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Um mundo melhor é possível
CAMARÁ
companheiro de luta
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A Praia do Itararé, a Biquinha e a Ponte Pênsil são pontos turísticos bastante conhecidos de São Vicente. Uma parte considerável de seus 330 mil habitantes, contudo, ocupa áreas raramente frequentadas por visitantes de outras cidades. Distantes da orla marítima, bairros como Humaitá, Vila Ema, Samaritá ou Vila Margarida vivem a mesma realidade de violência e pobreza de outros grandes municípios brasileiros. Não é fácil responder às difíceis situações geradas nesse cenário. Mesmo assim, um engenheiro e uma psicóloga entenderam que valia a pena tentar.
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O engenheiro é João Carlos Guilhermino da Franca e a psicóloga é Lumena Celi Teixeira. Em 1997, os dois trabalhavam em um abrigo em São Vicente e se preocupavam com o destino dos adolescentes que deixavam a instituição assim que completavam 18 anos. Da ideia de dar um suporte a esses e a outros jovens em situação de risco social nasceu a organização não governamental Camará. Doze anos depois, a iniciativa que começou com um encontro semanal de orientação numa sala no centro da cidade se ampliou. Hoje o Camará desenvolve um amplo conjunto de projetos e iniciativas que, ao longo do tempo, tem aberto perspectivas para centenas de jovens e suas famílias.
“Temos três grandes linhas de ação”, explica Lumena. “Atuamos na área psicossocial, atendendo pessoas em situação de vulnerabilidade social; participamos de espaços de debates de políticas públicas, especialmente no campo dos direitos de cidadania e da cultura, e também estamos envolvidos com a produção de conhecimento obtido a partir do nosso trabalho, realizando pesquisas, seminários e cursos.”
Dois dos projetos atualmente em curso no Camará são o Comunidade em Cena, patrocinado pela Fundação Citi, e o CulturAtiva, aprovado como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura. O Comunidade em Cena tem como objetivo formar 30 agentes culturais oferecendo atividades de vídeo, educomunicação, animação sociocultural, cultura digital e cidadania ativa. Os participantes formam grupos nas comunidades e a meta é a multiplicação de conhecimentos entre 500 outros jovens. O CulturAtiva, por sua vez, visa promover o desenvolvimento cultural da comunidade e a participação dos jovens nos processos de produção cultural, com destaque ao teatro e ao audiovisual.
EDUCOMUNICAÇÃO – Os dois projetos são desenvolvidos de forma integrada e seguem a proposta da chamada “Educomunicação”, explica Lumena. “Nós procuramos, por meio deles, dar condições para que os jovens não apenas produzam peças de comunicação, mas também se tornem capazes de analisar criticamente os produtos de comunicação existentes”. Entre outros recursos, o Camará conta hoje com equipamentos de vídeo que permitem a produção do WebTV Comunidade em Cena – série de programas transmitidos pela web, inteiramente produzidos pelos jovens. |
| Outro destaque na área da produção cultural é o teatro, que atualmente se apresenta com a peça “Um Conto Que Eu Vou Te Contar”, dirigida por Álvaro Fernandes, um dos jovens que se integraram à entidade ainda nos seus primeiros tempos.
O Camará ainda desenvolve outras iniciativas, como o Ateliê Camará – oficina de artes plásticas que também promove geração de renda; o Vila das Famílias – que envolve ações socioeducativas voltadas a apoiar famílias da Vila Margarida e o Bloco Eureca – bloco carnavalesco que traz temas em defesa de crianças e adolescentes. |
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Ainda que o muito que se faça seja pouco diante da necessidade, Lumena considera que, em seus 12 anos de vida, o Camará alcançou conquistas importantes. Uma delas foi despertar a atenção das autoridades locais para a questão da violência e da exploração sexual de crianças e adolescentes. O Camará contribuiu para que o tema passasse a ser abordado nos conselhos locais e para que se desenvolvessem planos municipais voltados ao enfrentamento dessa situação. Além disso, tem estado presente no bairro de Vila Margarida, auxiliando na proteção de algumas jovens, com a participação frequente de João Carlos Guilhermino e da monitora Michele Lima, 16.
Uma aliada curiosa no trabalho do Camará com jovens em situação de exploração sexual tem sido a dança do ventre. “Muita gente estranha, porque associa essa forma de dança à sensualidade”, diz Lumena sorrindo. Mas, segundo ela, é que a dança do ventre proporciona uma consciência corporal muito grande e, mais do que isso, trabalha muito a dimensão do feminino. Colocado de outro modo: ajuda as garotas a conhecerem e a valorizarem o seu próprio corpo e, por consequência, a si mesmas.
Quanto ao nome da entidade, “Camará”, uma última curiosidade. “Vem do tupi-guarani, de camarara, que significa “companheiro de luta”, diz Lumena. A luta, ela admite, tem sido difícil. Mas tanto ela quanto João Carlos não têm dúvida: continua valendo a pena. Quem quiser conferir pode acrescentar mais um destino em sua próxima ida à São Vicente. Além da Biquinha, da Praia de Itararé e da Ponte Pênsil, pode ir visitar a sede do Camará, na Rua Caminho dos Barreiros, 491. As portas estão abertas. |
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UMA RÁDIO
Kelly Ramos é uma das jovens em processo de formação no projeto Comunidade em Cena, do Camará. Aos 22 anos, começou participando do teatro do Camará e hoje está integrada à equipe da entidade – atividade que ela divide com o curso de Pedagogia à noite e com o trabalho como vendedora de castanhas, junto com o pai, na Ponte Pênsil.
Pelo Comunidade em Cena, Kelly atua na escola CAIC-Humaitá, na área continental de São Vicente. Ali, entre diversas ações culturais, ela orienta os alunos na realização de um programa de rádio. “A programação é variada”, diz. “Tem radionovela, notícias do próprio bairro e notícias da escola. Tem também espaço para que os alunos mostrem seus talentos, como tocar violão ou cantar”. O importante, segundo Kelly, é que os alunos têm a oportunidade de se expressar e de refletir sobre sua realidade.
O que mais deixa Kelly entusiasmada é que os alunos abraçaram a ideia e estão empenhados em fazer o projeto avançar. O melhor exemplo disso, diz, é um garoto de 13 anos, usualmente classificado na categoria de “terrorista”. Leia-se: aluno que arranja encrenca, depreda a escola e coisas do tipo. O fato é que ele tem surpreendido a todos com sua participação. Entre outras coisas – e contrariando a voz corrente dentro da escola – passou a se destacar até mesmo nas atividades de leitura. “Todo mundo dizia que o garoto não sabia ler; não era verdade. Ele apenas não tinha interesse em fazer as coisas”, diz Kelly.
Kelly acredita que o projeto pode avançar ainda mais. “Queremos aumentar o número de programas e ensinar os garotos e garotas a melhorar a produção, criando vinhetas, usando melhor a voz e assim por diante”, diz. Empenho para fazer dar certo, com certeza, não irá faltar. |
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