CONVERSANDO COM UM PSICÓLOGO
Magda Dimenstein
sem medo de pensar


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Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre em Psicologia Clínica pela PUC RJ, doutora em Saúde Mental pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a psicóloga Magda Dimenstein vem se dedicando a discutir e propagar o papel do psicólogo na Saúde Pública. Na entrevista a seguir ela discute o lugar da Psicologia e as práticas realizadas no campo da assistência pública à saúde e seus desdobramentos em termos de compromisso social.

PSI – Qual o cenário de atuação dos psicólogos que hoje atuam no âmbito da Saúde Pública?
Magda Dimenstein – A forma de atuação dos psicólogos na área da Saúde Pública vem sendo objeto de debate ao longo dos últimos anos, tal qual vem acontecendo para outras categorias profissionais. Propostas de um trabalho mais contextualizado, próximo às comunidades e baseado na atuação de equipes multiprofissionais, conquistaram espaços ao longo desse período. Esse modelo, contudo, ainda está muito longe de se tornar dominante. Para que isso possa acontecer são necessárias mudanças em, pelo menos, duas frentes: na formação acadêmica dos profissionais – que precisam ser capacitados a atuar dentro desse novo modelo – e na gestão do setor público em saúde – que ainda está norteada por perspectivas pouco participativas. Ao favorecer a atuação profissional nesses novos moldes, se tornará um pólo de demanda, de atração, de profissionais capazes de produzir mudanças no cenário que observamos hoje em dia.

PSI – Na prática, o que um psicólogo pode fazer?
Magda Dimenstein – Ele pode desenvolver inúmeras atividades e circular nesse campo de diversas formas. Desde fazer visitas domiciliares, conduzir rodas de conversas, propor passeios na comunidade, participar de discussão de casos, da gestão de instituições de saúde, atender individualmente ou em grupos pessoas que demandam esse tipo de atenção, criar estratégias de cuidados com outros profissionais, etc. Pode ainda usar de recursos como o teatro ou oficinas de dança. Tudo depende do contexto. As possibilidades são infinitas. Não tem uma regra, não tem o que pode e o que não pode. Ele precisa descobrir as inúmeras possibilidades de trabalho possíveis na Saúde Pública e não fazer uma única coisa, tal como vem sendo feito. O mais importante de tudo é produzir formas diferenciadas e singulares de acolhimento à pessoas e de problematização do cotidiano.

PSI – Os psicólogos estão sendo capacitados para esse tipo de atuação?
Magda Dimenstein –
Na maioria dos casos não, e, além disso, é preciso acrescentar que o trabalho na Saúde Pública demanda de qualquer profissional um modo de atuação mais complexo, muito mais amplo do que cada profissão individualmente é capaz de fazer. As formações em saúde de forma geral são problemáticas e a Psicologia não escapa disso. Portanto, não temos capacitado profissionais sintonizados com os princípios do SUS.

PSI –Isso significa abandonar o conhecimento que ele adquiriu na universidade?
Magda Dimenstein –
Não. Isso significa que ele precisa problematizar este conhecimento que carrega, saber se ele está adequado ou não ao contexto que está trabalhando e buscar novos conhecimentos sempre que necessário. Nosso problema é que fazemos pouco esse exercício de analisar nossos conhecimentos e crenças a respeito de uma série de situações. O psicólogo não deve se apegar ao que não tem mais eficácia para ele. Ter menos preocupação de aplicar técnicas e trabalhar muito mais com sua própria criatividade, com seu jeito de ser, que é sua ferramenta por excelência no campo da saúde coletiva.

PSI – Hoje a maioria das universidades não está preparando os psicólogos para esse tipo de atuação? Como resolver isso?
Magda Dimenstein –
Em minha opinião, a universidade pública tem a obrigação de dar essa formação. O SUS é uma política pública e a universidade pública principalmente tem a obrigação de dar sustentabilidade a essa discussão e formar pessoas que vão atuar nos espaços públicos. Não é isso o que acontece como regra. O resultado é que as pessoas, não tendo uma formação consistente para trabalhar na Saúde Pública, vão aprendendo no cotidiano, buscando cursos de especialização e de aperfeiçoamento, tentando ampliar sua formação por conta própria. Isso no melhor dos casos.

