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A vida através das lentes
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Projeto com moradores em situação de rua coloca em evidência a desigualdade social em São Paulo

Há cerca de um ano, as perspectivas de vida de Marcelo Leite de Matos e de Jakeline Pereira de Andrade, ambos com 29 anos, não eram das mais promissoras. Recém chegado de Porto Seguro, Bahia, e sem conseguir emprego, ele foi morar nas ruas de São Paulo. Brigada com a família e depois de deixar a casa onde trabalhava como empregada doméstica, Jakeline seguiu pelo mesmo caminho. Ali, dizem, entenderam o que é sentir fome, frio e medo.

As ruas em torno da Monsenhor Andrade, no bairro Brás, poderiam ser, ainda hoje, o local de moradia de ambos se, mais ou menos na mesma época, um grupo de jovens empresários não estivesse dando uma chance ao improvável.

De conversas entre eles e da vontade de colocar em evidência as brutais desigualdades que tendem a ser ignoradas pelas elites em uma cidade rica como São Paulo surgiria alguns meses depois o Projeto Trecho 2.8 - Criação e Pesquisa em Fotografia.

O nome do projeto aproxima referências de dois mundos socialmente distantes:
de um lado, a palavra "trecho", associada à "trecheiro", forma como os próprios moradores referem-se a si mesmos; de outro, "2.8", a abertura de diafragma de máquinas fotográficas, um item de tecnologia que durante anos esteve restrito a classes mais abastadas.
Aponta, também, para uma de suas múltiplas propostas: dar a um grupo de moradores em situação de rua a oportunidade de, pela fotografia, alcançar um status cidadão.

A concretização do Trecho 2.8 aconteceu por meio de uma parceria entre o Instituto Brasis Estudos e Ações e o Gens Instituto de Educação e Cultura.
Coordenador do projeto juntamente com Gracia Lopes Lima, o psicólogo Edson Fragoaz trouxe consigo experiências similares desenvolvidas no CAPS Itapeva.
"Fizemos contato com pessoas que trabalhavam com moradores em situação de rua e selecionamos 11 moradores interessados em participar do projeto", relata. Marcelo e Jakeline estariam entre eles.

De abril de 2010 até hoje, os participantes se reúnem duas vezes por semana, às segundas e quartas-feiras, numa sala do Instituto Brasis, no centro de São Paulo. Dali, saem com máquinas fotográfi cas, fazem seus registros e, posteriormente, falam sobre o trabalho realizado.
Jakeline, por exemplo, tem retratado prédios da cidade. Marcelo, por sua vez, se fixou no olhar das pessoas. Eventualmente, eles trabalham sobre um tema, como no passeio feito em conjunto à estação ferroviária de Paranapiacaba, em Santo André.

Ao alto, entre a moldura, os pais Marcelo e Jakeline, como o filho Daniel. Abaixo, experimentos fotográficos e oficinas realizados na sede que abriga o projeto Trecho 2.8.


Ainda que a fotografia seja um elemento central do projeto e que exista uma preocupação em alcançar resultados de qualidade, a proposta do Trecho 2.8 não é dar a seus participantes uma formação, no sentido tradicional. "Algumas técnicas são discutidas, mas isso é apenas parte das conversas que estimulamos aqui", explica Fragoaz. De fato, essas conversas se estendem para uma série de outros temas, visando que os participantes formem uma compreensão mais ampla da realidade e pensem formas de intervenção sobre ela. Como diz Gracia Lima, "o projeto não foi formatado como uma solução para pobres coitados.

"O projeto não foi formatado como uma solução para pobres coitados. Estamos formando um grupo capaz de entender o contexto social que os trouxe até aqui e de pensar ações coletivamente"
Gracia Lima,
coordenadora do projeto Trecho 2.8


Estamos formando um grupo capaz de entender o contexto social que os trouxe até aqui e de pensar ações coletivamente." Os participantes recebem uma bolsa mensal de R$ 250,00. A idéia, contudo, é que eles possam criar uma fonte de geração de renda a partir de seu trabalho. Em parte, foi esse o objetivo buscado com a exposição das fotos realizada em outubro na loja Op Art, da Oscar Freire, e com o leilão de 50 fotos realizadas pelos participantes na Villa Daslu, um dos ícones do consumo de luxo na cidade.

O resultado foi o que se pode chamar de um sucesso de crítica e de público. "Alguns fotógrafos profissionais que foram à exposição ficaram impressionados com os resultados", relata Fragoaz. Quanto ao sucesso de público, todas as fotos foram vendidas no leilão. O lance mínimo era de R$ 600,00 e algumas fotos alcançaram mais de mil reais.

O valor arrecadado foi dividido:
metade para o projeto, metade para os autores das fotos.

Ainda que a iniciativa tenha alcançado seus objetivos - e atraído a atenção de vários veículos da mídia para o Trecho 2.8 - seus participantes pensam em formas mais constantes de sustentação financeira.

Uma delas é a criação de uma empresa de serviços por meio da qual seriam oferecidos serviços profissionais em fotografia. A empresa com fins lucrativos já tem nome, Caititi, e está sendo estruturada junto com os idealizadores do Instituto Brasis.
De resto, Marcelo e Jakeline, que se uniram à época em que viviam na rua (hoje ocupam um cômodo numa casa no Brás), têm desde o dia 19 de outubro uma responsabilidade maior: cuidar do recémchegado Daniel.

Juntos, valorizados por seu trabalho e conscientes do mundo que os cerca, eles têm na esperança um novo aliado para encarar a realidade.


Acima, os diferentes olhares para a cidade de São Paulo, pelos participantes do projeto.



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