Pular Links de NavegaçãoPágina inicial | Comunicação | Jornal PSI |

conversando com o psicólogo Aumentar textoDiminuir texto

NASF
um novo apoio
para a atenção básica

 
A Atenção Básica é objeto de preocupação em todo o mundo. Desde 1978, várias propostas originadas do encontro promovido pela Organização Mundial da Saúde em Alma-Ata, no Cazaquistão, têm servido de referência para uma série de iniciativas visando garantir cuidados primários com a saúde para todas as populações. No Brasil, esse objetivo tem sido buscado atualmente com ênfase na Estratégia de Saúde da Família, que completou, em algumas regiões do País, 15 anos em 2008. Uma das ações mais recentes do Ministério da Saúde nesse campo foi a criação, no início do ano, dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF).
Formado por equipes multiprofissionais, incluindo psicólogos, os Núcleos têm pela frente o desafio de se multiplicarem por meio do dispositivo de matriciamento, de forma a discutir e criar estratégias de atuação na promoção e intervenção em saúde.


A criação dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) em janeiro deste ano promete constituir-se em uma das ações de mais amplo impacto na área da Saúde. Seu objetivo é o de ampliar a abrangência e o escopo das ações de atenção básica, aumentar a inserção do Programa de Saúde da Família (PSF) na rede de serviços e contribuir para os processos de regionalização e de territorialização. Para isso, a iniciativa prevê incentivos financeiros para os municípios que organizarem esses núcleos. Até agosto deste ano, segundo o Ministério da Saúde, 92 municípios haviam se credenciado para implantar NASFs.

A principal tarefa do NASF é constituir equipes multiprofissionais, englobando médicos, assistentes sociais, educadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas, pediatras, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, psicólogos, entre outros. Segundo Florianita Coelho Braga Campos, psicóloga, doutora em Saúde Coletiva e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, a proposta é que os generalistas da saúde sejam apoiados por especialistas. "Eles devem atuar no sentido de entender o que está interferindo na saúde do sujeito, que deixa, assim, de ser visto somente como um "doente". É o que chamamos de apoio matricial" (leia entrevista nessa página).

O matriciamento pode ser descrito como um planejamento da organização dos serviços com base numa estrutura de tipo matricial, cruzando projetos e funções, e sob uma gestão participativa, na qual estão envolvidos os diversos profissionais. Nesse procedimento, prevê-se a construção de momentos relacionais nos quais se estabelece troca de saberes entre profissionais de diferentes serviços envolvidos no cuidado com a saúde dos usuários. O objetivo do matriciamento é garantir que as equipes se vinculem aos pacientes e se responsabilizem pelas ações desencadeadas no processo de assistência, garantindo a integralidade da atenção em todo o sistema de saúde.

Experiências desse tipo já existem em uma série de iniciativas ligadas à Saúde. Na cidade de São Paulo, um exemplo ocorre nas regiões da Freguesia da Ó, Brasilândia e Vila Nova Cachoeirinha. Nessas localidades, seis profissionais de Saúde Mental atu­­am como equipe volante em cinco Unidades Básicas de Saúde (UBS). "Somos três psicólogas, uma assistente social, um psiquiatra e um médico psicanalista", diz a psicóloga Maria Luiza Santa Cruz, que trabalha no PSF desde 1998.

A atuação dessa equipe se dá da seguinte forma: os seis profissionais se dividem em duplas e, uma vez por mês, se reúnem com as equipes de Saúde da Família (SF), formadas por médico, enfermeiro, auxiliares de enfermagem e agentes comunitários de saúde. Maria Luiza, por exemplo, trabalha com dez equipes de SF. "Nas reuniões mensais nós discutimos os casos das famílias que requerem um olhar e uma atenção da Equipe de Saúde Mental", diz. A relação entre os participantes é horizontal, de forma a que cada um contribua com o seu saber e sua experiência e juntos construam um projeto terapêutico singular para cada família. Na intervenção domiciliar, a família discute o projeto de forma que ela também participe dessa construção.

A prioridade, segundo Maria Luiza, são casos graves envolvendo psicose, violência, drogadição ou tentativa de suicídio. "Sempre que necessário, a equipe de Saúde Mental, juntamente com os integrantes da Saúde da Família, fazem a chamada "visita domiciliar" para as famílias que necessitam de alguma intervenção", afirma. Para ela, um dos grandes benefícios dessa atuação matricial é que as equipes de Saúde da Família vão, com o correr do tempo, ganhando autonomia. "Elas passam a resolver diversas situações sem recorrer ao apoio da equipe de Saúde Mental", relata.

