Pular Links de NavegaçãoPágina inicial | Comunicação | Jornal PSI |

Ciência e Profissão

Aumentar textoDiminuir texto
assédio moral, sem máscaras

Muitas vezes banalizado e erroneamente personificado em um chefe brutal ou sádico, o fenômeno tem suas raízes mais profundas na esfera organizacional e social, impondo um preço alto para todos. Para combater e prevenir o assédio moral, psicólogos e outros profissionais precisam estar conscientes e atentos aos sinais de sua presença nas instituições e empresas.

Nem sempre os sintomas - como crises de choro, insônia, distúrbios digestivos, dores em geral, hipertensão, desinteresse sexual, depressão, sentimento de nulidade e até mesmo idéias de suicídio - apresentados por homens e mulheres encontram acolhimento nos ambulatórios das empresas ou nos departamentos de Pessoal e de Recursos Humanos. Mais raramente, ainda, eles são associados ao fenômeno do assédio moral. Ocorre que, embora os métodos utilizados por seus agressores sejam muito antigos, o conceito de assédio moral é relativamente novo. No Brasil, só começou a ser mais conhecido na última década. Um trabalho pioneiro foi o de Margarida Barreto, médica do trabalho que, em 2000, defendeu a tese de mestrado em Psicologia Social na PUC-SP com o título Uma jornada de humilhações. A criação de um site (www.assediomoral.org), que deu tratamento multidisciplinar e divulgou o tema, foi decisivo para ampliar o debate e a reflexão sobre o problema.

Os relatos de trabalhadores que vivem situações diárias de constrangimento e humilhação em seus ambientes de trabalho são chocantes - não importa se eles estão em fábricas, nas linhas de produção, ou em escritórios acarpetados. "O assédio moral não pode ser confundido com um dia ruim de um chefe ou de um supervisor. Ele é um fenômeno que diz respeito à esfera individual, organizacional e social. Suas raízes estão apoiadas na crescente desumanização e na violência, que se manifestam no mundo do trabalho por meio de políticas de gestão cruéis", explica o Conselheiro do CRP SP Roberto Heloani, que elaborou, juntamente com Margarida Barreto e com a especialista em cultura organizacional, Maria Ester de Freitas, o livro Assédio Moral no Trabalho.

Destinado a oferecer a psicólogos e a outros profissionais condições de identificar e reagir contra o assédio moral, o livro revela uma face mais ampla do problema ligado às grandes transformações ocorridas nas últimas décadas, como a globalização e a informatização. "Num cenário em que as empresas adotaram novos modelos organizacionais, reduziram níveis hierárquicos, terceirizaram atividades e reduziram equipes, os trabalhadores tornaram-se ainda mais expostos. Eles passaram a enfrentar não somente ameaças de desemprego e queda no poder aquisitivo, mas também a precariedade, a terceirização e a competição cada vez mais acirrada, com o aumento nas exigências de qualificação, mudanças contínuas nos processos de produção, cumprimento de metas cada vez mais elevadas e avaliação em prazos cada vez mais reduzidos", afirma Maria Ester de Freitas. "Neste ambiente, a dificuldade de manutenção do emprego está sempre presente; o medo de fracassar é continuamente reforçado e a competição favorece os sentimentos de inveja, hostilidade e indiferença. Nele, não existe espaço para laços afetivos e para a solidariedade, o que o torna um terreno extremamente propício para que o assédio moral se manifeste", acrescenta.

Alta letalidade - Existe ainda um outro fator que contribui para aumentar a letalidade do assédio moral. "Com o aspecto econômico guindado a valor supremo, a relação do indivíduo com o seu emprego tornou-se a sua principal fonte de sua identidade. Como não existe a separação entre o mundo objetivo do emprego e o mundo subjetivo do reconhecimento da existência do indivíduo, o assédio moral, ao ameaçá-lo com a demissão, significa a sua morte, já que não se trata da perda de um mero emprego, mas de toda uma existência que se valida por ele", explica Margarida Barreto.

Segundo ela, embora os alvos mais freqüentes sejam as mulheres (principalmente grávidas, negras, com mais de 35 anos e com filhos) e os empregados com estabilidade, como dirigentes sindicais e membros da CIPA, o assédio moral também faz vítimas entre os profissionais com salários mais altos, ou com mais tempo nas empresas. Os motivos do assédio variam, mas o seu objetivo é forçar a demissão. Para isso, o agressor pode usar métodos mais grosseiros como ridicularizar, inferiorizar e culpar a vítima, ou mais sutis, como ignorá-la, sobrecarregá-la de tarefas ou encarregá-la de tarefas acima de seu conhecimento ou abaixo de sua competência. Sua intenção é isolá-la, provando ao grupo que ela é incompetente, que atrapalha o seu desempenho. Em locais de trabalho com relação hierárquica autoritária, não é raro que ocorra um processo coletivo de assédio moral, com toda a equipe reproduzindo o discurso e as ações do agressor.

As pessoas reagem a essa situação de modos diferentes. A conseqüência mais comum é a perda da auto-estima. Os comentários maliciosos que desqualificam seu trabalho, as humilhações recorrentes e o isolamento levam muitas vezes ao desenvolvimento de um quadro de depressão profunda, chegando à síndrome do pânico. "Não são raros os suicídios", diz Roberto Heloani, lembrando o caso ocorrido em um grande banco brasileiro. Após um plano de demissões voluntárias, dentro de um processo de "modernização da gestão", 22 funcionários se suicidaram - um deles, enforcando-se no banheiro da agência.

OUVIR E ROMPER O ISOLAMENTO

Os psicólogos desempenham um papel muito relevante no acompanhamento de casos de assédio moral, colocando-se ao lado da vítima e oferecendo a ela apoio emocional. Algumas recomendações de Roberto Heloani, neste sentido:

OUVIR AS QUEIXAS COM ATENÇÃO E RESPEITO, PROCURANDO COMPREENDER E REFLETIR.
Vítimas de assédio moral podem ser confundidas com pessoas em surto paranóico. Elas mesmas chegam a duvidar da própria sanidade, se perguntando se não estão com mania de perseguição. Algumas sequer conseguem relacionar seu sofrimento e dores ao que ocorre no trabalho. Por isso, a atitude do psicólogo deve ser de ouvir, evitando qualquer tipo de julgamento e oferecendo todo apoio emocional à vítima. Perceber que é ouvida é um passo fundamental para o resgate da sua auto-estima.

INVESTIGAR AS CONDIÇÕES DE TRABALHO E AS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO.
Outra providência é investigar como é a organização e as condições de trabalho; como são as relações hierárquicas e pessoais, de modo a identificar as relações de poder na área em que vítima atua.

INSTRUIR A VÍTIMA A EVITAR O ISOLAMENTO E A APRENDER A LIDAR COM O ASSEDIADOR.
Sentir-se ouvida e apoiada tem, geralmente, um efeito muito positivo, dando à pessoa forças para enfrentar o problema. O psicólogo pode ensinar algumas técnicas para lidar com o agressor, evitando as provocações e o isolamento. Em geral, quando o agressor encontra uma barreira, seja pelo posicionamento da vítima ou pela intervenção de terceiros, ele tende a mudar de comportamento.

MEDIAÇÃO DO CONFLITO.
Mediante autorização, o psicólogo pode se propor a mediar o conflito, levando o caso a um superior hierárquico do agressor.
 

volta ao índice deste número