PSI – E no pior?
Magda Dimenstein –
É preciso lembrar que existem inúmeros profi ssionais que estão no serviço público e que não percebem a inadequação daquilo que estão fazendo. De fato, muitos acreditam que aquilo que estão fazendo é correto, efi caz, que estão dando conta do recado. Outros percebem a inefi - cácia, mas atribuem suas razões à falta de recursos ou ao autoritarismo da gestão. Ou seja, fi cam ligados a uma série de difi culdades que, ainda que verdadeiras, não constituem o cerne do problema.

PSI –O que resulta desse quadro?
Magda Dimenstein –
Muitos entram numa rotina de trabalho, naquele cotidiano de reproduzir práticas. A grande maioria faz isso. Reclamam muito desse cotidiano, porque não conseguem avançar, são mal remunerados, não se integram nas equipes, não são bem acolhidos nos espaços profi ssionais. Como a grande maioria é servidor público concursado, muitos migram para outras áreas ou pedem licença. A quantidade de pedidos de licença é enorme.

PSI –Há algo de positivo nesse cenário?
Magda Dimenstein –
Sim, existem aqueles que começam a se indagar sobre seu trabalho e começam a ampliar seu foco de atuação, a sair desses lugares estabelecidos de atuação. Essas pessoas ampliam seu modo de trabalho, produzem coisas absolutamente inusitadas, belíssimas. Existem inúmeras experiências desse tipo. Mas, são pessoas que ousaram sair daquilo que era esperado delas dentro do serviço público.

PSI –É uma minoria ainda?
Magda Dimenstein –
É uma minoria sim. E essas pessoas que conseguem fazer isso são aquelas que se aliaram a outros profi ssionais, que passaram a compartilhar esses problemas com outras categorias, que também vivem esse tipo de problema. É preciso frisar que esse tipo de situação não é algo específi co dos psicólogos. Quando chegam ao campo da Saúde Pública, outros profi ssionais, como assistentes sociais, nutricionistas ou enfermeiras são muito facilmente capturados para reproduzir determinados modelos de atuação. Apenas aquelas pessoas que ousam problematizar este cotidiano e a arriscar a produzir inovações conseguem obter resultados diferenciados.

PSI –O que você propõe também tem a ver com a sua trajetória pessoal?

Magda Dimenstein –
Sem dúvida. Eu era muito segura de que o arsenal que eu manejava, e que eu tinha aprendido na minha formação era absolutamente efi caz, independente do contexto, da situação e das circunstâncias onde eu ia trabalhar. Isso me produziu uma série de difi culdades no trabalho e, num primeiro momento, eu não conseguia ter uma refl exão a respeito das minhas ferramentas de trabalho. Nessa época, fi nal dos anos 80, trabalhava na área de atenção básica no Piauí e depois fui fazer o doutorado, no Instituto de Psiquiatria na UFRJ, já com uma preocupação específica: pensar a inserção da Psicologia no campo da atenção primária, no campo da atividade básica de saúde e o lidar com a questão de saúde mental. Foi a partir disso que passei a questionar o tipo de trabalho que eu fazia e a buscar outro tipo de abordagem.

PSI –Como se manifesta o conflito entre formação e prática na área da Saúde Pública?
Magda Dimenstein –
Muitos psicólogos têm a sensação de que não estão atuando como psicólogos ao fazer determinado trabalho. Não é para menos. Durante a formação, nos dizem que para a gente ser psicólogo precisa saber determinadas coisas e quando a gente chega em determinados espaços profi ssionais o que é demandado de nós não são aquelas práticas. Isso dá um curto circuito. Você fazer uma visita domiciliar e ir à casa de uma família, junto com um agente comunitário, para conhecer suas condições de vida, em que contexto vive, como são as condições sanitárias, que problemas essa família está vivendo cotidianamente; tudo isso parece para muitos como algo que não é “trabalho de psicólogo”.

PSI – E é?
Magda Dimenstein –
Sem dúvida. Proceder de determinadas maneiras pode parecer ao psicólogo não ser tarefa sua. Ou, então, acompanhar, digamos, um usuário de serviços de saúde mental, dar comida na sua boca usuário, ah, não, isso não é função minha, isso é função do técnico de enfermagem. Mas, a questão do acolhimento independe da categoria e independe de quem está fazendo. A gente precisa estar preocupado com os modos de acolhimento ao sofrimento das pessoas, de que maneira vamos produzindo questões nesse cotidiano, gerando articulações, redes, conexões, de que forma a gente vai sendo um intercessor, um facilitador de surgimentos de novos problemas, de novas questões, novos posicionamentos. Isso é a nossa função, fazer a vida se movimentar, lutar contra a cronifi cação naquilo que já está dado, instituído.

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