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Um mundo melhor é possível

Cala-boca já morreu, porque a sociedade

Projeto que realiza oficinas de rádio, televisão e jornal aposta na produção cultural para formar cidadão sem medo de expressar suas opiniões. também tem o que dizer
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O sociólogo francês Pierre Bourdieu, um dos principais críticos dos meios de comunicação no século XX, já dizia que o uso da mídia é o meio mais eficiente para aqueles que desejam agir sobre as massas. Um dos destaques do seu livro "Sobre a televisão" (1997) trata da reflexão sobre o poder que é concedido às pessoas que controlam a produção e a difusão dos bens culturais. A influência desse poder sobre a subjetividade das pessoas é motivo de preocupação. Mas há quem trabalhe uma contraposição à massificação da mídia. O projeto Cala-boca já morreu, criado em 1995 pela GENS - Serviços Educacionais, no bairro do Jaguaré, em São Paulo, utiliza-se de um antídoto retirado do próprio "veneno" dos meios de comunicação para formar consciência crítica e cidadania.

Em 2004, a GENS transformou-se numa Organização Não Governamental de intercâmbio científico sobre educação, comunicação, cultura, saúde e meio ambiente, bem como de execução de serviço de radiodifusão. O Cala-boca desenvolve oficinas de comunicação e educação com crianças, adolescentes e adultos, além de documentação e registro audiovisual e cursos de formação em educomunicação.

A educocomunicação, segundo Grácia Lopes Lima, coordenadora do Cala-boca já morreu, desde a sua fundação, é o nome dado ao campo de reflexão e da ação que une as áreas de Educação e da Comunicação Social. Consiste, basicamente, em utilizar as tecnologias e as linguagens das mídias para produzir comunicação, uma forma de as pessoas e os grupos expressarem o que sentem e pensam e, assim, decidirem o que querem para si mesmas e para o mundo em que vivem.

Para a entidade, o que torna peculiar a educomunicação é a sua capacidade de permitir aos participantes outra forma de convivência social, fundamentada na valorização do indivíduo como sujeito, no respeito ao outro e na tomada conjunta de decisões. "A educomunicação seria, antes de tudo, uma forma de intervenção social por permitir a aproximação entre a produção da comunicação e a comunidade", explica Grácia Lopes Lima. Como cada veículo (rádio, jornal e vídeo) possui especificidades e características próprias de linguagem e de suporte, o Cala-boca considera importante compreender e se apropriar de cada instrumento para utilizá-los nas práticas sociais, assim como da metodologia que garanta a expressão de cada um e do grupo. "Queremos que eles entendam, acima de tudo, que possuem o direito de veicular suas opiniões. A capacitação técnica e a consciência crítica em relação à mídia são conseqüências", diz. "O que seria, nas palavras de Bourdieu, ensinar as maneiras de divulgar suas verdades", lembra Grácia

Ela observa que os objetivos se estendem para o campo terapêutico e psicológico. Além de oferecer cursos de formação em educomunicação, a Ong promove oficinas semanais gratuitas de rádio, vídeo e até mesmo jornal, de forma que os participantes aprendam a produzir conhecimento.

Segundo a terapeuta ocupacional Patrícia Moldan, do Ambulatório de Especialidades do Peri-Peri, que envia pacientes para a Ong há quase três anos, o efeito terapêutico dessa vivência é positivo. "Tratamos, no ambulatório, de crianças com distúrbio de comportamento e dificuldades escolares, e casos mais graves, de autistas. Nessa parceria com o Cala-boca já morreu, buscamos ampliar a rede social e aprimorar suas competências, como a responsabilidade e o trabalho em equipe", diz.

Ela conta que a biblioteca que existia ali foi parte dessa inserção social. "Uma criança psicótica sentia necessidade de se apropriar, sem critérios, de objetos que via pela frente, muitos dos quais não podiam ser levados da Ong para casa. Logo percebemos que emprestar livro seria algo possível e que faria com que ela se apropriasse do projeto. A solução acabou ajudando no tratamento não só dessa criança, mas de muitas outras, inclusive pelo estímulo à leitura", revela.

Hoje, a ONG oferece espaço também para adultos, idosos, portadores de deficiência e transtornos mentais, com qualquer formação, por motivações diversas. "A heterogeneidade do grupo é um fator importante", afirma um dos educadores, Sérgio Urquiza, psiquiatra do Centro de Convivência e Cooperativa Parque Previdência e parceiro do Cala-boca já morreu há cerca de quatro anos. "Em razão da diversidade, o projeto trabalha a inclusão social, em especial daqueles que sofrem algum tipo de discriminação", diz. Responsável pelas oficinas de vídeo, Urquiza explica que no Parque Previdência, uma unidade de saúde não-assistencial mantida pela Prefeitura de São Paulo, são promovidas ações que visam reinserir socialmente pessoas portadoras de transtornos mentais e em situação de risco social. A parceria com o Cala-boca já morreu complementa esse trabalho. "As oficinas mexem com questões existenciais, pois permitem que o participante, independentemente do seu diagnóstico, se reconheça na coletividade", afirma o psiquiatra.

Ressalva-se: o projeto não se limita a ser um espaço de tratamento da saúde. Mais que isso, é um centro de criação de cultura com propósito de ter uma função social na formação de cidadãos. Nem todos os participantes possuem distúrbio ou transtorno mental. As oficinas fornecem elementos para que todos aprendam a enxergar o mundo sob uma ótica diferenciada, ativa em relação à produção de informação.

Para todos os participantes, estejam em tratamento ou não, o processo é o mesmo: tudo começa com a discussão para escolher o tema que será reportado e depois, conforme o meio de comunicação, vêm as etapas de produção, quando vão a campo capturar imagens e gravar entrevistas, culminando na finalização do trabalho, seja escrevendo e editando uma matéria de jornal, operando uma ilha de edição de TV ou narrando notícias em um estúdio de rádio. "Entre o fim e o início do processo, sempre acompanhado de um mediador, a freqüência às oficinas oscila muito. Partindo do princípio da autoconvocação, quer dizer, participa quem quiser, as oficinas não mantêm um número regular de pessoas, mas todos podem participar de todas as etapas", explica Grácia.

O psicólogo Edson Fragoaz, que coordenou dois outros projetos similares ao lado de Grácia (o Porrada no Ar, destinado a adolescentes entre 12 e 17 anos de idade, e o Ondas Paranóicas, dirigido basicamente a adultos do Centro de Atenção Psicossocial de Itapeva), explica que, como a elaboração de um programa de rádio requer um grande número de atividades, entre elas a elaboração de pautas, entrevistas, escolha de trilha sonora e manipulação de equipamentos, é possível que cada participante possa encontrar espaço para se envolver com as atividades.

"Os ganhos pessoais nesse tipo de projeto podem ser vistos na melhora das relações interpessoais, que são constantemente trabalhadas internamente nas reuniões e nos contatos externos com funcionários das rádios, entrevistados e ouvintes dos programas. Em alguns casos, há ganhos em termos vocacionais, quando alguns participantes encontram na área de comunicação uma alternativa de trabalho", atesta ele. A relevância dessa experiência estaria também no resgate da auto-estima. "O desenvolvimento de um produto que tenha um valor social reconhecido, como um programa de rádio, devolve a cada participante a certeza de que ele pode encontrar um lugar de inserção, de expressão e, portanto, de cidadania", afirma Fragoaz.

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