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Saúde para pessoas LGBT

Anna Paula Uziel
Professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisadora associada do Centro Latino-americano de Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM/IMS/UERJ)1.



Gostaria inicialmente de agradecer o convite. É muito bom estar aqui em um Conselho de Psicologia. Nossa profissão no Brasil, a meu ver, demorou muito tempo para entrar no debate sobre Famílias GLBT2

De início quero convidá-l@s a conhecer o Centro Latino-americano de Sexualidade e Direitos Humanos, o CLAM, que é um centro de excelência de trabalho nos estudos sobre sexualidade. Temos uma linha de publicação que é a coleção Sexualidade, Gênero e Sociedade, com três séries e vários volumes publicados. Sobre o tema que vou discutir aqui temos dois livros, Homossexualidade e Adoção, de minha autoria, baseado na minha tese de doutorado, e o outro se chama Conjugalidades, Parentalidades e Identidades – Lésbicas, Gays e Travestis, uma coletânea organizada por Miriam Grossi, antropóloga, professora da UFSC; Luiz Melo, sociólogo, professor da UFG e por mim.

Montamos, em 2004, uma rede chamada Parceria Civil, Conjugalidades e Parentalidades. Fizemos reuniões e discutimos estes temas em todos os eventos dos quais participamos, propondo sempre mesas redondas e grupos de trabalho. Em pauta, estão sempre questões relativas à parentalidade gay, lésbica, travesti e transexual. De 2007 para cá, tomamos a decisão de ampliar um pouco as temáticas porque costumamos dizer que parentalidade e sexualidade estão atravessadas pelas discussões sobre famílias recompostas, recasamentos, mono parentalidade, pluriparentalidade. Não tem nada neste universo que seja restrito à questão da homossexualidade, ainda que não queiramos, com afirmações como essa, desconsiderar a homofobia3 presente na nossa sociedade. As discussões sobre parentalidade e homossexualidade levantam questões sobre família e nisso não temos o que diferenciar.

Vou contar quatro histórias aqui para nos ajudar a pensar a questão proposta. Os nomes obviamente não são esses, mas as quatro histórias são reais. Amanda procurou uma Vara da infância no Rio de Janeiro porque queria adotar Marcelo. Na verdade, gostaria de legalizar a situação, já que era mãe dele há tempos. Como em seu documento de identidade ela se chamava Pedro, a sugestão dos (as) psicólogas (as), que compõe a equipe técnica da Vara, foi que ela o adotasse como pai dele, lugar ocupado no cotidiano familiar por Vando, companheiro dela. O técnico gostaria de ajudar a resolver a situação, reconhecia o afeto e a relação parental existente ali. No entanto, com essa saída, legalmente ela viraria pai do menino, e ela não queria isso e nem o companheiro, que era efetivamente o pai. Tentando garantir a continuidade dessa família, que outras soluções poderíamos vislumbrar? Havia uma urgência. A vida dessa criança e desses adultos estava em jogo. Pensei: “bom, você pede a guarda, troca o seu nome, e depois, quando você tiver nome de mulher, você volta e o adota como mãe”. Ela era uma mulher, você olhava para ela percebia isso. O menino a chamava de mãe, como poderia ser o pai? Não sei qual foi o desfecho, mas quero apontar a importância do trabalho do psicólogo (a), que é chamado o tempo todo a se posicionar na justiça. E é da psicologia que pode vir uma sugestão que atenda as partes envolvidas; um olhar mais desprendido do status quo.

1 Atualmente, coordeno o Laboratório Integrado em Diversidade Sexual, Políticas e Direitos – LIDIS da UERJ.
2 É preciso ter clareza que nos últimos 5 anos a Psicologia tem se apropriado bem mais deste debate.
3 À época do seminário o debate sobre o projeto de lei 122, que criminaliza a homofobia era muito incipiente.

