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Daseinsanalyse e Esquizofrenia - Um estudo na obra de Medard Boss.
Ida Elizabeth Cardinalli.

Daseinsanalyse e Esquizofrenia - Um estudo na obra de Medard Boss

Daseinsanalyse e Esquizofrenia - Um estudo na obra de Medard Boss, de Ida Elizabeth Cardinalli é uma obra oportuna e bem-vinda. Desenvolvido como dissertação de mestrado, é uma preciosa contribuição para o entendimento e divulgação do pensamento de Martin Heidegger e de Medard Boss, especialmente no campo da daseinsanalyse clínica.

Trata-se de um estudo minucioso da obra de Medard Boss que esclarece, desde sua origem, os questionamentos que o levaram a procurar na filosofia, particularmente em Martin Heidegger, respostas para suas inquietações quanto à possibilidade de ajuda aos pacientes. Boss, desde estudante, preocupava- se com os limites dos estudos científicos que, baseados nos princípios das ciências naturais, não eram suficientes para compreender as especificidades do ser humano, tendo também ouvido de seu mestre Eugen Bleuler que as ciências da natureza não poderiam fornecer as respostas que tanto ansiava.

A primeira parte do livro nos apresenta, de forma didática e clara, como a fenomenologia se insere historicamente no pensamento da psiquiatria através de representantes significativos, tais como Jaspers, Minkowski, Von Gebsattel e Binswanger, sob a influência de Edmund Husserl e, posteriormente, Martin Heidegger. São evidenciadas aqui as diferentes compreensões do conceito de fenomenologia para cada um destes médicos e a sua interferência no entendimento do sofrimento humano.

Os trabalhos de Binswanger contribuíram para que Boss se aproximasse da Ontologia heideggeriana. Entretanto, Boss era motivado mais por questões propriamente terapêuticas enquanto Binswanger interessava- se por rever a psicopatologia. Boss procurou o contato direto com Martin Heidegger e, para sua surpresa, o filósofo mostrou-se interessado por suas questões.

Uma vez situado este contexto histórico, a autora nos conduz ao segundo capítulo de seu trabalho, quando apresenta a trajetória de Medard Boss e seu debate com a psiquiatria clássica e com a psicanálise freudiana, mostrando como os questionamentos do autor mantêm sua atualidade com relação à psiquiatria.

Neste terceiro capítulo, são apresentadas as principais idéias de Martin Heidegger desenvolvidas em sua obra Ser e tempo (1927/ 1988), que compreendem o existir humano como Dasein e a interpretação de suas principais estruturas, os existenciais. A autora se empenha numa rigorosa diferenciação dos âmbitos ontológico e ôntico, situando a analítica do Dasein e a daseinsanálise assim como são descritas em Ser e tempo e, com base no esclarecimento que Heidegger faz nos Seminários de Zollikon, apresenta os diversos sentidos possíveis de compreensão do termo daseinsanálise, afirmando que é possível uma ciência daseinsanalítica do homem assim como uma prática clínica daseinsanalítica.

No quarto capítulo, a autora se dedica à Daseinsanálise de Boss. Inicialmente, ressalta a análise de Boss da psiquiatria clássica e da psicanálise que tomam o ser humano como um ente da natureza e utilizam os modelos das ciências da natureza no entendimento das doenças, entendidas como entidades nosológicas. Em seguida, diz a autora: "Segundo Boss, o estudo dos fenômenos humanos sadios e patológicos requer, primeiramente, o esclarecimento de sua natureza existencial, o qual permitirá deslocar o entendimento mais habitual do homem apoiado nos conceitos de razão, forças, impulsos, etc. para os modos de existir humanos. Mais especificamente, apenas quando o pesquisador conseguir ver o existir humano como Dasein, ser-no-mundo, ser-com-outro, é que ele conseguirá ver e compreender os fenômenos específicos no existir de uma dada pessoa, isto é, de acordo com a maneira como esta pessoa experiencia seu próprio existir."

Outro aspecto original do pensamento de Medard Boss, que é apresentado de modo bastante claro neste capítulo, é a proposta de uma visão de gênese motivacional para o estudo das patologias. Diferentemente da noção estabelecida pelas ciências da natureza de etiologia das patologias, de uma determinação causal para a manifestação de uma doença, Boss propõe que se tenha uma visão de gênese motivacional, isto é, que se pense a etiologia como "ocasião que reúne, ao mesmo tempo, as solicitações, o entendimento humano e a manifestação de um comportamento específico do homem."

No quinto capítulo, o livro trata da Psicopatologia daseinsanalítica. Aqui são tecidas considerações fundamentais sobre os conceitos de saúde e doença que caracterizam a visão da Daseinsanálise. Os existenciais descritos na análise do Dasein em Ser e tempo são aplicados às experiências dos estados sadios e patológicos, isto é, nos modos de existir de cada Dasein.

