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Entrevista: Oswaldo Dante Milton di Loreto

Sociedade injusta produz loucura

Di Loreto se define como uma testemunha ocular da história psi in- fantil do Brasil das últimas décadas. Sua auto- imagem, no entanto, embora tenha um quê de verdade, é acanhada. Ele não se limitou a assistir aos acontecimentos. Inquieto e idealista, participou ativamente dos movimentos que tiveram a ousadia de transferir a psicologia, que ?estava boazinha, adaptada aos cultos, ricos e ociosos, para o rude proletariado?.

Foi assim que no fim da década de 60 criou, com um grupo de outros profissionais, uma das primeiras comunidades terapêuticas do Brasil, a Enfance, onde desenvolveram pesquisas e chegaram a um modelo de atendimento que desmente a velha máxima segundo a qual os hospitais psiquiátricos devem ser, como a loucura, locais depositários de todo o horror da vida humana. A prática humanizada, no entanto, no seu entendimento, não deve ser confundida com a psicologia paternalista, tão enganadora quanto aquela que prega o horror como única possibilidade de trabalhar com a loucura.

Hoje, ?di?, como tornou-se conhecido à medida que ?fui me reduzindo à minha insignificância?, viaja por todo o Brasil, ensinando os jovens trabalhadores psis. Leva na bagagem a experiência que comprovou existir outra porta de entrada para o tratamento de portadores de sofrimento mental, além dos fármacos e da psicoterapia. Porta esta que abriu para o Jornal do CRP em sua clínica, no bairro paulista do Brooklin.

CRP - O senhor se formou em medicina numa época em que havia muito poucos cursos no Brasil, em 1954. Como foi sua formação e sua chegada à psiquiatria?

Di Loreto - Estudei na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, no Araçá, em Pinheiros. Naquela época, a formação médica era excepcionalmente boa. A Faculdade e o Hospital das Clínicas eram pensados e postos a funcionar a serviço do aprendizado. No último ano fazíamos o curso das especialidades. Entre elas, a psiquiatria. Não existia residência. Os momentos de contato com a prática eram feitos utilizando o Hospital do Juqueri e o antigo Departamento de Assistência a Psicopatas (DAP), cuja versão moderna é a Coordenadoria de Saúde Mental.

O curso de psiquiatria era quadrado, limitado e unicamente descritivo. Era proibido pensar. Dessa forma, quando saí da faculdade, eu era um ótimo médico, mas não sabia nada de psiquiatria. Mas dei sorte; no ano em que me formei, em 1954, inaugurou-se a Clínica Psiquiátrica anexa ao Hospital das Clínicas, da qual tornei-me o primeiro e único residente da época. Mas, nessa clínica, encontrei uma coisa imensamente pobre em termos de se conseguir pensar a loucura e não apenas descrevê-la. As condições de trabalho no início da residência eram humanas e boas. Mas, ainda assim, resisti menos de um ano e meio (era para ficar dois anos) e fui trabalhar no único lugar que dava emprego na época: o Juqueri. Não estava destruída em mim uma certa idealização em que o jovem é especialista.

Mas, quando cheguei no Juqueri, o hospital havia se tornado um grande depósito, não tinha nada a ver com a herança de Franco da Rocha. Para se ter uma idéia, havia 18 mil doentes. Nessa época, o Juqueri era inteiramente tocado por médicos e profissionais de enfermagem. Mas o que se chamava de enfermeiro era o atendente. A enfermagem alto padrão mal começava a existir no Brasil. É preciso lembrar que nessa época, em 1955, a Constituição brasileira ainda resguardava direito exclusivo aos médicos para tratar diretamente dos doentes mentais. Não havia ainda as jovens profissões clínicas: psicologia, terapia ocupacional, fonoaudiologia etc. As ?equipes? eram pobres, por serem unidisciplinares: médico + médico + médico. O que tornava os médicos responsáveis por um saber ?científico? que, na verdade, não tinham. Todos mentiam. Alguém tinha que pagar a fatura por tanta mentira. Evidentemente, eram os doentes, que não recebiam tratamentos ?científicos? e eram abandonados do ponto de vista humano. As atuais tendências psiquiátricas de ?conviver? com a loucura e não ?tratá-la? são, antes de mais nada, realísticas, verdadeiras. E continuam sendo verdadeiras em 1997.