Outra história. Roberto queria adotar uma criança e passou por todo o processo de habilitação. Quando, enfim a localizou em um abrigo, a equipe do serviço social foi fazer uma visita domiciliar em sua casa e viu que havia outro homem morando lá e apenas um quarto, além do preparado para o filho, com uma cama de casal. Isso é um dos casos do meu livro. O que eu levanto, na minha pesquisa, é se temos que falar sobre a sua orientação sexual, quando o que está em pauta é o desejo desse homem de ser pai. Inclusive porque a heterossexualidade é absolutamente invisível neste caso, é uma pressuposição, não precisa ser falada; todo mundo é heterossexual em princípio.

A paternidade ainda está muito atrelada à conjugalidade em nossa sociedade, apesar das mudanças, que não são poucas.

Foi por isso que o serviço social, quando o entrevistou – e o mesmo ocorreu com a psicóloga – não aventou a possibilidade de esse sujeito ser gay. O rapaz passou pela habilitação sem mencionar nada, ninguém perguntou nada. O que, por outro lado, poderia ser estranho porque eu percebi, fazendo o trabalho da tese, que quando um homem vai tentar adotar sozinho, tem-se a suspeita sempre de que ele seja homossexual. A paternidade ainda está muito atrelada à conjugalidade em nossa sociedade, apesar das mudanças, que não são poucas. Mas ele passou sem despertar desconfiança. Era um rapaz que se vestia como tal. Estou falando isso em função de comentários que ouvi em certa ocasião, ainda na Vara, em relação a um jovem que pretendia adotar uma criança. Ele foi buscar informações e, assim que saiu, todos os funcionários comentavam sobre seu jeito afeminado. Na entrevista ele havia dito que não tinha se deparado ao longo da vida com nenhuma mulher com quem quisesse viver, e não queria deixar passar o tempo de ser pai.

Quando o serviço social se depara na casa dele com essa outra pessoa, fica absolutamente sem saber o que fazer, e procura a Psicologia: “vocês têm que ir lá, conversar com esse cara, chamá-lo aqui, porque eu estou achando que ele é homossexual e não disse isso”. O que significa não ter mencionado esse aspecto da sua vida? Um problema com sua identidade? A Psicologia pode entender dessa forma, o que eu acho um risco, um engano. Será que ele não disse porque acha que não pode confiar? Será que ele acha que isso é uma coisa menos importante? Será que dá para confiar numa pessoa dessas que mente sobre uma coisa tão importante da vida? Essas são algumas das hipóteses e questões levantadas. Ele depois afirma muito tranquilamente para a psicóloga que não achou pertinente dizer. Inclusive porque ele achou que isso pudesse ser um empecilho e a gente sabe que boa parte das vezes, pelo Brasil afora, embora isto não esteja previsto na lei, a pessoa que se declara gay ou lésbica – travesti, então, é uma outra história, mais complicado ainda – tem chance de não conseguir adotar a criança. Mas nesse caso era uma relação estável, de muitos anos, e o requerente conseguiu adotar a criança, deu tudo certo.

Partiremos agora para as duas últimas histórias, que são casos da mídia. No Rio de Janeiro, em 2001, a cantora Cássia Eller morre e Eugênia, sua companheira, ganha na Justiça o direito de ficar com a guarda do filho dela, Chicão, que a chamava de mainha, inclusive. A escola, a terapeuta e a empregada da casa do Chicão foram ouvidas e isso contribuiu para a decisão, além de a mídia ter divulgado uma imagem oportunista do pai de Cássia, quando ele reivindicava a guarda do neto. Em Catanduva, em 2006, Theodora é adotada primeiro por Vasco. Em seguida, Júnior, seu companheiro, pôde ter seu nome na certidão da menina também como pai. Era a primeira vez no Brasil que os nomes dos dois pais constavam na certidão de registro civil.

A homossexualidade não deve ser chancela para concessão de adoção, tampouco para negá-la.

Embora no Rio, na época da minha pesquisa, ou seja, final dos anos 1990 do século XX, os pareceres dos psicólogos e dos assistentes sociais fossem favoráveis à adoção por homossexuais, o Ministério Público negava. Passava pelo serviço social, pela Psicologia, ambos favoráveis – salvo em casos em que havia alguma suspeita em relação à sanidade mental do requerente ou comportamentos que revelassem risco para a criança. Chegava ao Ministério Público, que se colocava contrário, e o processo ia para o juiz, que dava uma sentença favorável. O Ministério Público entrava com um recurso, ia para segunda instância, o desembargador era favorável. E essa história se repetia em vários processos.

