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cadernos temáticos do CRP/SP

Eu sou disléxico, isso é importante colocar. Tenho uma irmã que também é disléxica. Tenho um assessor meu que também o é.

Em 2007, junto com a Associação Brasileira de Dislexia, ABD, nós propusemos, aqui nesta casa, um projeto de lei sobre a Dislexia, que debatemos intensamente com a sociedade, cujo fechamento foi coroado através da realização de um Seminário, realizado nesta casa no final do ano de 2008.

Quando nós aprovamos, em primeira instância, este projeto, fomos procurados pelo vereador Eliseu Gabriel e pelas as entidades de Psicologia que queriam debatê-lo, colocando sua posição contrária ao mesmo. O Conselho Regional de Psicologia e as entidades de Psicologia são contra a existência da Dislexia. Essa foi a nossa grande surpresa.

Em reunião, no meu gabinete com estas entidades, eu fiz o seguinte acordo: que nós não aprovaríamos a nossa lei em segunda instância sem antes fazermos um novo seminário que propiciasse um debate claro, aberto e democrático, para discutirmos melhor e mais aprofundadamente a questão da Dislexia.

No decorrer da preparação deste Seminário, cumprindo o acordo estabelecido, o que aconteceu? As entidades de Psicologia não reconhecem a existência da dislexia, ficando muito difícil discutir uma proposta, uma vez que estas entidades discordam de seu principal fundamento, ou seja, a existência da Dislexia, a qual é sabidamente reconhecida em instâncias estaduais, nacionais e internacionais.

Nós, a ABD e outras entidades, que viriam a somar no debate, dele nos retiramos, por isso, o que antes seria um debate acabou virando um seminário. Nesse sentido, eu fico um pouco triste. Primeiramente pelo seguinte: O nosso projeto de lei é muito simples. O que nós queremos fazer? Nós queremos que todas as crianças matriculadas na rede municipal de ensino, respondam a um questionário, cujas respostas serão avaliadas por profissionais da área, cujo objetivo será o de identificar se aquela criança, aquele menino ou aquela menina, têm algum problema de aprendizado. Depois de avaliadas estas respostas, caberia à Secretaria Municipal de Educação, a busca de uma solução para melhor trabalhar os problemas detectados, de forma conjunta ou separadamente.

Nosso projeto é muito simples, não tem nada de extraordinário, mas fica muito difícil, onde há entidades importantes como a dos psicólogos, que são contrárias ao reconhecimento e à existência da Dislexia.

No meu entendimento, a Dislexia não é uma doença, é um distúrbio.

Em todos os países do mundo existem vários trabalhos científicos, inúmeros especialistas falando sobre o assunto, além de vários livros publicados, mesmo aqui no Brasil. Fica aí uma situação constrangedora, porque que o Sindicato dos Psicólogos coloca como se a Dislexia não existisse.

Vamos colocar um pouco a mão na consciência. Ela tanto existe que nós estamos aqui debatendo essa questão. Esta é a realidade, estamos aqui debatendo esta questão porque ela existe.

E ela não só existe como é um problema muito sério. Aí, vou contar um pouco de quando eu era jovem e estava na escola: Eu sou disléxico e minha irmã mais nova era disléxica. Minha irmã tinha mais dificuldade do que eu e foi para aquelas classes especiais. Na escola, eu, particularmente, tinha vergonha de ficar perto da minha irmã porque ela era diferente das outras crianças. Havia aquelas salas especiais, em que se colocavam crianças que apresentavam vários tipos de problemas mentais. Dislexia era uma situação muito constrangedora. Eu, para terminar meus estudos, fui fazer supletivo porque não consegui me formar na escola pública. Só estou colocando isso porque é algo tão sério, de tanta responsabilidade, que não dá para simplesmente colocar assim: ?Nos somos contra porque isso não existe?.

Eu peço, de todo o coração, para que o Conselho Regional de Psicologia e demais entidades do setor, venham debater conosco a questão do nosso projeto de lei, porque nessa casa a relação política é diferente das relações institucionais. Eu só não aprovei este meu projeto em segunda instância porque eu fiz um acordo com vocês e cumpri a minha parte. Vai ter oposição? Vai ter oposição. Posso perder? Posso perder, mas também posso ganhar. Posso ter uma relação com o Executivo que vai sancionar ou não a minha lei. Também posso abrir um debate com a Secretaria Municipal de Educação e, se for o caso, com a Secretaria Municipal de Saúde, embora reconheçamos que Dislexia não é doença. A Secretaria de Saúde, portanto, no nosso entendimento, seria para outro tipo de discussão.

Eu só estou colocando isso, estou desabafando um pouco, pois, fiquei um tanto triste porque poderíamos estar aqui com o dobro de pessoas discutindo a questão da Dislexia, todos nós, juntos para solucionar o que a gente quer garantir através da aprovação do nosso projeto de lei.

Juscelino Gadelha
Vereador no Município de São Paulo e autor do PL 86/20006.

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