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15 minutos contra a indiferença

Participação da Psicologia em testes rápidos de detecção do vírus HIV gera aprendizado sobre acolhimento a partir das instituições de saúde

São apenas 15 minutos. Nesse curto espaço de tempo, os usuários que se submetem ao TRD (Teste Rápido Diagnóstico) em HIV sabem que uma notícia pode mudar suas vidas para sempre. Alguns procuram por iniciativa própria um serviço de saúde para realizar o exame. Outros fazem o procedimento como parte de processos de triagem, como é o caso de gestantes e parturientes. E há ainda aqueles que são convidados e incentivados a fazer o teste durante ações realizadas fora dos muros das instituições: em presídios, zonas de prostituição, feiras de negócios, supermercados ou nas ruas.

O tempo curto também é um desafio para os profissionais que conduzem os TRD. Afinal, eles não estão ali apenas para realizar uma punção de sangue ou coletar amostras de saliva. Seu trabalho inclui acolher as pessoas, orientá-las sobre a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis de acordo com a realidade em que vivem e, finalmente, ouvir suas dúvidas e angústias antes e depois do resultado do teste.

Segundo a Secretaria de Políticas Públicas e a Coordenação Nacional de DST Aids, qualquer profissional de saúde com formação em nível superior e treinamento para este fim pode realizar os testes rápidos e assinar os laudos diagnósticos.

Para psicólogas/os que atuam nessa área, existe uma nota técnica do Conselho Federal de Psicologia que orienta quanto a esta prática e recomenda um aconselhamento de qualidade, observação ao princípio de integralidade do atendimento e a necessidade de qualificação reconhecida pelo Ministério da Saúde, além da observação dos princípios éticos da profissão.


Foto: Linha Fina Imagens

"Quando uma pessoa realiza um exame de saúde, nem sempre chega preparada para ser ouvida. Geralmente o que espera é solicitar um exame e aguardar o resultado", explica Cléria Mariano, psicóloga do Centro de Referência em Doenças Sexualmente Transmissíveis, AIDS e Hepatites (CR DST/ AIDS e Hepatites) de Diadema, na Região Metropolitana de São Paulo. Por isso, segundo ela, é necessário proporcionar um ambiente confortável para que o usuário sinta-se estimulado a falar e a receber as orientações. "As formas possíveis para isso variam muito de acordo com o seu perfil e a transferência que realizará com quem o atende", afirma a especialista em psicopatologia e saúde pública, que além de ser executora e multiplicadora de novos profissionais para aplicação do TRD também realiza TRs (Testes Rápidos de Triagem) de sífilis, hepatite B e hepatite C. Segundo Cléria, é necessário que os usuários sintam que terão preservado o sigilo do que é conversado e que as/os psicólogas/os manterão como postura não julgar suas práticas sexuais e aflições. "Precisamos ter essa postura tanto em relação aos que se mostram mais conservadores quanto com aquelas pessoas sexualmente libertas. É isso que permite às pessoas relatar no atendimento situações que nunca haviam compartilhado com ninguém antes", diz.

Mais que doença física
Os testes rápidos são mecanismos que permitem aos profissionais de saúde detectar e diagnosticar com rapidez e poucos recursos materiais a infecção pelo HIV. O objetivo primeiro de sua realização é ampliar o acesso da população para que haja cada vez mais um diagnóstico precoce que viabilize a recuperação, a manutenção da saúde e da qualidade de vida da pessoa com HIV, auxiliando também no enfrentamento da epidemia.

Mas, como afirma Cléria Mariano, lidar com a questão do HIV vai bem mais longe do que tratar de uma doença física. "Conviver com o HIV, dentro ou fora de seu corpo, mobiliza mais do que a saúde física. O vírus da imunodeficiência humana atua no sistema imunológico, com consequências na vida social, nas atividades produtivas e de trabalho, na vida financeira, nas relações familiares, nas relações amorosas e nas relações de cada pessoa consigo mesma", diz ela.

E é por isso que os conteúdos trazidos nas sessões podem ser muito mais diversos do que se pode imaginar. "Não é raro que uma solicitação por testagem de HIV tenha mais a ver com as relações afetivas do usuário do que com os cuidados com sua saúde física. Isso inclui o temor pela infecção daqueles que se veem pertencentes a grupos em que o HIV foi historicamente e preconceituosamente naturalizado e considerado consequência inevitável de suas práticas sexuais, como é o caso de travestis e os homens homossexuais", afirma ela.

"Quando uma pessoa realiza um exame de saúde, nem sempre chega preparada para ser ouvida. Geralmente o que espera é solicitar um exame e aguardar o resultado"

Cléria Mariano, psicóloga do Centro de Referência em DST/ AIDS e Hepatites de Diadema


Cléria conta ainda que há pessoas que buscam insistentemente e repetidamente pela testagem, parecendo não aceitar o resultado negativo como se acreditasssem que deveriam ter sido infectadas. "Talvez isso ocorra pela culpa que carregam de uma traição ou por prática sexual considerada socialmente pecaminosa", afirma. "Outros que se relacionam com pessoas com HIV parecem acreditar que não adotar métodos de prevenção é uma forma de demonstrar amor", diz a psicóloga, relatando que há ainda pessoas que se mostram desapontadas ao receber um resultado negativo para o HIV. "Para elas, é como se a infecção fosse torná-las mais próximas ou mais ligadas ao parceiro HIV positivo ou a seus pares, os quais considera naturalmente propensos à infecção", explica.

Para a psicóloga, esses casos demonstram as vulnerabilidades que se originam nas relações sociais e de afeto e merecem uma investigação mais profunda no que se refere às origens de suas práticas de risco. "Muitas vezes essa exposição ao vírus, embora pareça evidente, não é simples de ser identificada pelo usuário como algo que ele possa escolher não fazer", diz.

Em resumo: há informação e acesso a métodos de prevenção como o preservativo, mas a adoção desses métodos passa por outros caminhos que vão além do prático e do racional. É nessa hora que se percebe que a participação da Psicologia é importante na aplicação dos TRD e que pode colaborar para qualificar a oferta deste serviço junto às pessoas e ao enfrentamento das vulnerabilidades sociais.

TRD em HIV é aplicado desde 2006

A aplicação dos testes rapidos para HIV começou em 2001, como parte do Projeto Nascer Maternidades do Ministério da Saúde. A partir de 2006, a aplicação dos testes teve seu universo ampliado. Deixou de ter apenas o caráter de triagem para se tornar um método diagnóstico mais rápido e de maior acesso pela população.

De 2006 a 2014, 9 mil profissionais de saúde receberam treinamento para a aplicação do TRD em HIV.

A participação das/dos psicólogas/ os ainda não é muito grande, pois a implantação dos testes rápidos é realizada majoritariamente por enfermeiros. As/os psicólogas/os contribuem particularmente nos serviços da rede especializada, em particular nos centros de testagem e aconselhamento (CTA) e serviços de assistência especializada (SAE) que acompanham portadores de HIV/Aids.




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