Com base em sua pesquisa através de toda a obra de Medard Boss, a autora ilustra a compreensão daseinsanalítica dos modos de existir saudável, neurótico, psicótico e apresenta a classificação das patologias psíquicas como perturbações do existir em sua afinação, em sua corporeidade, em sua espacialidade e em sua temporalidade e, finalmente, como perturbação na realização do ser-aberto e da liberdade.

A seguir, é apresentada a compreensão bossiana da patologia chamada esquizofrenia. Segundo Boss, as doenças de um modo geral revelam uma perturbação da realização da liberdade e da abertura para o mundo do existir humano. Ele compreende esta modalidade de perturbação da realização da liberdade e da abertura na esquizofrenia segundo dois modos denominados "des-limitação" e "limitação".

A seguir é apresentado o caso de um paciente esquizofrênico atendido por Boss.

Em sua conclusão, a autora faz uma reflexão abrangente e profunda da perspectiva da Daseinsanálise como uma ciência ainda em seu começo e de como Boss empreendeu uma busca de novos fundamentos para uma ciência que compreendesse os doentes e as suas perturbações num corajoso esboço de umapatologia e uma terapêutica daseinsanalíticas. Nessa tarefa, teve sempre ao seu lado o próprio Heidegger como interlocutor.

O trabalho apresentado no livro de Ida Cardinalli descreve o percurso do pensamento de Boss até onde ele conseguiu alcançar. Além disso, fica o convite da autora para prosseguir essa tarefa, uma vez que o desafio deixado pelo encontro do pensamento de Martin Heidegger e Medard Boss permanece atual para todos aqueles que compreendem o risco que significa o impressionante domínio da visão técnico-científica de nossa época. Cardinalli conclui:

"Assim, entendemos que, mesmo que o conhecimento atual no campo psicológico, e principalmente psiquiátrico, não priorize as dimensões efetivamente humanas, preservar esta preocupação é uma maneira de o conhecimento sobre o homem manter acesa uma chama, para que ele não fique totalmente submetido aos requisitos científicos valorizados na atualidade." (p.169)

Maria de Fátima de Almeida Prado
Diretora científica da Associação Brasileira de Daseinsanalyse
Psicoterapeuta
fprado@durand.com.br
Fones: 3082-9618 e 4191-1940

Estante

A cidadania por um fio - a luta pela inclusão dos apenados na sociedade
Esta obra apresenta uma prática sólida de implantação de penas alternativas à prisão. Estas penas são utilizadas no caso de pessoas que cometem delitos leves e que não oferecem perigo à sociedade, e assim, ao invés de ir para prisão, recebem uma penalidade que substitui a pena privativa de liberdade.

As restritivas de direitos estão previstas no Código Penal desde 1984 e com o advento da lei nº 9.714 de 25/11/98, que modificou os artigos 43, se dividiu em prestação pecuniária, perda de bens e valores, prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas, interdição temporária de direitos e limitação de fim-desemana.

Ao publicar o resultado deste trabalho, realizado em Maringá-Paraná, desde 1979, as organizadoras Maria Teresa Claro Gonzaga, Helena Maria Ramos dos Santos e Juliane Nanuzzi Bendi Bacarin colaboram decisivamente para instalação de propostas de políticas públicas para enfrentar a violência e resgatar a cidadania no Brasil. Trata-se, segundo as novas concepções, de garantir a proteção eficaz da comunidade graças à apreciação das condições em que o delito foi praticado, da situação pessoal do delinqüente, de suas possibilidades e probabilidades de recuperação e dos recursos morais e psicológicos com que se pode contar, com vistas a um verdadeiro tratamento de ressocialização. Dental Press, (44) 262-2425, 159 páginas, R$ 20,00.



O bebê do século XXI e a psicologia em desenvolvimento
A área de desenvolvimento humano inicial tem tido grandes avanços nas últimas décadas. É um mundo fascinante de pesquisas empíricas rigorosas e criativas, ainda pouco conhecidas do público brasileiro. Inspirada por esses trabalhos, a organizadora Maria Lucia Seidl de Moura do livro fez uma provocação e um convite a um grupo de importantes pesquisadores da psicologia brasileira. Instigou-os a refletir sobre as implicações das evidências a respeito do bebê recém-nascido para a compreensão da mente humana à luz de suas perspectivas abordagens teóricas.

O resultado é apresentado nesta obra, com a convicção de que a psicologia é uma ciência em desenvolvimento, construída na indispensável regulação recíproca entre teoria e evidências empíricas. Conhecer o que se sabe sobre o bebê e o que isso significa para o entendimento da mente humana é de fundamental importância para os psicólogos, educadores, estudantes e pesquisadores das áreas de ciências humanas e sociais em geral. O público leigo interessado nesses temas, também encontrará um farto material atualizado sobre o qual refletir.
Casa do Psicólogo, (11) 3034-3600, 296 páginas, R$ 37,00.