De forma que lá fui eu tomar posse no meu primeiro emprego de médico do Juqueri. Assinei o livro de posse e o diretor foi me mostrar a minha cota de doentes. Levei um susto: 1.200. Não é que o governo do Estado não quisesse colocar mais médicos, simplesmente não tinha. Fazer psiquiatria naquele tempo significava ficar carimbado, para o resto da vida, que você era um pouco deficiente. Portanto, nós éramos 12 ou 13 médicos, tudo o que se conseguia arregimentar.

Foi assim que sobrou para mim a cota de 1.200. Eu deveria fazer o trabalho nos pavilhões ou colônias com dois ou três enfermeiros, geralmente pessoas que tinham sido guindadas à condição de enfermeiro. Acresce que os recursos psis da época também eram ultra-rudimentares. Havia um esquizofrênico na sua frente, o que se podia fazer, além de descrevê-lo? E, ao final, o que se podia escolher? Eletrochoque, insulinoterapia ou a associação dos dois. Ainda não existiam os fármacos, que, mais tarde, vieram dar uma boa mão na prática psi.

E a condição humana era degradada ao último grau. Entre os meus 1.200 pacientes, mais de mil não usavam roupa há décadas. E viviam jogados por ali. Isso me pegou com 24 anos de idade. Após uns poucos meses, percebi que quem entrava no Juqueri ficava 3 meses ou 30 anos. Decidi ir embora poucos meses depois da minha entrada, no dia em que, junto com um dos médicos que já estava lá há 30 anos, fui fazer um atendimento num dos pavilhões dos mais regredidos. Lá havia centenas de pacientes nus, jogados pelo chão, cobertos de moscas. Andávamos por cima deles, atravessando o pátio e, onde passávamos, fazia aquele poeirão de moscas. Fui embora porque olhei para esse meu colega e percebi que aquilo era a coisa mais tranqüila e natural da vida dele. Ele perdera a capacidade não só de se comover, mas de perceber. Percebi então que, um dia, acabaria ficando igual a ele. Afinal, somos feitos da mesma massa humana. Ele não era maldoso, mas precisava se defender da angústia daquela condição de trabalho. Voltei a trabalhar no Juqueri anos depois, já mais experiente e capaz.

CRP - E na psiquiatria, por que a escolha pela psiquiatria infantil?

Di Loreto - Quando saí do Juqueri, caí num grande vazio profissional. Para não me sentir demasiadamente desesperado, ia fazer hora no Hospital das Clínicas que era a minha casa, os amigos ficavam por lá. Um dia encontrei a Dulce Vieira, uma colega de classe, a segunda que tinha escolhido fazer psiquiatria da minha turma. E ela então me contou que estava assustada, porque seu sogro, Pedro Alcântara, que era professor do Serviço de Pediatria das Clínicas, queria montar o Serviço de Psiquiatria Infantil, mas não o fazia por falta de personagens. Não havia psiquiatras da infância no Brasil. Ele havia solicitado que ela fizesse isso. Ela então disse: ?Você vai viver isso comigo?. Eu nem sabia que havia distúrbio psíquico da criança. Mas aceitei. Foi assim, ao acaso, que cheguei à psiquiatria infantil. Cheguei por acaso, mas me encontrei e me realizei nela. Isso é o que importa, não a motivação inicial que se tem para as coisas.