A homossexualidade não deve ser chancela para concessão de adoção, tampouco para negá-la. São outros os aspectos, que não a orientação sexual dos pais, que devem estar em análise quando a questão é ser pai ou mãe.

Na época da pesquisa eu buscava apenas casos de gays e lésbicas, acredito que a questão das travestis, por exemplo, seja mais complicada, gere mais preconceitos e temores. E a transexualidade é ainda outra questão, não vamos tratar das duas aqui. Então vou concentrar a minha fala pensando nas questões ligadas a gays e lésbicas, mas vou abordar rapidamente reflexões sobre parentalidade travesti.

Existe o trabalho da Fernanda Cardoso, que eu recomendo. Ela também tem um artigo na coletânea que eu citei no início, que foi realizado na UFSC sob orientação de Miriam Grossi. A travesti é uma figura que tem mais dificuldade para entrar no mercado de trabalho, para acessar a Justiça e garantir seus direitos de um modo geral. O temor em relação a pessoas que em princípio escapariam mais da lógica binária marcada pelo masculino e feminino bem delimitados é maior. Inclusive por parte de psicólogos (as) pouco preparados (as) para lidar com questões que escapem aos contornos mais comuns. Se a parentalidade de gays e lésbicas hoje é um pouco mais palatável, e aí eu também estou falando entre os profissionais psi, quando entra na questão da travestilidade isso se complica um pouco mais.

São outros os aspectos, que não a orientação sexual dos pais, que devem estar em análise quando a questão é ser pai ou mãe.

Tem outra coisa que aparece no campo da Fernanda Cardoso e se repete na entrevista que a gente fez com uma travesti que tinha três filhos, sobre referência de gênero. Elas falam sobre elas no feminino quase que o tempo todo, mas às vezes vão para o masculino. Então, por exemplo, essa travesti, que nós entrevistamos, tinha três filhos. Ela convivia com dois que a chamavam de pai; nunca teve contato com o terceiro filho. Um dos filhos era da empregada, que acabou deixando para a nossa entrevistada criar. Contou que um dia, seu filho estava na casa de um dos amiguinhos e comentou: “o meu pai tem vestidos muito mais bonitos do que esses”.

Nossa entrevistada ficou muito preocupada com a repercussão disso. Primeiro, porque estava revelando alguma coisa da vida dela. Depois, o que os pais do amiguinho iam fazer com essa informação? Tanto em relação a ela, quanto à seu filho e o filho deles. A entrevistada tinha uma filha mais velha, já adulta, que a chamava de pai. Eles se adotaram mutuamente, já quase adulta, embora não tivessem nenhum vínculo legal. Tem uma complexidade aí. Na verdade, a situação não parecia trazer incômodo, não tinha uma coisa de “Ah, eu queria que me chamasse de mãe, eu queria que me chamasse pelo nome”. O que a gente vai fazer com esse universo? Porque isso vai bater na Psicologia de qualquer maneira, vai bater na Justiça, no atendimento no consultório, no hospital. Aí, o psicólogo (a) vai ser chamado e vamos fazer o que com essa diversidade?

Quando fui fazer a pesquisa, consegui apenas um caso de mulher. Certamente havia lésbicas adotando crianças, mas não se tem como chegar nestes casos, não há registro da orientação sexual do requerente, é apenas por meio de indicação dos profissionais da Vara. Como a maternidade é muito naturalizada e não precisa da conjugalidade para se efetivar, no cotidiano, não havia estranhamento quando uma mulher queria adotar sozinha uma criança. Se ela não mencionasse que era lésbica, não haveria esse registro. O caso a que tive acesso só ficou evidente porque ela participou de todo o processo com a companheira.

