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Criadores de Tsurus
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Acompanhe um dia de trabalho da psicóloga Priscila Sartorelli Fernandes Pontes no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) do Embu, onde uma equipe multiprofissional atende usuários(as) com uma proposta que respeita direitos.

Na quarta-feira, 17 de agosto, a psicóloga Priscila Pontes, 27, chegou ao Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas (CAPS AD) do Embu das Artes por volta do meio dia. É o único dia da semana em que trabalha no período da tarde. Nos demais, salvo alguma situação imprevista, seu período de atendimento acontece pela manhã. Numa sala de reunião onde se destacam desenhos, pinturas e dobraduras - entre elas, diversos tsurus, o pássaro que, para os(as) japoneses(as), está associado à saúde e à felicidade -, ela conta que atua, aqui, há um ano e três meses.

O tempo pode ser curto, mas Priscila já tem uma certa estrada. Há cinco anos - e antes mesmo de se formar pelo Mackenzie, em São Paulo -, ela desenvolve atividades em projetos sociais. O estágio realizado no Instituto Ayrton Senna, entre 2006 e 2007, quando atuou com jovens no projeto Esporte e Talento, foi um deles. O trabalho num Centro de Referência da Assistência Social (CRAS), em Arujá, foi outro. Experiências importantes, que, juntamente com a formação em Teatro, a ajudam a trabalhar com pessoas em situação de vulnerabilidade.

O CAPS AD do Embu opera das 7 às 18 horas (não é 24 horas, como os do tipo III). A entrada é por um largo portão na Rua Siqueira Campos, bem no centro da cidade e a poucos metros dos restaurantes, barracas de artesanato e lojas de decoração que deram fama à cidade. De fato, ocupa uma espécie de anexo nos fundos de uma grande casa onde funciona um CAPS II, para os que sofrem com transtornos mentais.
PSI - Jornal - Edição 170 - Capa - CRP SP - A psicóloga Priscila Pontes numa das salas do CAPS AD no
Embu; na sequência, os grafites no estacionamento da unidade

A estrutura física é modesta. A parte administrativa, o refeitório, a farmácia, o ambulatório e as salas de atendimento se acomodam nos poucos espaços existentes. Uma grande área vazia - o que seria o quintal da casa - serve de estacionamento ou é usada para atividades do CAPS AD. Uma das mais recentes foi a realização de um festival de hip-hop, no dia 23 de julho, com direito a diversas oficinas artísticas. Os caprichados grafites pintados na parte interna do muro foram conservados. Pode-se dizer que deixam o ambiente menos sisudo.

O perfil das pessoas que chegam ao CAPS AD do Embu das Artes é variado: vai do jovem que vive na rua a maior parte do tempo ao homem mais velho, que rompeu seus laços com a família e se tornou usuário(a) de álcool. O número de pessoas atendidas varia ao longo do tempo. No momento, há cerca de 150 cadastros ativos. Para atender a essa demanda há uma equipe técnica composta por 12 : duas psicólogas, uma terapeuta ocupacional, um psiquiatra, um clínico geral, uma assistente social, duas enfermeiras e quatro auxiliares de enfermagem.

A proposta da instituição é trabalhar na perspectiva da redução de danos - que, entre outros aspectos, não exige a abstinência como pré-condição para o atendimento. "Na verdade", diz Priscila, "a droga ou o álcool são o último aspecto no qual a equipe foca o seu trabalho. Nós entendemos que ela é consequência de uma vulnerabilidade que precisa ser identificada e abordada para que haja alguma perspectiva de recuperação".

Em geral, o trabalho começa buscando despertar uma postura crítica com relação às drogas. "Uma vez que a pessoa demonstre interesse em parar, nós procuramos dar apoio para que ela aprenda a lidar com situações concretas. Por exemplo, dispor de algumas estratégias para dizer ?não? quando alguém oferece". O trabalho segue na linha do fortalecimento e da valorização pessoal.