Nós não sabíamos nada do assunto. Aprendemos tudo em termos de angústia e ansiedades. Os livros nos passaram a dica de que, para trabalhar com criança, se trabalhava com brinquedo. Aí, entupimos a sala que tinha lá com brinquedos. Eram os inícios da psiquiatria infantil aqui por São Paulo. Os heróicos tempos. Até que o ambulatório começou a encaminhar pacientes. Um dia tivemos que dar a partida e chegou o meu primeiro paciente. Ele estava mais aterrorizado ainda do que eu. Ficamos os dois na sala. Tive um desdobramento de consciência. Quando ?acordei? estava no corredor da neuropediatria e um colega mais velho estava me chacoalhando e dizia: ?Di Loreto, o que está acontecendo, você está com um ar estranho?. Aí ?acordei? e lembrei-me de que havia deixado o paciente na sala. Veja o nível de ansiedade profissional em que se vivia. Ter vivido esses níveis bárbaros de ansiedade nos meus inícios é o que me vocaciona, hoje, para o ensino a jovens profissionais psis. Os psis recém-formados de hoje saem das faculdades tão ?perdidos? como eu, há 43 anos.

CRP - Nessa época, que crianças eram encaminhadas à psiquiatria?

Di Loreto - Era mais ou menos o que você tem hoje num consultório, enviados por uma triagem médica, pediátrica. Eram enviadas basicamente por distúrbios de conduta. Vinham aquelas descrições de que a criança não dormia, não comia, fazia xixi na cama, cocô nas calças, não obedecia, não ia bem na escola. Não existia muito a criança perversa de hoje. E não havia o problema das drogas. Havia, na época, muitas neuroses. A descrição das psicoses na infância e do autismo começava a chegar ao Brasil.

CRP - E na realidade de hoje, como o senhor definiria a criança?

Di Loreto - Você tem, hoje, os filhos da classe média e da aristocracia econômica que são parecidos com as crianças daquela época. Acrescido talvez de um fato novo, as crianças de hoje têm muito mais medo. Medo de andar pela rua, de assalto. Naquele tempo as crianças também gostavam de ter um tênis bonito. Só que depois de atormentar o pai e ganhar o tênis não tinham medo de que servisse de veículo para que ele fosse assaltado e, quem sabe, morto. Os objetos não vinham tão impregnados desse elemento mental, o medo. Se voltarmos ao Serviço de Psiquiatria Infantil do Hospital das Clínicas onde se atendia o povão miserável das favelas, hoje, encontraremos uma enorme predominância de violência, de perversidade. Ou seja, hoje há o jogo: a violência e o seu par inseparável, o medo.

O que mudou? Mudaram os neurônios da cabeça das crianças? Não, eles continuam iguais; o potencial com que nascemos é igual. O problema é o mundo aí fora. Vivemos numa sociedade cuja distribuição é ferradamente desigual, não é assim? A mente é o retrato do social internalizado no biológico, nos neurônios, no nosso cérebro.

Se há coisa que deforma a realidade profissional da nossa época é falar em psicologia no singular. De que psicologia se está falando? Há uma psicologia peculiar à classe média alta e à aristocracia, em que os meios, o instrumental utilizado, são os mais evoluídos e racionais possíveis. Mas são longos e caros. E há a psicologia do rude proletariado, da pobreza, em que se usam arremedos desse mesmo instrumental.

E aí entram as questões de mercado. Quem pode consumir isso? Eu criei um slogan irritante, mas que a prática demonstrou ser verdadeiro: esse nível de psicologia só é acessível aos cultos, ricos e ociosos. Porque exige cultura suficiente e a dimensão psicológica do homem ainda viva, ainda não massacrada pelo dia-a-dia, além da possibilidade de dispor do próprio tempo.

Recebo mães paupérrimas, que moram para lá de deus-me-livre, e que por alguma mágica ainda conversam comigo sobre o filho dizendo que ele está triste, ou alegre, ou que tem inveja, ciúme do irmão mais novo. Quer dizer, têm conservada essa dimensão psicológica. Mas há um grande número de pessoas que foram massacradas pela rudeza da vida. Muitas crianças, aos 6 anos de idade, já estão com um grau de ?carimbo? disso na mente que já não tem mais jeito.

CRP - E para esses não há alternativa?