Durante alguns anos, nas fichas dos casos atendidos na Vara da Infância que pesquisei, começou-se a perguntar sobre a orientação sexual. Para que serve na Justiça esse tipo de informação, além da estatística? A menos que vá subsidiar pesquisas, mas no Brasil não temos tradição de pesquisas como, nos Estados Unidos, nossas perguntas são outras. Lá, as pesquisas buscam saber como é o desenvolvimento da criança, se ela tem algum distúrbio psicológico, algum comprometimento emocional em função da homossexualidade do pai e da mãe, ou dos pais e das mães.

Por que tamanha diferença no foco? Talvez porque poucas pessoas tenham se debruçado sobre esta temática. Ou, sendo mais otimista, porque esse jeito de pensar não combina com a nossa lógica, ou seja, não tem sentido a gente pensar que existe algo na educação dessa criança que possa ser específica por conta de o pai ser gay ou a mãe ser lésbica, ou danosa por princípio, que possa gerar um distúrbio.

Podemos discutir sem preconceito – já definimos de que lado estamos – se é ou não é diferente para a criança ter dois pais ou duas mães. Tem diferença se numa reunião de pais na escola chegarem dois homens ou duas mulheres? Diferença para quem? Isso não significa que tenha alguma diferença em relação ao afeto, em relação à forma como essa criança vai ser criada, nada disso. Mas num primeiro momento, de fato, tem uma composição ali que é diferente do que se está acostumado. E a escola precisa refletir sobre esses formatos para que pais e mães possam circular por seu espaço sem gerar espanto, confusão, constrangimento. É mais uma diferença, como muitas outras.

Tem uma militante lésbica do movimento LGBT que entrevistamos há alguns anos, e que nos surpreendeu, confesso. Porque ela disse que acha um absurdo uma criança ter dois pais ou duas mães. Diz que as pessoas podem viver juntas, formar um casal, mas cada um com seus filhos. Não esperávamos uma fala assim, vindo de uma militante. Depois ela disse uma coisa interessante. Quando perguntamos de que forma a homossexualidade atravessava a vida da família dela, disse achar que seus filhos eram mais tolerantes, que eles conseguiam lidar de outra forma com a diferença, com a diversidade. Eles eram negros, todos, ela tinha dois filhos adotivos, os dois filhos negros, ela negra, e ela dizia: “a gente já sabe que tem que lidar no cotidiano com a adversidade da cor da pele, então é mais uma adversidade”.

Tem diferença se numa reunião de pais na escola chegarem dois homens ou duas mulheres?

Tem um processo educativo aí, é importante levar isso para formação da Psicologia também. Porque, na formação, a gente não discute essas questões. Com raras exceções. Precisamos de fato começar a falar nisso.

O direito ao reconhecimento da vida a dois, seja lá que nome tenha, é uma bandeira e virou tema da Parada LGBT há tempo.

No movimento LGBT tem uma discussão grande sobre a questão da conjugalidade. Foi o que percebemos em outra pesquisa que fizemos no Rio de Janeiro com lideranças do movimento. Porém, não se tem necessariamente uma relação entre a conjugalidade e a parentalidade, como reivindicação. E mesmo a conjugalidade recebe diferentes nomes como casamento, parceria, parceria civil. De todo jeito, o direito ao reconhecimento da vida a dois, seja lá que nome tenha, é uma bandeira e virou tema da Parada LGBT há tempo. A parentalidade, no entanto, pelo menos nos últimos anos tem sido tratada no Rio mais como uma questão de cunho privado. Quando chega alguém em um grupo LGBT precisando de uma ajuda, de assessoria jurídica, um encaminhamento psicológico, um esclarecimento sobre parentalidade, este é prestado, mas não aparece como bandeira do movimento. Quando começamos a pesquisa, esta questão da parentalidade só aparecia quando a gente provocava. No discurso militante que encontramos pareceu haver certa hierarquização de direitos a conquistar e a parentalidade está longe do início da lista. Como se fosse preciso obter direitos básicos primeiro, que seriam os de ser respeitado na rua, poder andar em público com seus parceiros sem ser molestado ou violentado de formas variadas, poder manifestar carinho, amor, atração de forma mais livre. Na sequência viria a conjugalidade, benefícios e direitos decorrentes desse reconhecimento e outros a partir daí.

