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Direitos Humanos
Memória e Emoção

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Um desfile emocionado de depoimentos de parentes e antigos companheiros marcou a homenagem realizada pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, no dia 12 de março, às psicólogas Aurora Maria Nascimento Furtado e Iara Iavelberg. Engajadas na luta armada contra o Regime Militar, ambas foram mortas na década de 1970 pelos órgãos de repressão. "Iara e Aurora foram pessoas vinculadas à Psicologia e que pagaram com a vida a decisão de enfrentar a Ditadura", disse a conselheira Sandra Sposito, do Comitê de Direitos Humanos do Conselho. "O objetivo do CRP SP foi fazer um resgate histórico e oficializar um reconhecimento a elas." Um maracá, objeto utilizado por tribos indígenas em rituais de cura e reparação, foi entregue pela direção do CRP SP a representantes dos familiares.

A cerimônia encerrou o evento Psicologia e Direitos Humanos na Sociedade Brasileira, realizado na sede do CRP SP, que formulou propostas posteriormente encaminhadas ao VII Congresso Nacional de Psicologia. O encontro contou também com as palestras Direitos Humanos na Atualidade Brasileira, com o professor Emir Sader, e Direitos Humanos e Mídia, apresentada pelo psicólogo Paulo Endo.

História revista - A conselheira do CRP SP e Coordenadora Geral de Combate à Tortura, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria Auxiliadora Almeida Cunha Arantes, lembrou o compromisso histórico dos psicólogos com os Direitos Humanos. "Assim como as homenagens que fizemos à ex-reitora da PUC, Nadir Kfouri, e ao jurista Fábio Comparato, essa homenagem a Aurora e a Iara é uma iniciativa importante para recuperar uma verdade histórica que muitos tentam eclipsar sob um manto de silêncio."

"É fundamental legitimar o que Aurora e Iara fizeram e continuar a luta por aquilo que é o núcleo mais profundo daquilo pelo que elas dedicaram suas vidas: uma sociedade igualitária e livre", disse o jornalista e ex-preso político Alípio Freire, num dos testemunhos feitos ao longo da cerimônia. Alípio falou a pedido de familiares de Aurora ali presentes, como a irmã, a jornalista Laís Tapajós, que ali se encontrava ao lado do marido, José Victor Couto e das filhas, Marina e Flávia. Ele ainda declamou a poe­sia Prenúncios da Aurora, feita em homenagem à "Lola", como a psicóloga era conhecida em sua antiga organização.

Irmão de Iara, o fotógrafo Samuel Iavelberg contou sobre a infância e juventude passados no bairro do Ipiranga, em São Paulo, o envolvimento da irmã com o movimento estudantil e a posterior adesão à luta armada, ao lado do companheiro, também assassinado, Carlos Lamarca. "Iara e Lamarca sabiam que não continuariam vivos se permanecessem no Brasil", avalia Samuel. Segundo ele, a decisão de ir para o interior da Bahia demonstrou uma fidelidade a valores e um grande respeito aos companheiros de luta. Ainda sobre Iara, falou também, com muita emoção, o sargento Darcy Rodrigues, que atuou ao seu lado na guerrilha do Vale do Ribeira.

Prenúncios da Aurora

I
Aurora
eu te diviso
ainda tímida
inexperiente
das luzes
que vais acender
dos bens
que repartirarás
com todos os homens
- Pronunciou o poeta gauche
em seu sentimento do mundo
Antes
muito antes
de nascer
Aurora.



Aurora


II
Quando telefonava
clandestina
para encontros
clandestinos,
identificava-se
Luiza Porto
Lola era afável
posto que estrábica
muito levemente estrábica
atirava bem
Muito bem
até que um dia
não ligou nunca mais.

Acabou a poesia.


Alípio Freire

Iara



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