Um aspecto importante é que os atendimentos são feitos nas casas das pessoas. "Uma coisa é você atender em um consultório; outra é ir até o local onde a pessoa vive. Isso significa que, muitas vezes, você tem de enfrentar situações bastante adversas, mas que são, ao mesmo tempo, fundamentais para se entender a dinâmica dos grupos familiares e o que produzem entre si e, assim, propor um projeto terapêutico-pedagógico que realmente ajude as pessoas", diz.


OS AVANÇOS DO SAÚDE DA FAMÍLIA
No Brasil, os cuidados primários em Saúde têm sido abordados preferencialmente por meio da Estratégia da Saúde da Família, que, em 2008, está completando 15 anos de implantação em algumas regiões do País. A iniciativa tem avançado e hoje conta com cerca de 30 mil equipes multiprofissionais e um total aproximado de 500 mil profissionais, entre médicos, enfermeiros, agentes comunitários de saúde, técnicos e auxiliares de enfermagem, técnicos em higiene bucal e auxiliares de consultório dentário. Tais profissionais atuam realizando ações de promoção da saúde, prevenção de agravos e tratamento, reabilitação e manutenção da saúde da população.

Essa atuação mostra-se especialmente mais forte em pequenas cidades e comunidades, mas também cresce nas grandes cidades. De acordo com dados do Ministério da Saúde, em 1998, menos de 10% da população brasileira residente em municípios com menos de 20 mil habitantes era atendida por equipes de Saúde da Família. Em 2002, esse índice cresceu para 60% e, em 2006, para 76%. Nos municípios de grande porte esse índice de cobertura passou de 10%, em 1999, para 34%, em 2006. No total, a cobertura do PSF aumentou 82% em seis anos, passando de 50% dos municípios brasileiros, em 2000, para 91,8%, em 2006. A estratégia do Programa Saúde da Família também possui um importante aspecto de cidadania, uma vez que estimula a participação da população nas questões que envolvem a Saúde em sua região.


jacaré morreu

Era um caso de drogadição. No final de 2006, Maria Luiza foi chamada para acompanhar o caso de um rapaz de 28 anos em uma das cinco UBSs em que trabalha (Vila Nova Cachoeirinha). Ele estava deitado em um corredor ao lado da casa da mãe, entorpecido e com marcas de agressão por todo o corpo. A família era marcada por um histórico de miséria e sofrimento. A mãe já havia colocado o filho para fora de casa inúmeras vezes. Os irmãos enfrentavam, cada um deles, outras situações complicadas. Não era um caso fácil e as visitas que se seguiram não davam motivo para grandes expectativas.

"Jacaré", como o rapaz era conhecido, já havia sido internado várias vezes pela família. Numa das visitas, a médica, a agente comunitária, a auxiliar de enfermagem e a dupla da Saúde Mental que acompanhavam o caso se viram em meio a uma roda de orações de um grupo evangélico realizada na casa da mãe de Jacaré. Ficaram algo desconcertadas. No entanto, para a família a presença dos religiosos era reconhecida como importante para a saúde de todos, inclusive da própria equipe. Apesar do estranhamento por parte da equipe, essa pode entender que participar naquele momento da crença familiar era importante para o fortalecimento do vínculo entre quem trata e quem é tratado. Poder olhar para o sofrimento da família e buscar soluções fazia parte do tratamento.

Jacaré continuou sendo acompanhado pela equipe mas enfrentando uma série de situações de risco, ligadas ao mundo das drogas. A última delas com um agravante: um de seus pés havia sido esmigalhado. Ele procurou ajuda no hospital, mas saiu antes de ser atendido. Sabendo do ocorrido, a equipe de Saúde da Família foi atrás dele, levou-o de volta para o hospital, onde ele foi operado e tratado.

Maria Luiza teve, recentemente, boas notícias a respeito do rapaz: ele parou de usar drogas, construiu um quarto nos fundos da casa da mãe e conseguiu um trabalho em serviços gerais em um hospital. O que aconteceu? "Muita gente torce o nariz quando a gente usa essa expressão, mas a explicação da própria agente comunitária é de que o vínculo entre ele e as pessoas da equipe é que fez a diferença", diz Maria Luiza. "Acredito que isso teve um papel na sua decisão de mudar."

Em tempo: numa das últimas vezes em que se encontraram no corredor do hospital, a médica que acompanhou o seu caso, perguntou: "e aí, Jacaré, como vai?". A resposta não podia ser mais compensadora: "Jacaré morreu; agora eu sou..." e usou o seu próprio nome.