Di Loreto - Inexoravelmente, essa psicologia evoluída só pode ser consumida por cultos, ricos e ociosos. Às vezes me perguntam e eu mesmo me pergunto a seguinte questão: ?Você, que pretende e exibe até a condição de testemunha ocular da história psi infantil nesses Brasis, o que escolhe como sendo o acontecimento que mais marcou os destinos e influenciou o trabalho psi nos últimos tempos?? Acredito que o fator que mais marcou os destinos da psicologia no Brasil foi a ousadia de transferir a psicologia, que estava boazinha, adaptada aos cultos, ricos e ociosos, para o rude proletariado. Costumo dizer que criamos um sistema de pregar com o serrote ou serrar com o martelo. O objetivo não combina com a ferramenta.

CRP - Mas foi justamente esse o desafio que o senhor assumiu quando partiu, na década de 60, para a Enfance. Como foi a experiência concreta nessa comunidade terapêutica?

Di Loreto - Esse desafio teve motivações gerais e motivações mais específicas e menores. A Enfance aconteceu num tempo em que era permitido sonhar com um mundo mais decente. A idéia do socialismo estava presente na cabeça de todos os bons caráter do Brasil da época.

Quando iniciei minha vida profissional, quanto mais evoluía, mais eu via que a prática psi alijava o profissional da visão social do homem e o colocava em contato com uma visão individual. Quando recebo um cliente cuja conduta é agressiva e hostil, como trabalhador psi não tenho instrumental que me permita alterar o fato de ele morar numa favela, de seu pai ser alcoólatra e espancá-lo ou à sua mãe etc. Não tenho ferramental para fazer alguma coisa contra tudo isso. Então o que me resta? Ver o que ele tem na mente e agir de forma a mudar alguma coisa dessas inscrições mentais. O campo de trabalho fica extremamente intrapsíquico. Dessa forma, quem tem a dimensão social bem desenvolvida, depois de passar longo tempo verificando o que tem dentro da cabecinha dessa criança, começa a se perguntar por essa dimensão social.

Um dos desafios da Enfance era irmos a lugares mais largos, do ponto de vista social, do que permite o trabalho em consultório. Criamos uma pequena sociedade substituta à família e um campo de investigação sobre se a vida numa sociedade modificada consegue mudar a cabeça. Criamos um lugar geográfico para onde os pacientes transferissem a vida inteira e não apenas a mente, em duas horas semanais.

Quando jovem e idealista, eu perguntava aos médicos mais velhos por que o hospital psiquiátrico era aquele horror. E eles indefectivelmente respondiam que ?a loucura é assim?. Eu escutava aquilo e me perguntava: ?Será que necessariamente o hospital psiquiátrico é esse horror?? Havia em mim o desejo de viver uma experiência em que se pudesse conduzir as coisas para a pesquisa. Na Enfance a assistência era uma espécie de decorrência natural do trabalho prático. O principal era responder à pergunta: será que necessariamente o hospital psiquiátrico é um horror?

E aí fomos para Diadema. Demos sorte e conseguimos formar uma preciosidade: uma equipe coesa, afinada, doutrinariamente organizada como grupo, com liderança, com comunicação interna.

E fomos para constatar aquilo que a rebeldia juvenil apontava. E constatamos. Na maioria dos pacientes esta condição de vida regredida a ponto de perder características humanas não tem nada a ver com a loucura. É lógico que há pacientes que têm o impulso regressivo maior do que o de outros, mas, mesmo nesses casos, se você investir humanamente não viram bicho.

Na Enfance não partimos para uma experiência psicológica, o que nos levaria a reproduzir um monte de consultorinhos lá dentro. Partimos para uma experiência social, microssocial. Não se pode reproduzir a sociedade dentro da instituição porque dessa forma não se modifica nada. É preciso que os benefícios e as rudezas existentes no mundo sejam repartidos de forma razoavelmente igualitária. Não me refiro a uma divisão linearmente igual, que caracterizaria o socialismo utópico. E é preciso considerar cada item da oganização social. Por exemplo, não se deve mentir sobre a realidade, mas possibilitar um viver realístico em todos os aspectos. Se não tem sobremesa hoje porque não se tem dinheiro, é preciso que isso seja dito. Da mesma forma, os aspectos mais psicológicos devem ser tratados com realismo. Um paciente agressivo tem que saber que é pesado conviver com sua agressividade, embora isso não me faça abandoná-lo. Ou seja, é preciso praticar uma psicologia do real e construir uma realidade hospitalar microssocial em que se procura dar sentido à vida.