No doutorado trabalhei com entrevistas e com análise de processos. E uma frase de uma assistente social me chamou muito a atenção. Ela dizia: “Homossexual ter filho é que nem comer bife de soja”. Essa coisa da estranheza. Como se algo estivesse errado, fora do lugar. Eu fiquei me perguntando: e qual é o discurso que aparece, que é oferecido, que é utilizado nas entrevistas que eu fiz? O discurso mais politicamente correto, que diz inclusive que não tem problema o homossexual ter filho. Tem duas questões curiosas aí que apareceram mais nos processos, mas que falam sobre o posicionamento dos técnicos. Uma é essa ideia de que essa parentalidade homossexual tem que ser monoparentalidade. Qualquer pessoa heterossexual que chegue lá na Vara para adotar uma criança vai se levar em consideração se ela consegue fazer vínculo, se ela tem um relacionamento estável, se ela já teve na vida – ela não precisa ter naquele momento, inclusive porque ela não precisa adotar em conjunto, a lei não exige um casal. Mas será que ela é capaz de manter uma relação estável? Isto é uma das questões que são avaliadas. Podemos discutir se são pertinentes ou não, não é o caso aqui, mas é uma questão importante para ser avaliada. É curioso que quando o homem se declarava gay, uma das preocupações da equipe técnica era, pelo menos do que eu pude apreender lendo os processos, se ele tinha ou não parceiro. E ter um parceiro, no caso deles, era sinônimo de risco, não era bem avaliado, como no padrão de adoção. Isso de forma sutil. No entanto, apesar de não ser dito explicitamente pelos técnicos responsáveis pelas entrevistas, havia nos processos um monte de promessas dos sujeitos de que não iriam namorar, de que não teriam nenhuma relação estável até que a criança ficasse grande.

Uma é essa ideia de que essa parentalidade homossexual tem que ser monoparentalidade.

Há certa subversão da ordem nesse sentido, na medida em que se escapa do script do que é detectado como bons candidatos à adoção. Esses atributos comuns e acordados não são buscados. É muito curioso, quer dizer, que mecanismo é esse que faz com que se subverta a ordem? Essa ideia da promiscuidade, esse medo do abuso sexual, isso é muito mais forte que algo que se acha importante para o exercício da parentalidade. E o sujeito fica sem saída, porque se diz que tem um parceiro, é um risco potencial de a criança ser abusada pelo casal ou por um com a conivência do outro. Se não tem parceiro, entra o fantasma da promiscuidade, da falta de estabilidade do lar.

Na verdade, a impressão que eu tenho é que, quando se juntam essas duas questões, família e homossexualidade – tem um texto da Claudia Fonseca4 que fala disso – há um descompasso. Como é que você vai juntar alguma coisa que é tão sagrada como a família, com algo que pode estar só no prazer, ou na promiscuidade? Um homem gay querer ser pai é um pouco misturar essas coisas. Então, a forma de manter isso separado, é dizer, “bom, você é gay, mas seja discreto e sozinho”.

Teve uma dissertação de mestrado do Alberto Carneiro5, defendida na PUC-RJ, em que ele entrevistou companheiros de homens de camadas médias que tiveram filhos de relações heterossexuais anteriores e que agora viviam uma conjugalidade homossexual e as crianças moravam com eles ou não, mas havia convivência de toda forma. Foi muito comum os companheiros dizerem que o casal não dorme junto quando as crianças estão em casa. Supondo que a criança não vá saber, pretendiam passar por dois amigos ou pessoas que dividem o apartamento. Ninguém pergunta para a criança se ela sabe, ninguém conversa com a criança sobre esse assunto, é algo ainda difícil de por em pauta no âmbito familiar.

Pensando na Psicologia, tem uma demanda para que o (a) profissional se posicione em relação a esta outra revelação. Quando se trata de adoção, sejam os requerentes à adoção quais forem, existe uma dúvida, uma angústia sobre contar à criança sobre sua origem e de que forma. Processo semelhante se passa em relação à revelação da homossexualidade para os filhos. E se demanda auxilio do psicólogo (a), agora para a dupla revelação.

