dar visibilidade à esta violência que, apesar de escamoteada, é extremamente presente no Brasil", disse Carla Biancha Angelucci, Conselheira Presidente do CRP SP, na abertura do seminário. A presidente também compartilhou experiências que teve como psicoterapeuta em escolas onde o racismo já existe na própria construção da queixa de alunos e alunas.

O Conselheiro Cássio Rogério Dias Lemos Figueiredo compartilhou com as pessoas presentes parte da produção do CRP SP sobre o tema como o Caderno Temático vol. 1, Campanhas, TV Diversidade e também a resolução 018/2002 do CFP (que determina que o preconceito não faça parte dos atendimentos psicológicos), que completa 10 anos em 2012. O Conselheiro afirmou ainda que o planejamento estratégico do CRP SP para 2012 aprovou a proposta de discussão de temas que envolvam a saúde da população negra, com uma agenda permanente de debate e produção de materiais. "Temos que avançar muito. As (os) psicólogas (os) tratam a questão ainda de forma persecutória nos atendimentos", afirmou.

Como convidada da mesa estava Edna Muniz de Souza do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) que afirmou que há poucos estudos na área de saúde do trabalho que incluam a questão étnica/racial e que o preconceito causa um impacto psíquico na vida da pessoa que nenhum tipo de indenização financeira pode resolver. Edna citou o caso de três merendeiras de uma escola pública de São Paulo que em 2001, após constantes ataques preconceituosos por parte do diretor da instituição, apresentaram sintomas de depressão, queda intensa de autoestima, pensamentos suicidas, além de apresentar doenças psicosomáticas como taquicardia, pressão alta e problemas digestivos. Para Edna, o psicólogo (a) deve estar preparado para lidar com o conjunto destes aspectos. "Dentro da formação do (a) profissional de Psicologia não existe nada que trabalhe com a questão da discriminação racial. Daí a importância da escuta atenta e sensível para estes casos".

Outra convidada do seminário que compartilhou de sua experiência e estudos foi Maria Lúcia da Silva, do Instituto AMMA Psiquê, que lembrou que a fundação do Brasil foi baseada na violência contra os negros e indígenas e que este é um ponto que deve ser constante nas discussões sobre preconceito e que a negação desta história é uma das faces do racismo brasileiro. "Nós psicólogas (os) precisamos fazer nossa lição de casa: estudar história, aprimorar o olhar e a escuta, perceber o que acontece à nossa volta e incluir nisso a história de nosso país. Precisamos sempre levar em conta as determinantes sociais da formação do Brasil", afirmou. Maria Lúcia também cobrou, por parte do Sistema Conselhos de Psicologia, uma atenção maior com relação às discussões em torno do racismo e discriminação com vistas de serem pólos propositores de políticas públicas. "Pesquisa do IBGE mostrou que 52% da população brasileira se autodeclara negra ou parda. O Sistema Conselhos de Psicologia precisa olhar esse dado com mais atenção", defendeu.