Cinema, velhice e cultura
Neusa Maria Mendes de Gusmão (organizadora). Os que aqui cruzam a sétima arte com tema acadêmico - a velhice - buscam criar "competências para ver", trazendo para leitura e reflexão, não apenas o produto cultural - o filme, em si mesmo-, mas uma certa disposição, valorizada socialmente para analisar, compreender e apreciar as muitas histórias contadas em imagem, a fim de demonstrar que ver filmes depende de nossas experiências pessoais, do que se encontram ao nosso redor, do grupo social de que fazemos parte, de nossa origem e de nossa vida. Essa coletânea propõe processos de pensar/exemplicar a linguagem cinematográfica naquilo que, na prática pedagógica, possibilita compreender o alcance das imagens como parte do processo educativo, sem "escolarizar" ou "didatizar" o cinema. A presente coletânea resulta de afetos, paixões e, também, de preocupações relativas a certas temáticas, como é o caso da velhice, mas também se preocupa com a educação e com os processos educativos entendendo que cinema é conhecimento e aprendizagem.
Alínea, (19) 3232-9340, 140 páginas, R$ 25,00.

 

Fundamentos da perícia psicológica forense
Sonia Liane Reichert Rovinski. A perícia psicológica forense é uma atividade em expansão. Apesar de crescente demanda, há pouca literatura a esse respeito em nosso país. Para atuar como perito, o psicólogo necessita revisar seus conhecimentos adquiridos na área clínica e adaptá-los ao sistema jurídico em que vai operar. Este livro propõe a discutir os aspectos técnicos e éticos envolvidos nessa atividade, por meio de uma revisão atualizada da literatura e de sua adaptação à realidade brasileira.

Vetor, (11) 3283-5922, 178 páginas, R$ 34,00.

Método Qualitativo - epistemologia, complementaridades e campos de aplicação
Sonia Grubits, José Angel Veranoriega (organizadores). A obra foi elaborada com uma estrutura que contempla uma apresentação das bases epistêmicas do método; em um segundo momento, uma apresentação das técnicas instrumentais que se referem às formas de incursionar na relação sujeito-objeto; e finalmente uma proposta de abordagem voltada ao campo da psicologia. Essa obra representa a busca de alternativas para a investigação do comportamento social, por meio da apresentação não exaustiva do estado da arte da investigação qualitativa e das interfaces desta com a investigação quantitativa. Áreas de interesse: psicologia, saúde mental, antropologia, sociologia.

Vetor, (11) 3283-5922, 234 páginas, R$ 36,00.


A pluralidade dos espelhos: potencial e realização no trabalho com grupos
Cláudia Márcia A. Archanjo, Mauro Bilharinho Naves e Rubens Carlos Peguin (organizadores). Há algumas décadas, o movimento de estudo, divulgação e aplicação prática da dinâmica de grupo estava em pleno apogeu no país. Posteriormente, o movimento foi perdendo sua vitalidade. Na atualidade, existem claras evidências de que está havendo um sopro renovador. Esse revigoramento das múltiplas utilizações das técnicas grupais se deve à Sociedade de Psicoterapia Analítica de Grupo de Campinas que tem demonstrado uma dedicação, com garra e entusiasmo, pelo ensino, prática, estudo e divulgação dos fenômenos da dinâmica grupal. O livro visa abordar um largo leque de "temas de grupalidade" com um enfoque moderno e abordagem pluralista. A simples leitura do índice que numera os capítulos do presente livro escritos por autores diferentes guardam a formatação de uma "rede", que os entrelaça em um conjunto único, sustentação por alicerce conceitual que os sustenta e unifica: a dinâmica dos grupos.
Casa do Psicólogo, (11) 3034-3600, 212 páginas, R$ 27,00.

A fenomenologia do cuidar: prática dos horizontes vividos nas áreas da saúde, educacional e organizacional
Danuta Dawidowicz Pokladec. Este livro apresenta um panorama do significado da fenomenologia do cuidar nas atuações das áreas da saúde, educacional e organizacional, reunindo textos de vários profissionais que atuam na abordagem fenomenológico existencial. Oferece ao leitor a oportunidade de se aproximar das possibilidades de atuação articuladas no horizonte desse campo.

Vetor, (11) 3283-5922, 296 páginas, R$ 36,00.

 

Obesidade Infantil
Patrícia Vieira Espada. A obesidade infantil é, hoje, considerada mundialmente um grave problema de saúde pública. Tem sido responsável por problemas antes exclusivos dos adultos, como colesterol alto, hipertensão e diabetes tipo 2, entre outros igualmente relevantes. O relacionamento entre mãe e filho é um dos fatores que tem importante papel na determinação desta condição nutricional, bem como na reversão desse quadro, que traz sérios riscos à saúde física, mental e emocional da criança e do adulto. A obra discute, de forma clara e assertiva, algumas questões relacionadas a esse vínculo, contribuindo com informações e levando o leitor a refletir sobre a qualidade das suas relações afetivas, sempre as vinculando ao excesso de peso. A autora chama a atenção para alguns prejuízos emocionais, que uma relação ruim entre mãe e filo pode causar, desencadeando ou mantendo, inclusive, o hábito da alta ingesta alimentar, tanto na mãe quanto na criança.
Revinter, (21) 2563-9700, 37 páginas, R$ 19,00.



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