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Psicologia e Cotidiano Aumentar textoDiminuir texto
Solidão real na era virtual

Em entrevista, a pesquisadora no estudo da Psicologia em Informática Rosa Maria Farah diz que para entender as mudanças nos relacionamentos interpessoais provocadas pelas redes sociais é preciso de mais investigação e menos empirismo

M eu psiquiatra me segue no Facebook e vai ajustando a medicação à medida em que me lê". Esse texto é apenas uma das muitas brincadeiras que circulam nessa grande rede social. Daquelas que todo mundo curte, compartilha e que provocam o riso fácil de uma tecla só: "kkkkk". Mas, trocando a palavra "psiquiatra" por "psicóloga/o" e "medicação" por "compreensão", ele poderia resultar em um debate mais sério. Afinal, conforme diz a coordenadora do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática (NPPI) da Clínica Escola da PUC-SP, Rosa Maria Farah, faltam estudos psicológicos mais detalhados e cuidadosos sobre as transformações das relações pessoais na última década geradas pe las redes sociais. "Ainda ficamos no campo de observação sobre o que está acontecendo, com conclusões quase totalmente empíricas. Mas precisaríamos acompanhar melhor para compreender de fato esses processos", diz ela, que é psicoterapeuta e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Confira na entrevista.

É correto falar em solidão quando se tem uma lista com centenas de amigos nas redes sociais?
Estar bem consigo mesmo ainda quando se está sozinho não pode ser considerado solidão. É saudável a capacidade de estar bem consigo próprio, de estar em paz com sua subjetividade. A solidão tem repercussão negativa quando há dificuldade de interagir, ou de entrar em contato com outras pessoas, gerando sofrimento. Para algumas pessoas, viver sozinho pode ser uma opção. Nem todos os indivíduos são extrovertidos. Nem todos precisam estar em contato com várias pessoas. Isso não as torna solitárias. Ou seja, ter poucos relacionamentos na vida pessoal e uma lista de muitos amigos nas redes sociais não quer dizer, necessariamente, que esse indivíduo esteja sofrendo com a solidão.

As redes sociais se tornaram uma forma de driblar a solidão de quem vive nos grandes centros urbanos?
De fato o ritmo de vida das pessoas não favorece o contato mais próximo e pessoal. Elas trabalham muito, têm muitas atividades, algumas vezes por necessidades de sobrevivência e em parte por necessidades geradas pela própria vida social. As famílias se visitam menos. Além disso, os deslocamentos ocupam muito tempo e a insegurança dificulta que as pessoas se conheçam melhor. Não faz muito tempo, os moradores de um bairro conheciam melhor seus vizinhos. Hoje isso não é comum. As crianças também são afetadas. Por causa da insegurança, têm menos chance de brincar na rua. Não podem ter a liberdade de conhecer os arredores do bairro porque pode ser perigoso. Acabam muitas vezes tendo menos amigos e relacionamentos. Tudo isso colabora para uma tendência ao isolamento. Essa percepção não é baseada em uma fantasia, mas sim é um dado de realidade. Nesse contexto, a presença de comunicação virtual, por um lado, permite que se mantenha contato com pessoas que estão distantes, muitas vezes do outro lado do mundo. Permite conversa, troca de noticias, informações. Mas ela não permite o encontro face a face. Vivemos uma fase de grande transição cultural e coletiva. É uma questão muito ampla e recente. Se fizermos uma conta rápida, a expansão da internet no Brasil tem cerca de 20 anos. Quando se fala em redes sociais, é um tempo menor ainda: pouco mais de dez anos.


Rosa diz que internet é pano de fundo e não vício

Como a Psicologia tem avaliado as mudanças nas relações provocadas pelas redes sociais?
As redes sociais trazem um material riquíssimo de estudo para a Psicologia, mas ainda faltam no nosso meio estudos mais detalhados e cuidadosos sobre o que acontece no espaço virtual. A internet traz um campo para analisar que tipo de troca é essa, quais as semelhanças e diferenças em relação às trocas presenciais, quais fatores psicológicos estão presentes ali. Mas ainda estamos no campo de observação sobre o que está acontecendo, com conclusões quase totalmente empíricas. Precisaríamos acompanhar melhor para compreender de fato esses processos.

Como vê a maneira como as pessoas se expressam atualmente nas redes sociais e a relação entre conteúdos públicos e privados? As intimidades estão se tornando menos íntimas?
As redes sociais trazem algo muito atraente e sedutor do ponto de vista da comunicação. No espaço virtual, a pessoa pode expressar coisas muito criativas, revelar fragilidades sem se dar conta. É um espaço para comunicar aspectos que na vida presencial talvez ela não fizesse. Nas redes sociais é como se, de certa maneira, a gente entrasse num certo tipo de estado alterado de consciência. Não que isso não ocorra de alguma maneira na vida presencial, mas ali na virtualidade isso acontece com frequência maior ou facilidade maior. A internet e as redes sociais são ferramentas de abrangência e repercussão imensa, como nunca houve antes. E com isso muitas vezes as pessoas colocam ali uma informação a seu respeito que antes só seria possível expor em um ambiente doméstico. Ou seja, ampliamos o universo de repercussão dessa exposição. E os adultos ainda estão aprendendo a lidar com isso.

As intimidades estão se tornando menos íntimas?
Esse aparato tecnológico na verdade representa um grande parque de diversões no que diz respeito aos adultos. E esses adultos ainda estão usando a ferramenta de forma um pouco infantil. Não aprenderam a lidar bem com ela. Tropeçam, acertam, falham. Ainda há muito para se conhecer e aperfeiçoar. Por exemplo, quando uma pessoa briga com outra e a elimina de sua lista do Facebook pode agir como se a solução para o conflito estivesse em dar um simples clique. O que ela não percebe é que ali está fazendo uma cisão e não elaborando ou processando seu problema com aquele contato.

O uso exagerado de redes sociais pode ser caracterizado como vício?
Muitas pessoas procuram o Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática (NPPI) da Clínica Escola da PUC-SP com queixas classificadas como "vício". Mas nós não consideramos que essa seja a denominação correta, chamamos de uso compulsivo. Isso porque, quando começamos a trabalhar com cada uma dessas pessoas, percebemos que logo a informática deixa de ser o assunto e que a questão daquela pessoa está mais ligada a problemas de autorreferência, insegurança, algumas vezes isolamento social. A internet é apenas um pano de fundo.

Se não houvesse a internet, a compulsão seria canalizada para outra forma?
Sim, provavelmente se processaria com outra forma de compulsão, seja com o uso de substâncias, alimentos etc. A compulsão pela internet, como outras formas de compulsão, é uma compensação da pessoa devido a algum aspecto não resolvido de sua vida. E essa compulsão pelo mundo virtual não se concentra apenas nos jovens que ficam horas ligados em games, mas em adultos também, como aqueles que fazem uso compulsivo de sites de sexo.


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