A loucura é um acontecimento psicológico, mas tem sua origem principal no social. Tanto microssocial, como a família, como macrossocial. A loucura, sob suas múltiplas formas, como a violência indiscriminada, está intimamente ligada à organização social. Se se quer diminuir a loucura, é indispensável diminuir os pontos ruins, injustos, mentirosos, irrealísticos, alienantes das organizações sociais, micro e macro. Não é humanamente factível uma boa sociedade sendo o homem como é. O que vale é o esforço em torná-la melhor. É a disposição de melhorá-la que diminui a alienação, isto é, a loucura.

Não conheço coisa mais iníqua, enganadora e fabricadora de loucura do que a doutrina de ?deixar o bolo crescer para depois reparti-lo?, tão citada e usada pela direita brasileira. O bolo nunca fica de bom tamanho e nunca é repartido. Isso é o que fazíamos na Comunidade Enfance: nos esforçamos o tempo todo para criar uma boa sociedade. Com êxitos maiores ou menores, mas sempre lutando para isso. Isso é o que torna uma sociedade terapêutica. Para todos, pacientes e trabalhadores.

Dessa forma, conviver na Enfance era procurar dar sentido ao viver a vida. E o que quer dizer isso? Nós não levantamos de manhã só porque é hora de levantar, mas porque temos expectativas, compromissos. Então, aprontávamos mil coisas. Realizávamos torneios de esporte, de teatro, de ?fazer coisas?. Conseguíamos programas muito inteligentes, do tipo copiar a vida comum. Por exemplo, em que os brasileiros pensam, seis meses antes e seis meses depois da copa do mundo? Na copa do mundo. As nossas crianças, não é porque eram carimbadas de louquinhas, que eram diferentes disso. Portanto, havia aí um manancial infinito a ser explorado. O Brasil ia jogar, por exemplo, com a Romênia. Saíamos atrás do que era a Romênia nos atlas, olhávamos no mapa. Basta dar o impulso inicial que elas fazem o resto. Porque é muito estimulante. Não é à toa que em qualquer hospital psiquiátrico o paciente que levanta de manhã e não tem a expectativa de que vá acontecer alguma coisa vai ficando regredido mesmo.

Nós tínhamos que descobrir outros caminhos e descobrimos. Descobrimos que aqueles que ainda não têm a mente carimbada a ferro e fogo com a idéia de que gente não presta mesmo, se tiverem a oportunidade de viver um tempo razoável, 1 ano, 10 meses, numa pequena sociedade que não reproduza aquela de onde ele é originário, portanto uma sociedade artificialmente modificada, não viram bicho. E insisto, tem muito paciente que aos 6 anos de idade já tem esse carimbo definitivo na cabeça.

CRP - Mas como era a relação dos técnicos com os pais dessas crianças? Como vocês fechavam essa cadeia de relações?

Di Loreto - Na Enfance a internação era integral. Eles dormiam lá. Tanto que o nosso medo era que eles ficassem tão ajustados ao hospital que ficassem desajustados cá fora. Então havia um ?ato institucional?. Sexta-feira à tarde as famílias vinham buscá-los para passar o final de semana até o domingo de tarde. Nesse dia, reuníamos pais e mães em subgrupinhos e conversávamos com eles para tentar fazê-los entender os mecanismos pelos quais eles estavam enlouquecendo os filhos. Com alguns isso era suficiente, a origem da doença familiar era pequena e as pessoas eram muito plásticas, sensíveis. Esses entendiam e conseguiam mobilizar modificações. Desgraçadamente, devo testemunhar que é a minoria. Relações familiares tendem a ser algo muito estável e profundamente estabilizado.