4 FONSECA, Claudia, 2003, “Sexualidade, familia e legalidade: questionando fronteiras”, in: ÁVILA, Maria Betania, PORTELLA, Ana Paula e FERREIRA, Veronica. Novas legalidade e democratização da vida social: familia, sexualidade e aborto. Rio de Janeiro: Garamond, 53-64.
5 “Se ele é artilheiro, eu também quero sair do banco”: um estudo sobre a co-parentalidade. Dissertacao de mestrado em Psicologia Clínica, defendida na PUC-Rio em 2008.

Outro aspecto que eu gostaria de sublinhar e se liga com o anterior na medida em que novamente a homossexualidade vai reeditar questões relativas à adoção, é o que estamos chamando de discurso do mal menor. Os desembargadores, por exemplo, afirmam: “... esta criança estava abrigada há 9 anos, agora finalmente ela vai saber o que é o amor de um lar”. Então é melhor ela ser adotada por um homossexual do que ficar num abrigo, na verdade é isso. Essa questão do mal menor tem sido um argumento muito forte, muito utilizado. Claro que a gente sabe da realidade do Brasil, a gente sabe da situação de pobreza que acaba empurrando as crianças para os abrigos, fazendo com que elas fiquem mais tempo. As pessoas em geral querem adotar bebê, de preferência menina, branca e recém-nascida. Essa é a preferência nacional, é generalizado: quanto mais menina, mais branca, mais nova, mais desejável.

Todo esse contato com processos e agentes nos fez querer pesquisar, por exemplo, se há diferença entre o perfil geral de procura de crianças e aquele desenhado por pessoas que se declararam homossexuais. Ou seja, que crianças gays e lésbicas procuram, quando se candidatam a pais e mães? Repetem o padrão nacional e buscam bebês meninas brancas? Possuem um espectro maior, por não sonharem com fraldas e mamadeiras? Aceitam ou desejam grupos de irmãos, crianças doentes, ou seja, o que se concebe como excluídos, não desejados?

Os desembargadores, por exemplo, afirmam: “... esta criança estava abrigada há 9 anos, agora finalmente ela vai saber o que é o amor de um lar”.

Percebemos por meio dos processos que os homens gays que adotaram as crianças não escolheram bebês

Percebemos por meio dos processos que os homens gays que adotaram as crianças não escolheram bebês. Pode ser que eles não quisessem um. Vemos, por exemplo, que são esses homens que acabam adotando crianças negras, pobres, meninos, tudo o que as pessoas em geral não querem. Teria, então, uma abertura maior por parte dessas pessoas para receber quem vier: “eu quero um filho e aí não me importa se é branco, é negro, é pequeno, é gordo”? Será que é isso, ou será que pensam que se pleitearem um bebê não vão conseguir?

Observando tudo isso, fiquei me perguntando se um caminho teórico interessante, para a gente pensar, não seria pegar essas figuras dos Anormais de Michel Foucault. Ele fala do monstro, da pessoa que precisa ser corrigida. A impressão é que essa junção entre um pai gay ou uma mãe lésbica e uma criança pobre, negra e mais velha pode ser vista como uma monstruosidade completa.

A gente pega esse monstro que precisa ser corrigido, o homossexual, e essa criança, que é um sujeito que também precisa de correção porque também está no rol destas pessoas que são mais desvalorizadas no mercado social, parental, sexual. Se a gente não olha para a discussão sobre parentalidade e homossexualidade com esse viés mais crítico, de que para muitos será entendida como uma reunião de monstruosidades, você acaba dando um parecer favorável a essa conjuntura e configuração familiar, muito mais pela exceção: essa é uma pessoa que quer ser pai, essa é uma pessoa que quer ser mãe e essa é uma criança que quer/precisa ser filho. Filho que ninguém quer e pais que geram dúvida.

