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direitos humanos | sobreviventes |
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A Campanha Nacional de Direitos Humanos “Nenhuma Forma de Violência Vale a Pena” foi lançada em junho, no Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. Entre os objetivos da campanha deste ano estão os de denunciar a violência institucional e a violência nos locais de isolamento; a intolerância às diversidades culturais, sexuais e raciais e a criminalização dos movimentos sociais. O lançamento foi marcado pela apresentação do documentário Sobreviventes, dirigido por Miriam Chnaiderman e Reinaldo Pinheiro – evento que também integrou o calendário de atividades da Semana da Luta Antimanicomial. O filme apresenta diversos personagens de diferentes sexos, profissões e origens sociais que relatam na primeira pessoa sua viagem particular a uma situação-limite. Depressão, tortura, doença, abandono, racismo, prisão, violência, tragédias distintas atravessaram o caminho dessas pessoas, que viveram para contar como essas experiências viscerais as atingiram e as formas que encontraram para sobreviver a elas.
“O filme foi escolhido por abordar diferentes formas de violência que são objeto de preocupação da campanha de Direitos Humanos”, diz a conselheira do CRP SP Maria Auxiliadora Almeida Cunha Arantes. Além disso, há o fato de que Miriam, além de cineasta, é reconhecida por seu trabalho como psicanalista. Na entrevista a seguir, a diretora de Sobreviventes fala sobre o filme e sobre as formas como a Psicologia e o Cinema podem contribuir para lidar com as diferentes formas de violência. |
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Dizem que o poder corrompe, mas a falta de poder corrompe muito mais. Sem ter poder sobre você mesmo, você se deteriora, perde a vontade de viver. E tudo o que eu tenho é vontade de viver. Sabe o que é, meu, desde que nasci eu nunca coube dentro da minha vida”.
Luiz Alberto Mendes,
ex-presidiário, escritor |
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"Com o coquetel, minha carga viral baixou, eu tinha uma nova chance. Mas minha cabeça tinha se organizado no sentido de uma vida ativa, às vezes de provocação, de não aceitar o que me desagradava e de morte breve. Depois de todos os esforços que eu fiz, agora tinha de reorganizar minha cabeça em função de uma morte de prazo indefinido. E isso foi o mais difícil. A partir desse momento, pouco a pouco, a minha vida se tornou menos interessante”.
Jean-Claude Bernardet,
cineasta, soropositivo |
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"A cocaína atenuava a dor de viver. É um esforço que eu gasto, diariamente, pra não usar, ele rouba toda minha energia. Porque depois que tirou a droga, voltou para aquela moça que não tem habilidade para viver”.
Bell Marcondes,
na luta contra a dependência da cocaína |
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PSI – Como surgiu a idéia de Sobreviventes ?
Miriam Chnaiderman – O filme nasceu de uma questão que eu sempre tive como psicanalista. Freud diz que o trauma é uma invasão de estímulos para o qual o ‘Eu’ não está preparado. Então o traumático é algo que fica encapsulado, enquistado na vida psíquica, sem ser elaborado. Minha questão era: será que o trauma só se define como uma questão de quantidade de estímulos ou será que a qualidade de estímulos, o conteúdo do trauma, também não determina sobre a possibilidade de elaboração?
PSI – Você pode dar um exemplo ?
Miriam Chnaiderman – Podemos pensar na questão do choque quando ocorre na tortura política e quando acontece em uma pessoa numa instituição psiquiátrica. Há diferenças? É uma questão difícil. No documentário Sobreviventes há dois depoimentos de ex-presos políticos e um depoimento de uma psiquiatrizada. Os termos que os três usam para falar da experiência são muito próximos. Mas o que cada um fez para lidar com ela é diferente. Ao mesmo tempo é possível dizer que os três transformaram suas experiências em uma necessidade de cuidado com a vida, com o ser humano.
PSI – Você chegou a alguma resposta ?