Ainda assim continuávamos nos esforçando. Chamávamos as famílias além da sexta-feira para entrevistas, sessões durante a semana etc. Quanto mais você investe, mais aparece a probabilidade de êxito e o limite a partir do qual o outro é imodificável. E há aquelas famílias imodificáveis. Quando isso acontecia, investíamos apenas na criança. A expectativa era de que a criança, entendendo os mecanismos familiares que a estavam enlouquecendo, pudesse se defender melhor. E aí acontece de tudo. Havia crianças que percebiam isso com nitidez e tinham capacidade para começar a tirar mãe e pai ?de letra?. Havia casos em que a criança aprendia, mas o peso das patogenias era tão forte que ela não agüentava. E havia outros em relação aos quais nós até brincávamos que ?só se vivessem o resto da vida na comunidade?. Porque ali não eram nem agressivos nem passivos. Eram cooperativos, mas iam para casa, caíam no núcleo enlouquecedor e voltavam modificados. Segunda-feira era um dia em que eles vinham muito modificados.

CRP - A Enfance funcionou de 1968 a 1987, justamente no período da ditadura militar. Ela teve uma dimensão mais ampla do que a proposta de um serviço técnico. O que esse resultado tem a ver com o contexto?

Di Loreto - Quando começamos a experiência, tínhamos uma coisa que é sempre muito bom ter: um inimigo externo. E principalmente se esse inimigo for bem delimitado. Funcionou como uma espécie de ?reforço? o fato de estar num campo político que nos colocava numa posição não de revolucionários ? porque não estávamos em nenhuma Sierra Maestra, estávamos numa firma estabelecida ?, mas ao menos de oposição a tudo aquilo que estava acontecendo. Fazíamos oposição ?no varejo?, no microssocial. Quanto mais a sociedade ia ficando injusta, perseguidora, geradora de medos e de todas as demais porcarias, mais nos sentíamos impulsionados a fazer uma pequena sociedade hospitalar justa. Na medida em que a coisa começou a ficar ambígua ? lembram-se das ambigüidades do Figueiredo do tipo ?eu prendo e arrebento quem não quiser a democracia?? ?, nós também começamos a ficar confusos.

Mas não foi isso que derrubou a comunidade. Teríamos sido capazes de viver com essa ambigüidade por muito tempo. O que fez a comunidade encerrar, foi que nós, muito envolvidos no projeto de pesquisa, descuidávamos muito da realidade, de precisar ganhar dinheiro, das contas no final do mês. Vivíamos uma espécie de delírio de laboratório em relação às exigências mínimas da vida. E nisso fomos nos afundando. As condições não eram muito favorecedoras.

Na Enfance, fazíamos a vida enxutíssima, igualitária, não havia ala particular, não havia ala de indigente. A regra era outra. Todos dormiam nos mesmos quartos. E, às famílias ricas, avisávamos isso, assim como avisávamos que o que levassem para os filhos seria dividido entre todos. Não é preciso dizer que isso afastou toda a classe média e a aristocracia e começamos a trabalhar mais e mais com convênios que não pagavam quase nada. Além disso, fazíamos projetos que afrontavam a nossa realidade, mas que faziam parte da fantasia de uma pesquisa. Por exemplo, chegamos a ter uma residência formal para transformar jovens psiquiatras em psiquiatras comunitários. Ou seja, de um lado não tínhamos dinheiro para pagar o padeiro e de outro ficávamos fazendo programas de ensino, como se fôssemos uma universidade. Parece que tínhamos uma idéia de que aquilo não poderia durar muito tempo. Era idealizado demais.

CRP - O senhor concluiu que é inviável manter um projeto desses na realidade macrossocial que temos?

Di Loreto - Exatamente. O microssocial fica muito discrepante no macrossocial.

CRP - Mas a Enfance cumpriu a função a que se propunha, de pesquisa, e respondeu à questão sobre se os hospitais necessariamente devem ser tão desumanos.

