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PSI – Qual o cenário de atuação
dos psicólogos que hoje atuam no
âmbito da Saúde Pública?
Magda Dimenstein – A forma de atuação
dos psicólogos na área da Saúde Pública vem
sendo objeto de debate ao longo dos últimos
anos, tal qual vem acontecendo para outras
categorias profissionais. Propostas de um trabalho
mais contextualizado, próximo às comunidades
e baseado na atuação de equipes
multiprofissionais, conquistaram espaços ao
longo desse período. Esse modelo, contudo,
ainda está muito longe de se tornar dominante.
Para que isso possa acontecer são necessárias
mudanças em, pelo menos, duas frentes: na
formação acadêmica dos profissionais – que
precisam ser capacitados a atuar dentro desse
novo modelo – e na gestão do setor público
em saúde – que ainda está norteada por perspectivas
pouco participativas. Ao favorecer a
atuação profissional nesses novos moldes, se
tornará um pólo de demanda, de atração, de
profissionais capazes de produzir mudanças
no cenário que observamos hoje em dia.
PSI – Na prática, o que um psicólogo
pode fazer?
Magda Dimenstein – Ele pode desenvolver
inúmeras atividades e circular nesse campo
de diversas formas. Desde fazer visitas
domiciliares, conduzir rodas de conversas,
propor passeios na comunidade, participar
de discussão de casos, da gestão de instituições
de saúde, atender individualmente ou
em grupos pessoas que demandam esse tipo
de atenção, criar estratégias de cuidados com
outros profissionais, etc. Pode ainda usar de
recursos como o teatro ou oficinas de dança.
Tudo depende do contexto. As possibilidades
são infinitas. Não tem uma regra, não tem o
que pode e o que não pode. Ele precisa descobrir
as inúmeras possibilidades de trabalho
possíveis na Saúde Pública e não fazer uma
única coisa, tal como vem sendo feito. O mais
importante de tudo é produzir formas diferenciadas
e singulares de acolhimento à pessoas
e de problematização do cotidiano.
PSI – Os psicólogos estão sendo
capacitados para esse tipo de atuação?
Magda Dimenstein –
Na maioria dos casos
não, e, além disso, é preciso acrescentar que o
trabalho na Saúde Pública demanda de qualquer
profissional um modo de atuação mais
complexo, muito mais amplo do que cada
profissão individualmente é capaz de fazer.
As formações em saúde de forma geral são
problemáticas e a Psicologia não escapa disso.
Portanto, não temos capacitado profissionais
sintonizados com os princípios do SUS.
PSI –Isso significa abandonar o
conhecimento que ele adquiriu na
universidade?
Magda Dimenstein –Não. Isso significa
que ele precisa problematizar este conhecimento
que carrega, saber se ele está adequado
ou não ao contexto que está trabalhando e
buscar novos conhecimentos sempre que necessário.
Nosso problema é que fazemos pouco
esse exercício de analisar nossos conhecimentos
e crenças a respeito de uma série de
situações. O psicólogo não deve se apegar ao
que não tem mais eficácia para ele. Ter menos
preocupação de aplicar técnicas e trabalhar
muito mais com sua própria criatividade,
com seu jeito de ser, que é sua ferramenta
por excelência no campo da saúde coletiva.
PSI – Hoje a maioria das
universidades não está preparando
os psicólogos para esse tipo de
atuação? Como resolver isso?
Magda Dimenstein – Em minha opinião,
a universidade pública tem a obrigação de
dar essa formação. O SUS é uma política
pública e a universidade pública principalmente
tem a obrigação de dar sustentabilidade
a essa discussão e formar pessoas que
vão atuar nos espaços públicos. Não é isso
o que acontece como regra. O resultado é
que as pessoas, não tendo uma formação
consistente para trabalhar na Saúde Pública,
vão aprendendo no cotidiano, buscando
cursos de especialização e de aperfeiçoamento,
tentando ampliar sua formação por
conta própria. Isso no melhor dos casos.
PSI – E no pior?
Magda Dimenstein – É preciso lembrar
que existem inúmeros profi ssionais que estão
no serviço público e que não percebem a
inadequação daquilo que estão fazendo. De
fato, muitos acreditam que aquilo que estão
fazendo é correto, efi caz, que estão dando
conta do recado. Outros percebem a inefi -
cácia, mas atribuem suas razões à falta de
recursos ou ao autoritarismo da gestão. Ou
seja, fi cam ligados a uma série de difi culdades
que, ainda que verdadeiras, não constituem
o cerne do problema.