Miriam Chnaiderman – Acho que tem diferenças nas possibilidades de elaboração. Um preso político, ao ser torturado, sabe que isso decorre de uma escolha que ele fez. Isso, de alguma forma, permite que ele possa ter mais condições de pensar sobre esse acontecimento do que um psiquiatrizado que, em princípio, não tem idéia do porque ter sido submetido a choques. Mas há uma coisa que eu redescubro sempre é o fato de que o ser humano tem recursos inimagináveis para lidar com situações as mais atrozes e isso é algo maravilhoso. Elas conseguem absorver essas experiências no seu modo de viver e fazer delas algo que as empurra para a vida.
PSI – Que vínculos você vê entre o documentário e a atual campanha de Direitos Humanos ?
Miriam Chnaiderman – A expressão “sobreviventes” é muito usada para se referir aos sobreviventes dos campos de concentração. Eu quis mostrar que existe uma violência tão grande quanto aquela, mas que, por ser cotidiana, a gente não se dá conta. As pessoas ouvidas no documentário expõem dramas, feridas, que são de todos nós. Acho que uma campanha contra toda forma de violência, implica, antes de mais nada, você se dar conta dessa violência cotidiana. Quando a gente sai na rua, vê coisas muito duras – do sem-teto ao motoqueiro espatifado no chão – e essas coisas viram banalidade, o que é terrível. Acho que uma contribuição que o filme dá, nesse sentido, é mostrar a dor e sofrimento causado pela violência, sem, digamos, aquela frieza de uma notícia de jornal.
PSI – Você tem alguma referência nessa área ?
Miriam Chnaiderman – Eu gosto muito de uma autora, Nathalie Zaltzman, que aborda a questão dos campos de concentração. Que força é essa que os homens têm para sobreviver em situações tão terríveis? Ela diz que é o amor pela espécie humana. Quando você encontra um objetivo, você agüenta e sobrevive. E esse objetivo é sempre pensando no outro. É a identificação com o humano que leva à sobrevivência. É uma coisa linda.
PSI – Você está envolvida em algum novo projeto ?
Miriam Chnaiderman – Fiz dois outros documentários depois de Sobreviventes e estou agora com um novo projeto, que se chama Perdão, tratando a questão da tortura. Sobre os documentários concluídos, um se chama Afirmando a Vida, e é sobre a questão das cotas e das políticas afirmativas, baseado em uma pesquisa da Ford Foundation. O outro é um edital da Prefeitura de São Paulo sobre a história dos bairros – e eu fiz sobre o M´Boi Mirim. Chama-se M´Boi Mirim dos Índios, da Águas e dos Sonhos. Eu adorei fazer porque é uma região que foi transformada. Por volta de 1996, ela era tida como uma das regiões mais violentas do mundo. Houve um trabalho do Fórum em Defesa da Vida e pela Paz naquela área e essa situação melhorou de forma significativa. Eu freqüentava o Fórum desde 2002 e usei muito material de movimentos populares que ajudaram nessa transformação.
PSI – Quanto de você é psicóloga e quanto é cineasta ?
Miriam Chnaiderman – Eu me vejo como uma psicanalista que sai para o mundo fazendo documentários. Acho que o que eu faço é uma escuta do mundo e é muito legal fazer isso. Eu me vejo como uma defensora da vida. É isso o que me move.
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A FILMOGRAFIA DE MIRIAM
1994 • Dizem que sou louco
13 min | película | 16 mm
2001 • Artesãos da Morte
18 min | película | 35 mm
2003 • Gilete Azul
16 min | vídeo
2004 • Isso, aquilo e aquilo outro
28 min | vídeo
2005 • Você faz a diferença
18 min | vídeo
2006 • Passeios no Recanto Silvestre
15 min | película | 35mm
2007 • Procura-se Janaína
54 min | vídeo
2008 • Sobreviventes
52 min | vídeo
2009 • Afirmando a Vida
18 min | vídeo |
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