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Conversando com o Psicólogo
Psicologia e
meio ambiente


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Fórum realizado em São José do Rio Preto coloca em debate novas abordagens envolvendo Psicologia, sustentabilidade e meio ambiente.

Com mais de 120 participantes, foi realizado de 28 a 30 de maio o I Fórum de Gestalt, Psicologia Ambiental e Sustentabilidade de São José do Rio Preto. O evento foi uma iniciativa do Núcleo de Gestalt-terapia do município e contou com o apoio do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e da Subsede de São José do Rio Preto. O evento propiciou a apresentação de visões sobre a interação entre homem e meio ambiente e de como a Psicologia pode contribuir para uma tomada de consciência sobre os problemas que o tema levanta.

O encontro foi composto por seis mesas redondas - abordando tópicos como a clínica das vulnerabilidades; a educação ecológica e as alternativas de sustentabilidade - e contou também com o Plenário Awareness, um conjunto de apresentações sobre experiências na área da Psicologia Ambiental. "O Fórum atraiu participantes de diversos estados, o que mostra o grau de preocupação que o tema desperta", diz o psicólogo e coordenador do evento, Marcus Vinícius Gabriel. Segundo ele, a presença de engenheiros, biólogos e profissionais de outras especialidades ajudou a enfatizar o caráter multidisciplinar buscado pelo evento. Marcus destacou, ainda, o relevo alcançado pela Gestalt-terapia, pelas contribuições que pode dar a um processo de conscientização envolvendo os seres humanos e o meio ambiente.

Para o psicólogo e palestrante Marco Aurélio Bilibio, o fórum foi uma iniciativa inédita dentro da Gestalt-terapia no Brasil. "O evento foi de grande importância para afinar a prática terapêutica com a era das mudanças climáticas, e para abrir o diálogo entre o universo da psicoterapia e outras áreas associadas ao tema sustentabilidade", avaliou. Segundo Bilibio, as psicoterapias, em geral, estão sendo convocadas a rever criticamente nosso comportamento em relação ao mundo natural. "Não podemos nos omitir frente à visão corrente de que a questão ambiental é essencialmente um problema político e econômico. Não podemos continuar considerando normais comportamentos disfuncionais, do ponto de vista do equilíbrio dos ecossistemas, por mais valorizados que esses comportamentos sejam do ponto de vista econômico"

A psicóloga e conselheira do CRP SP, Lumena Teixeira, que participou do evento abordando o tema Psicologia e Povos Indígenas, acredita que a Psicologia Ambiental possa dar uma contribuição importante para a sociedade, na medida em que discute a falência do atual modelo civilizatório na preservação da vida no e do planeta, oferecendo perspectivas de reeducação da população em prol de ações sustentáveis e de longo termo. "As experiências de economia solidária apresentadas neste I Fórum foram exemplos de ações alinhadas a esse novo paradigma, que contribuem para o processo de conscientização socioambiental, associando a ideia de sustentabilidade inclusive às relações humanas, que podem e devem ser mais justas e pautadas numa visão sistêmica", afirma.

A visão da ecopsicologia

Psicólogo e doutorando em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília, Marco Aurélio Bilibio fala sobre as origens e as propostas da Ecopsicologia.

PSI - Como surgiu a Ecopsicologia?
Marco Aurélio Bilibio - A Ecopsicologia tem sua origem em obras não diretamente associadas à Psicologia, como, por exemplo, Nature and Madness, do filósofo ambiental Paul Sheppard, que levantava a possibilidade de uma ruptura no desenvolvimento ontogenético da nossa espécie como forma de entender a compulsiva destruição dos habitats naturais. De forma consistente, ela se apresenta como movimento a partir de The Voice of the Earth: an exploration of Ecopsychology, do historiador e crítico social Theodore Roszak. Não nasceu, portanto, como um ramo da Psicologia e, sim, como uma abordagem transdiciplinar sobre as relações entre o ser humano e a natureza. Porém, no cerne do movimento, há uma leitura psicológica da crise ambiental. Ela recebe aportes da Psicologia Ambiental (essa, sim, um ramo da Psicologia) e das demais ciências ambientais, mas também integra a poética e as visões tradicionais como forma de capturar as dimensões essenciais de nossas relações com o mundo natural. A Ecopsicologia também se mostrou aberta a contribuições das diversas escolas clínicas da Psicologia, como a Gestalt-terapia. Recentemente ganhou sua primeira revista científica, com forte viés psicológico, e já há oferta de pós-graduação em nível de mestrado em Ecopsicologia num instituto de Psicologia de uma universidade norte-americana. Ou seja: apesar de sua origem transdisciplinar, é possível que a Ecopsicologia venha a se incorporar à Psicologia.

PSI - Qual o objeto da Ecopsicologia?
Marco Aurélio Bilibio - A Ecopsicologia trabalha as relações do ser humano com o planeta e com os ecosistemas dos quais faz parte. A ideia é que, na raiz da nossa psique existe uma conexão básica com a natureza. A repressão dessa conexão na sociedade industrial nos fez perder o senso de pertencimento à natureza. Essa dissociação é parte fundamental da crise ambiental que o mundo vive. Para a Ecopsicologia, a solução dessa crise passa não apenas pela criação de tecnologias limpas como também pela cura dessa dissociação. O conceito de "inconsciente ecológico" remete à sabedoria ancestral de povos que reconheciam o ser humano como parte de um sistema maior. Tomar consciência desse fato pode abrir espaço para estados de integração e sanidade, assim como pode ser a base ética em nossas relações com o Planeta.

PSI - Há perspectivas de mudança nessa direção na sociedade atual?
Marco Aurélio Bilibio - Há uma crescente sensibilidade para o tema. Ela vem do reconhecimento de nossos sentimentos em relação a nosso futuro e em relação à rápida destruição do mundo natural. Nós, seres humanos, somos natureza e guardamos esse senso de conexão muito profundamente em nós. A questão é que a hiperurbanização do nosso modo de viver torna esse senso cada vez mais débil, gerando algo que a gente poderia definir como uma psique urbana, fenômeno que coroa as transformações trazidas pela sociedade industrial. A psique urbana hiperestimulada, que agora está aprendendo um "modo digital" de existir, está desenvolvendo novas habilidades, se comparada com épocas anteriores, mas está igualmente fortalecendo a atrofia desse senso de conexão com o mundo natural. Não é essa uma dimensão importante da crise ambiental? Em outras palavras, não há uma dimensão subjetiva na manutenção e até na origem dela? É o que o fórum procurou investigar.

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