Outra questão que chama muito a atenção é uma certa feminilização dos homens que adotam, orquestrada por parte da equipe técnica. Tanto por parte do serviço social, quanto por parte da Psicologia. A questão que dá suporte ao contato com esse requerente é se ele é capaz de “maternar” uma criança e é essa palavra aparece nos processos. Parte-se de uma cristalização do que é do feminino e do que é do masculino, de que há atribuições de mãe e pai designadas e direcionadas ao homem e à mulher que em princípio seriam fixas. Uma exceção para se aceitar esse homem que quer ter uma criança é investigar qual a possibilidade que ele tem de ser mãe dessa criança, ou se ele tem características para isso. Acho que a nossa profissão ainda está muito marcada por isso.

Outra questão que chama muito a atenção é uma certa feminilização dos homens que adotam, orquestrada por parte da equipe técnica.


É muito curioso porque é como se alguma coisa ainda o colocasse no terreno da patologia, da anormalidade. Esses termos não são usados, claro, as pessoas são politicamente corretas, têm medo de processos. Mas esse homem feminino, que tem características e trejeitos que fazem com que ele seja exatamente segregado, desvalorizado, faz uso desses mesmos atributos para convencer que será um bom pai. Já que ele vai ser um pai sozinho, que ele pelo menos tenha algumas dessas características para compensar a falta da mulher. Então eu acho que são algumas dessas coisas que a gente tem que parar para pensar. O que entendemos como paternidade e maternidade? O que a gente acha que seria interessante para uma criança? O termo homoparentalidade, que até este momento eu não utilizei, foi cunhado em 1996, na França, pela APGL (Associação de Pais e Futuros Pais Gays e Lésbicas). É uma discussão que precisa ser feita, se vamos ou não adotar esse termo, em que momento e qual a importância política dele. Orientação sexual é uma coisa que precisa de destaque quando a gente está falando de parentalidade? Se chega um homem, caso se suspeite da homossexualidade, o que vamos fazer com isso, como vamos lidar com essa suspeita? Como vamos desnaturalizar a necessidade e o propósito dessa suspeita?

Na entrevista com a psicóloga, ele disse que queria muito ser pai e se mostrava preocupado, dizendo que “não queria bicha em casa”.

Estava me lembrando de um caso que foi uma catástrofe, na minha opinião. Na época da pesquisa, em que eu andava muito pela Vara, uma psicóloga que tinha atendido um rapaz me ligou para conversar, só que ela já tinha dado o parecer. Um homem, cujo pai abandonou a família quando ele tinha uns 15 anos, possuía quatro irmãos menores. A mãe não trabalhava e ele se viu, de repente, tendo que se virar para sustentar a família. Bom, se virou. Naquele momento da entrevista, os irmãos estavam todos formados, a mãe já tinha uma casa, ele conseguia se sustentar e a mãe com o próprio trabalho e resolveu ser pai. Procurou a Vara para isso.

Na entrevista com a psicóloga, ele disse que queria muito ser pai e se mostrava preocupado, dizendo que “não queria bicha em casa”. Ela entendeu que ele tinha um problema de identidade e que ele não se reconhecia na sua “bichisse”. Como para ela ele tinha um problema de reconhecimento, ela deu um parecer desfavorável. Sem perceber, a meu ver, o que ele queria dizer. Fui conversar com ela e perguntei se ela sabia o que o termo “bicha” queria dizer. Para ela, era tudo a mesma coisa, todos os termos que definiam (ou denegriam) pessoas que gostam de outras do mesmo sexo tinham o mesmo sentido. Como ele era um deles, não poderia odiar pessoas como ele. Como distúrbios de identidade é um campo familiar e comum à Psicologia, a explicação a satisfez. Nenhuma sensibilidade para outros possíveis sentidos para aquela fala. Não me pareceu que ele falasse de identidade, mas de jeitos de ser que ele gostaria de preservar na presença da criança, estereótipos que ele desgostava ou condenava. Ele pode em outro momento entrar com outro processo de habilitação e ser habilitado, mas as pessoas ficam nas nossas mãos.

O meu objetivo era esse, provocar vocês para essas questões e convidá-los às pesquisas, intervenções nessa área, para abrirmos um campo de diálogo. Queiramos ou não, nosso campo de intervenção define vidas. Por isso temos que tratar com seriedade essas questões. Nossas respostas podem ser novas questões que desloquem outros profissionais e nós mesmos desses lugares de tantas certezas.





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