Di Loreto - Respondeu, sem dúvida. Ficou demonstrado que não necessariamente o hospital psiquiátrico precisa ser o horror que é. Não ficamos apenas no plano da retórica. Pesquisamos e chegamos a uma ideologia e a uma prática. Depois de alguns anos, eu era capaz, como fui muitas vezes, de dizer qual é a receita de se fazer um hospital psiquiátrico humanizado, dinâmico, que trate os loucos e onde eles não se tornam regredidos.

Além disso, a Enfance deixou demonstrado acima de qualquer dúvida razoável que há uma terceira porta de entrada para trabalhar com a doença mental, além das únicas que a psicologia e a psiquiatria usam ainda hoje, que são a porta de entrada biológica, os fármacos, e a porta de entrada psicológica, as psicoterapias. Deixamos demonstrado que há uma porta de entrada social. Se você cria uma pequena sociedade modificada, com características sociais justas, equânimes, verdadeiras, ligadas à realidade, que procura cultivar relações humanas não tóxicas etc., isso tem o mesmo efeito modificador sobre a cabeça do paciente que têm as portas de entrada biológica ou psicológica.

CRP - Depois de chegar a essas conclusões, como o senhor avalia o movimento pela luta antimanicomial?

Di Loreto - Eu tenho sentimentos ?esquizofrênicos? em relação à luta antimanicomial e assemelhados. Tenho muito respeito e admiração por essas pessoas que saíram ativamente para essas lutas. Sem eles, teríamos ficado no plano retórico de estudar não sei o quê e continuaríamos do mesmo jeito. Eles saíram para a luta. E houve mudanças significativas. Hoje o que se interna é um décimo ou um vigésimo do que se internava quando eu comecei a profissão.

No entanto, não tenho a mesma admiração por eles hoje. Porque esses movimentos não mudaram o seu alvo à medida que foram tendo ganhos. E o alvo a que me refiro é produzir conhecimentos teóricos e práticos sobre o que colocar no lugar do hospital psiquiátrico destruído, da instituição negada. Destruímos o hospital, como se isso acabasse com a loucura. Isso não é verdadeiro. Apenas criou uma nova tarefa: o que colocar no lugar? O campeão da instituição psiquiátrica negada, Franco Basaglia, tinha isso muito claro na sua mente. Os hospitais-dia são muito complexos. Conseguir que se tornem realmente humanizados, dinâmicos e terapêuticos implica a obtenção de conhecimentos, de técnicas e habilidades imensas. O velho hospício era pobre e simples. As novas instituições psis sendo multidisciplinares são complexas. Harmonizar as gigantescas rivalidades e invejas entre os profissionais não tem se mostrado tarefa fácil. Ainda não aprendemos a trabalhar juntos. Tornar o ambulatório psi eficiente não é fácil.

Por isso eu digo que mantenho o respeito e a admiração integral pelo que foi conquistado. Eu não saí para essa luta e não faço jus aos méritos em relação a esses ganhos. Participo mais do segundo pedaço, que é fornecer idéias e práticas sobre o que colocar no lugar. Há um aspecto sobre o qual todos nós podemos nos enganar com facilidade na luta antimanicomial, que é o seguinte: não é fácil enxergar que tendo sido mantido por séculos todo o atendimento psiquiátrico praticamente centralizado dentro do hospital, no momento em que essa estrutura foi implodida, toda a rede de necessidades começou a aparecer. Toda a rede de atendimento estava disfarçada, parecia que não existia porque estava embutida dentro do hospital. Assim, quando o hospital implodiu, nós começamos a nos ver às voltas com todas as necessidades. Essa luta implica agora uma outra etapa, a de produzir pesquisas e conhecimentos.

CRP - Qual a sua opinião sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente? Nossa criança cabe dentro dessa lei?