30 anos de Alma-Ata

Os Cuidados Primários em Saúde foram o tema de uma conferência histórica ocorrida em 1978, na cidade de Alma-Ata, no Cazaquistão, região então vinculada à antiga União Soviética. O encontro foi promovido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e reuniu líderes de várias regiões do mundo todo em torno da meta de saúde para todos. A Conferência de Alma-Ata consagrou em definitivo o papel fundamental dos cuidados de saúde primários na evolução dos sistemas de saúde, independentemente do grau de desenvolvimento social e econômico dos países onde estes estivessem implementados.

Trinta anos depois, a localidade de Alma-Ata mudou seu nome para Almaty e, em outubro deste ano, sediou um encontro com jovens de diversas partes do mundo para celebrar e debater a aplicação dos princípios sobre Cuidados Primários em Saúde. A visão geral é de que diversas iniciativas inspiradas no encontro de Alma-Ata foram implementadas com sucesso em muitos paí­ses, no Brasil inclusive, mas que ainda há um longo caminho até se alcançar um patamar satisfatório desse tipo de atenção.
.

entrevista | Florianita Coelho Braga

Na entrevista a seguir, a psicóloga e pesquisadora Florianita Coelho Braga Campos, fala sobre os desafios do matriciamento e aborda a questão da formação dos profissionais para atuar na Atenção Básica.

P - Como se justifica conceitualmente a atuação do psicólogo nos moldes propostos pelo Programa Saúde da Família? Florianita Braga - O atendimento ambulatorial, como já fizemos bastante - o mundo todo fez e faz -, não é resposta para situações de pessoas como sujeitos de suas vidas, vivendo e relacionando-se em família, no trabalho e na comunidade. A proposta da ESF passa pela desconstrução da forma clínica de atender, embora não elimine que o profissional - nem o generalista e nem o especialista - exerça também a consulta. O que não deve acontecer é a equipe de Saúde da Família ter em sua composição, além da equipe básica de referência, o psicólogo, o fisioterapeuta etc. Senão, será medicalizar a vida, o dia-a-dia, a promoção de saúde e vida.

P - O que é necessário para que ocorra um matriciamento adequado?
Florianita Braga -
O matriciamento pressupõe quatro aspectos básicos. O primeiro é um trabalho em equipe e a noção de referência. O segundo é o compromisso de desmedicalizar a vida, isto é, a dor não se resolve com Voltarem, a tristeza e o cansaço não se resolvem com fluoxetina, ou ainda, traquinagem com ritalina. O terceiro é a promoção de conhecimento e o quarto é o emponderamento das pessoas, considerando os sujeitos nos seus contextos, na sua família e na sua comunidade.


P - Que desafios o matriciamento envolve?
Florianita Braga -
O matriciamento requer que os profissionais, sejam eles psicólogos, fisioterapeutas ou médicos especialistas, estejam dispostos a atuar, abrindo mão do poder que seu conhecimento tradicionalmente lhes confere. Trabalhar na Atenção Básica significa alimentar a rede de convivência que possibilita as pessoas a exercerem a autonomia.


P - Isso não remete a um problema na formação?
Florianita Braga -
Sim, a academia ainda não "forma para o SUS". Ou seja, não forma para atender a saúde como direito, mas saúde como consumo. Os profissionais estão mais preparados para um trabalho de consultório individual, particular ou no máximo para planos de saúde. Os currículos melhoraram em possibilidades de práticas, estágios, mas ainda dependem muito do professor e de suas relações de trabalho e de estágio a ofertar. Ainda não temos preparo para o trabalho em equipe multiprofissional e multidisciplinar, para trocar de saberes e fazeres, respeito e interlocução com outros profissionais, muito menos encarar os usuários como um ser igual a nós mesmos, que naquele momento busca e precisa da sua ajuda profissional e/ou especializada.


P - Que dificuldades uma proposta como a de matriciamento enfrenta na realidade do dia-a-dia?
Florianita Braga -
Existem lugares onde o SUS é frágil, onde faltam especialidades e especialistas - como na região Norte do País. Em outros, o problema são os gestores, que não são da saúde pública. Muitos desses gestores assumem essa posição por indicações partidárias e sua visão ainda é aquela de construir ambulatórios de especialidades que existiam na década de 1980 - aquela na qual o especialista do NASF ficará com "uma agenda aguardando os encaminhamentos" da equipe de Saúde da Família. É preciso encontrar formas de vencer essas barreiras.
  

volta ao índice deste número