O funcionamento do CAPS AD do Embu das Artes segue um padrão comum a outros equipamentos similares. Depois das etapas de acolhimento e triagem, a equipe técnica - atuando em um modelo multiprofissional, no qual se busca o compartilhamento de conhecimentos de cada profissional - define um projeto terapêutico individual. O trabalho inclui a realização de ações de apoio - como, por exemplo, a obtenção de documentos - com o objetivo de organizar minimamente a vida da pessoa. Além dos (as) usuários(as), o centro também atende familiares e promove reuniões semanais visando o apoio mútuo entre os participantes e o fortalecimento de uma rede de sustentação aos usuários(as).
PSI - Jornal - Edição 170 - Capa - CRP SP - A casa que abriga o serviço e um conjunto de trabalhos dos(as) usuários(as). Atendimento desenvolvido com base na valorização dos(as) participantes
A casa que abriga o serviço e um conjunto de trabalhos dos(as) usuários(as). Atendimento desenvolvido com base na valorização dos(as) participantes

Avaliar o serviço e os resultados nesse campo é difícil. A prefeitura do Embu das Artes está desenvolvendo um sistema para o acompanhamento dos casos atendidos, o que deve facilitar a obtenção de dados e ajudar na definição de políticas locais de saúde. Quanto aos resultados, vale lembrar que as melhores propostas mundiais de tratamento ficam na casa dos 30% de sucesso. Não se espera, bem entendido, que esse indicador seja usado para mascarar deficiências no atendimento. Mas ele permite um ajuste de expectativas quanto aos resultados possíveis. De resto, há casos como o de M., adolescente que passou pela instituição e que hoje comanda uma ONG de skate ou da garota I., que atualmente estuda e trabalha com turismo. Um sinal de que, para algumas pessoas, o serviço tem feito diferença.

No meio do "globo" - Nessa tarde de quarta, Priscila tem duas reuniões em sequência com dois grupos de jovens. O dia e o horário são diferenciados para assegurar um ambiente resguardado, sem a presença de usuários(as) adultos(as). Os(as) participantes são consumidores(as) de drogas - tipicamente crack, cocaína e maconha - e a maioria está procurando parar. Exceto aqueles(as) que cumprem medida socioeducativa na Fundação Casa - e que são levados(as) para o CAPS sob acompanhamento - os(as) demais comparecem às reuniões por vontade própria ou, no máximo, pela pressão de familiares.

Somos autorizados a acompanhar a conversa com o segundo grupo de jovens. Participam oito rapazes e uma moça, além da psicóloga Priscila Pontes e da terapeuta ocupacional, Priscila Matheus. Dois assuntos dominam as conversas na tarde de hoje. O primeiro, a participação num campeonato de futebol, basquete e frisbee previsto para acontecer em setembro, na USP, envolvendo outras instituições sociais.

A psicóloga explica como vai ser o evento e quer saber quem deseja participar. A adesão vem na forma de comentários animados. Alguns, que se encontram há mais tempo no CAPS, falam de evento semelhante ocorrido há algum tempo atrás. Priscila aproveita para explicar uma regra especial dessa competição: comportamento vai contar ponto. Se o time quiser fazer bonito, não vai poder ?zoar?.
PSI - Jornal - Edição 170 - Capa - CRP SP - Jovem atendida no CAPS AD do Embu das Artes: em busca de perspectivas
Jovem atendida no CAPS AD do Embu das Artes: em busca de perspectivas

O segundo assunto é uma conversa sobre como as drogas agem no organismo - um pedido dos(as) participantes, feito em reuniões anteriores. Priscila trouxe uma série de reproduções com detalhes do cérebro ou esquemas do sistema nervoso. Elas servem de suporte para as suas explicações sobre o assunto. A linguagem é simples e direta. Não há, em qualquer momento, qualquer tentativa de condenar o uso das drogas. Muito menos os(as) usuários(as). Não há, enfim, nenhum julgamento de ordem moral.

A participação é grande. Não, nem todos(as) estão interessados(as). Sim, fala-se muito e ao mesmo tempo. Há quem demonstre conhecimento dos mecanismos de atuação das drogas no organismo. Há também quem tenha dúvidas mais simples: "Onde ficam esses neurônios? No meio do globo?", pergunta um deles. Com tranquilidade, a psicóloga vai respondendo perguntas ou estimulando a participação dos(as) mais silenciosos(as).

No meio da conversa, um dos participantes coloca uma situação pessoal. Um desentendimento com outro interno da Fundação Casa que não ficou nas palavras. Ele afirma que, mesmo que quisesse agir diferente, não teria escolha. Se deixasse passar batido, perderia o seu "brilho". Outros(as) participantes que são ou foram internos(as) parecem concordar com ele. Priscila mostra tranquilidade. Diz ao rapaz que outras possibilidades talvez fossem melhores para ele, mas sugere retomar o assunto na sessão individual. As drogas voltam a ser o tema da reunião, que já vai chegando ao final.