Di Loreto - Se estiver num surto delirante e quiser idealizar sem nenhum compromisso com a realidade, você fabrica um Estatuto da Criança e do Adolescente mais ou menos igual ao que está aí. Agora, no momento em que não estiver mais delirando, você verá que este Estatuto não reproduz em nada o que está acontecendo na realidade e freqüentemente até dificulta, porque é fruto de idealizações. Eu vejo, por exemplo, o Judiciário ser profundamente pressionado a ?tomar medidas?. Aí encaminham as crianças para esses serviços sem nenhum recurso. Legalmente elas estão em liberdade ?assistida?, mas na maior parte dos casos isso é uma grande mentira. Onde estão os recursos? As condições macrossociais brasileiras, sociais, políticas e econômicas, que, é lógico, influenciam as microssociais, família, escola, hospital, são tais que produzem loucura em escala industrial. Mas os recursos técnicos que temos são de escala laboratorial.

Quer escala mais laboratorial do que pegar um a um e investir muito tempo e muito dinheiro? Então os recursos que se jogam em escala laboratorial, frente às necessidades em escala industrial, vão para o ralo, desaparecem. Esse é o grande problema. Hoje, se pegarmos todo o PIB do Brasil e destiná-lo durante cinco anos para a recuperação das pessoas loucas, agindo em escala laboratorial, como seria necessário fazer, não seria suficiente. O caminho viável para diminuir a loucura são as modificações macrossociais, nos quadros político e econômico.

CRP - Tomando como base esse seu raciocínio, o que é ser um trabalhador psi hoje?

Di Loreto - Eu penso que é difícil ser um trabalhador psi hoje. Os trabalhadores psis são levados, pelas condições de realidade social, a trabalhar com as duas pontas da escala sócio-econômica. A infinita pobreza e a infinita riqueza. E é pavoroso o que ocorre com a mente das pessoas nessas duas pontas. Nisso, eles curiosa e ironicamente tendem a funcionar como se fossem iguais. Eles se reproduzem pelo contraste. A infinita pobreza leva, em relação à infinita riqueza, a desvantagem de que as coisas se apresentam mais feias. Na infinita riqueza, tem um cenário mais bonitinho. O miolo de onde sai a origem dos distúrbios psíquicos é o mesmo. Mas tem hora que o cenário é importante.

E como o Brasil não tem tanta aristocracia econômica assim, e a que tem já está sendo atendida pelos profissionais velhos e mais conhecidos, ser hoje um jovem profissional psi te coloca quase que obrigatoriamente na condição de trabalhar com a infinita pobreza, nesses ambulatórios da prefeitura, do Estado. Ou seja o que espera o jovem mal preparado, saído de uma faculdade enganosa e enganadora, que não lhe deu o menor recurso prático de formação? Depois de batalhar muito, o que o espera é um emprego na prefeitura. Aí, ele é jogado num desses ambulatórios para onde vão as grandes desgraças. E voltamos à questão de que os recursos são poucos, caros, longos, complexos e difíceis.

E o que ele vai encontrar de possibilidade é serrar com o martelo e pregar com o serrote. Ou seja, ele vai ficar manejando instrumentos longos, complexos, difíceis e caros para uma clientela que não tem a menor condição de corresponder a isso. São pessoas com necessidades imediatas, sem recursos para todas essas exigências de vir ao ambulatório toda semana, freqüentemente embrutecidas pela dureza da vida, embrutecidas psicologicamente. Então fica o desencontro e as pessoas saem, desesperadas, atrás de recursos mais rápidos, mais fáceis e que, se não são eficientes, ao menos se apresentam como tal. E vão cair nas terapias de vidas passadas, nos tarôs ou nos remédios, que são rápidos, fáceis e baratos.

Essa é a realidade que vem se acentuando depois que se perdeu a esperança de que pode existir um mundo melhor. Quando eu era jovem, não importava se esse mundo melhor existia ou não, nós corríamos atrás dele, portanto, havia uma causa que dava sentido à vida. Essa esperança me alimentou por décadas. Mas a tal da modernidade deixou estabelecido, principalmente para o jovem, que o mundo é dos espertos, que tem que sair batendo para sobreviver e não tem utopia para sonhar. Eu não queria ser um jovem psi hoje.


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