PSI –O que resulta desse quadro?
Magda Dimenstein – Muitos entram
numa rotina de trabalho, naquele cotidiano
de reproduzir práticas. A grande maioria
faz isso. Reclamam muito desse cotidiano,
porque não conseguem avançar, são mal
remunerados, não se integram nas equipes,
não são bem acolhidos nos espaços profi ssionais.
Como a grande maioria é servidor
público concursado, muitos migram para
outras áreas ou pedem licença. A quantidade
de pedidos de licença é enorme.
PSI –Há algo de positivo nesse
cenário?
Magda Dimenstein – Sim, existem aqueles
que começam a se indagar sobre seu trabalho
e começam a ampliar seu foco de atuação,
a sair desses lugares estabelecidos de
atuação. Essas pessoas ampliam seu modo
de trabalho, produzem coisas absolutamente
inusitadas, belíssimas. Existem inúmeras
experiências desse tipo. Mas, são pessoas
que ousaram sair daquilo que era esperado
delas dentro do serviço público.
PSI –É uma minoria ainda?
Magda Dimenstein – É uma minoria sim.
E essas pessoas que conseguem fazer isso
são aquelas que se aliaram a outros profi ssionais,
que passaram a compartilhar esses
problemas com outras categorias, que também
vivem esse tipo de problema. É preciso
frisar que esse tipo de situação não é algo
específi co dos psicólogos. Quando chegam
ao campo da Saúde Pública, outros profi ssionais,
como assistentes sociais, nutricionistas
ou enfermeiras são muito facilmente
capturados para reproduzir determinados modelos de atuação. Apenas aquelas pessoas
que ousam problematizar este cotidiano e a arriscar
a produzir inovações conseguem obter
resultados diferenciados.
PSI –O que você propõe também tem
a ver com a sua trajetória pessoal?
Magda Dimenstein – Sem dúvida. Eu
era muito segura de que o arsenal que eu
manejava, e que eu tinha aprendido na minha
formação era absolutamente efi caz, independente
do contexto, da situação e das
circunstâncias onde eu ia trabalhar. Isso
me produziu uma série de difi culdades no
trabalho e, num primeiro momento, eu não
conseguia ter uma refl exão a respeito das
minhas ferramentas de trabalho. Nessa época,
fi nal dos anos 80, trabalhava na área de
atenção básica no Piauí e depois fui fazer o
doutorado, no Instituto de Psiquiatria na
UFRJ, já com uma preocupação específica:
pensar a inserção da Psicologia no campo
da atenção primária, no campo da atividade
básica de saúde e o lidar com a questão de
saúde mental. Foi a partir disso que passei a
questionar o tipo de trabalho que eu fazia e
a buscar outro tipo de abordagem.
PSI –Como se manifesta o
conflito entre formação e prática
na área da Saúde Pública?
Magda Dimenstein – Muitos psicólogos
têm a sensação de que não estão atuando
como psicólogos ao fazer determinado
trabalho. Não é para menos. Durante a
formação, nos dizem que para a gente ser
psicólogo precisa saber determinadas coisas
e quando a gente chega em determinados
espaços profi ssionais o que é demandado
de nós não são aquelas práticas.
Isso dá um curto circuito. Você
fazer uma visita domiciliar e ir à
casa de uma família, junto com
um agente comunitário, para conhecer
suas condições de vida,
em que contexto vive, como são
as condições sanitárias, que problemas
essa família está vivendo
cotidianamente; tudo isso parece
para muitos como algo que
não é “trabalho de psicólogo”.
PSI – E é?
Magda Dimenstein – Sem dúvida. Proceder
de determinadas maneiras pode parecer
ao psicólogo não ser tarefa sua. Ou,
então, acompanhar, digamos, um usuário
de serviços de saúde mental, dar comida
na sua boca usuário, ah, não, isso não é
função minha, isso é função do técnico de
enfermagem. Mas, a questão do acolhimento
independe da categoria e independe de
quem está fazendo. A gente precisa estar
preocupado com os modos de acolhimento
ao sofrimento das pessoas, de que maneira
vamos produzindo questões nesse cotidiano,
gerando articulações, redes, conexões,
de que forma a gente vai sendo um intercessor,
um facilitador de surgimentos de
novos problemas, de novas questões, novos
posicionamentos. Isso é a nossa função,
fazer a vida se movimentar, lutar contra a
cronifi cação naquilo que já está dado, instituído.
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