O encontro de hoje reuniu participantes que já conheciam Priscila e se mostravam relativamente à vontade. No começo, entretanto, o jogo é mais duro. "Eles tentam entender quem é você, o que está fazendo ali e qual o seu interesse", conta a psicóloga. A confiança tem de ser construída aos poucos. É difícil estabelecer uma relação minimamente livre, adulta e responsável quando se considera o universo repressivo no qual muitos(as) estão inseridos(as).

Um detalhe que expõe essa diferença é o tratamento dado a Priscila pelos jovens da Fundação Casa: "senhora". A expressão, usada de forma mecânica e repetida (em geral fechando a maioria das frases - "cada um tem a sua brisa, senhora"), se transforma num bordão incapaz de portar qualquer sentimento genuíno de respeito (mesmo que ele possa existir). Priscila, ao que tudo indica, já absorveu o fato. Ela também tem o seu bordão. Sempre que faz uma afirmação, inclui um ?certo? no final. Certo?

Pássaros livres - Até que ponto estava preparada para o trabalho que desenvolve hoje? Era o que esperava? Priscila admite que é diferente do que imaginava. "Na verdade eu não sabia bem o que iria encontrar", conta. A faculdade proporcionou uma visão geral sobre a área, mas nada que pudesse antecipar o que existe na realidade, avalia. "De qualquer forma, eu passei por um processo de capacitação no Centro de Referência de Ál cool, Tabaco e Outras Drogas (CRATOD) antes de começar o trabalho e, aqui, fui acompanhada por mais antigos, passando por todas as atividades".
PSI - Jornal - Edição 170 - Capa - CRP SP - Na reunião com adolescentes, Priscila usa ilustração para explicar
como as drogas agem no cérebro
Na reunião com adolescentes, Priscila usa ilustração para explicar como as drogas agem no cérebro

Reuniões de grupo, como as que acabaram de ocorrer nessa tarde, são apenas uma parte do projeto terapêutico, no qual também estão incluídas sessões individuais com os(as) participantes. A discussão de casos com a equipe do CAPS AD é feita uma vez por semana, durante duas horas. Além disso, uma vez por mês, ela e outros(as) técnicos(as) participam de supervisões clínico-institucionais, compartilhando o atendimento e discutindo os casos. O grupo de Liberdade Assistida, que se reúne no CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), é um exemplo de trabalho em rede que os(as) CAPS AD fazem.

Priscila também se envolve na organização de eventos, como o festival de hip-hop e o torneio esportivo na USP. "Uma coisa que a gente faz nessas ocasiões é convidar grupos com interesses diversos, dando a oportunidade para que os(as) jovens daqui possam conviver com não usuários(as)", relata. "São iniciativas que mostram a existência de outras possibilidades e escolhas", diz.
PSI - Jornal - Edição 170 - Capa - CRP SP - Participantes falam sobre suas
experiências.
Participantes falam sobre suas experiências.

Um dos jovens participantes da reunião nesta tarde de quarta-feira conversa conosco depois da atividade. Conta que utilizava crack, assaltou um transeunte em Taboão da Serra e que, até o dia anterior, estava na Fundação Casa. O que pretende fazer agora que fez 18 anos e está em liberdade? Trabalhar com texturização e pintura, atividade que aprendeu nas oficinas profissionalizantes. Um cunhado que faz esse tipo de serviço está se dispondo a ajudá-lo, diz. Quer também retomar os estudos.

O atendimento que recebe no CAPS AD do Embu fará diferença? Talvez sim, talvez não. Mas não há dúvida de que cria uma perspectiva sem a qual o futuro, dele e de outros usuários e usuárias, como M. e I., seria ainda mais sombrio. Priscila, assim como os(as) demais que ali atuam, pode colecionar esses casos como os tsurus, as cegonhas de origami que estão penduradas nas dependências do CAPS do Embu das Artes. Diz a lenda que eles levam à cura e à felicidade se a pessoa que o fizer desejar essas coisas ardentemente. Mas, importante, são precisos mil tsurus para que isso aconteça. Se a sociedade quer mais pássaros livres e saudáveis, precisa abrir portas para pessoas dedicadas a esse trabalho.

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