capa | luta antimanicomial
allegro, mas não muito
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A Luta Antimanicomial obteve importantes con­­quistas ao longo das últimas décadas, mas ainda enfrenta desafios consideráveis. Sem uma rede alternativa de cuidados em quantidade suficiente, com distribuição apropriada no território e com um treinamento adequado de pessoal, o modelo falha em atender à população e expõe-se a críticas da sociedade e fortalece a posição dos interessados em explorar a Saúde como negócio. A luta pela efetiva implantação do modelo proposto pela Reforma Psiquiátrica, em particular no Estado de São Paulo, corre o risco de perder o compasso e atravessar o samba.

No último dia 18 de maio, um ato público ganhou as ruas de Sorocaba. Ao som de apitos e de panelas batendo, psicólogos, estudantes e usuários dos serviços de Saúde comandaram uma caminhada pelo centro da cidade. Com faixas e cartazes, eles protestavam contra o elevado número de leitos em hospitais psiquiátricos ainda existente na região. A manifestação foi a primeira de diversas iniciativas realizadas para marcar o Dia da Luta Antimanicomial no Estado de São Paulo.

Usuária do Serviço de Saúde Mental defila como porta-bandeira no Cordão Carnavalesco Bibi-tantã
na I Feira de Saúde Mental em
São Paulo.
Ao longo do período também ocorreram debates sobre a questão da saúde mental – vários deles nas sedes e subsedes do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo – com destaque para “Saúde Mental: como garantir o controle social nas Organizações Sociais”, realizado no SindSaúde; “Políticas Públicas de Saúde Mental no Município de São Paulo”, na Câmara Municipal da Capital, e “Mídia e Loucura”, no CRP SP. A semana terminou com a realização da “I Feira de Saúde Mental e Economia Solidária”, com a participação de usuários dos serviços.

Sorocaba não foi escolhida por acaso. A cidade possui cinco hospitais psiquiátricos e concentra 9,52% do total de leitos de todo o Estado de São Paulo. Segundo levantamento da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), em 2008 a cidade possuía 586.680 habitantes e concentrava 1.455 leitos de psiquiatria registrados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). O número corresponde a um leito para cada grupo de 403 habitantes. A título de comparação, em Campinas, a proporção é de um leito para cada grupo de 5.280 habitantes. Do ponto de vista daqueles que lutam contra esse modelo de atendimento, Sorocaba desponta como uma região atrasada, em um Estado no qual a reforma psiquiá­trica ainda tem muito a avançar.

SEM HARMONIA – No Brasil, a Luta Antimanicomial obteve conquistas consideráveis. As propostas de um atendimento humanizado, baseado na integração do paciente à família e à comunidade e apoiado por uma rede de cuidados formada pelos Centros de Atendimento Psicosocial (CAPS), se transformaram em política no âmbito da saúde mental com a aprovação da Lei Federal 10.216, de 2001, de autoria do ex-deputado Paulo Delgado (PT). Isso não significa, contudo, que essas propostas venham sendo implantadas de maneira homogênea em todo o país e em ritmo satisfatório.

Antes de avaliar os números referentes à implantação dos CAPS,­ convém lembrar que eles estão divididos em cinco tipos:

Os CAPS I e II funcionam ao longo da semana, das 8 às 18 horas, dando atendimento individual ou em grupo aos pacientes com transtorno mental e aos seus familiares.

O CAPS III visa prestar serviço ambulatorial de atenção contínua, durante 24 horas, incluindo feriados e finais de semana. Em casos de crise, o paciente pode ficar acolhido durante até 7 dias seguidos ou durante dez dias no período de um mês.
O CAPSi é destinado a prestar serviço ambulatorial a crianças e adolescentes com transtornos mentais.

O CAPSad atende pacientes com transtornos decorrentes do uso e dependência de álcool e drogas.

O cálculo do indicador CAPS/100.000 habitantes do Ministério da Saúde considera que o CAPS I dá resposta efetiva a 50.000 habitantes, o CAPS III, a 150.000 habitantes, e que os CAPS II, CAPSi e CAPSad dão cobertura a 100.000 habitantes.

Segundo dados do Ministério da Saúde, de 4 de junho de 2009, havia no país um total de 1.394 CAPS, o que representa um índice de 0,57 unidades para cada 100 mil habitantes, numa população total de 189,6 milhões de habitantes. São Paulo, com 41 milhões de habitantes, conta com 215 CAPS, sendo 53 CAPS I, 72 CAPS II, 17 CAPS III, 24 CAPS i e 49 CAPSad. Mesmo sendo o mais rico estado do país, fica apenas em 180 lugar, com um índice de 0,48 CAPS para cada 100 mil habitantes. O Ministério da Saúde assume como parâmetro de cobertura os seguintes índices: Cobertura muito boa (acima de 0,70), Cobertura regular/boa (entre 0,50 e 0,69), Cobertura regular/baixa (entre 0,35 a 0,49), Cobertura baixa (de 0,20 a 0,34), Cobertura insuficiente/crítica (abaixo de 0,20).

EQUIPAMENTOS E SERVIÇOS – Esses números dão apenas uma idéia inicial, e parcial, sobre a questão da Saúde Mental. Como observa Regina Bischaff, coordenadora da Área Técnica de Saúde Mental da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, contar com uma rede de atenção pressupõe a existência de serviços. Em outras palavras, a existência de uma unidade CAPS, por si só, não implica a oferta de serviços para atender à população. Mais ainda: é necessário dispor de equipes capacitadas para que esses serviços sejam oferecidos. “Existem muitos CAPS que têm uma prática muito mais ambulatorial do que uma prática de atenção diária”, diz.

Regina também questiona o fato de que esses serviços não sejam de funcionamento contínuo: “Como você pode esperar que um serviço desempenhe um papel substitutivo à internação, se ele não está de portas abertas?” Ela nota que, em caso de crise, esse CAPS poderia estar articulado a uma enfermaria em um hospital geral de modo a acolher casos de crise, quando da inexistência de um CAPS III. A coordenadora observa que os CAPS III estão previstos para municípios com mais de 150 mil habitantes. Mesmo assim, sua implantação é pequena até mesmo em uma cidade do porte de São Paulo.

Vale acrescentar que a implantação de CAPS, na cidade de São Paulo, vem sendo exigida por meio de ação judicial movida pelo Ministério Público Federal. Em maio último, o Juiz Federal José Carlos Motta, da 19ª Vara Federal Cível de São Paulo, concordou com os argumentos do MPF e determinou que o município de São Paulo implante 57 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e 37 Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), isto é, moradias destinadas a cuidar de até oito pacientes com transtornos mentais que acabaram de sair de hospitais psiquiátricos depois de longos períodos de internação.

NO RITMO DA ECONOMIA SOLIDÁRIA

Participantes da I Feira de Saúde Mental exibem a nova moeda social, o Qualquer, lançada durante o evento.

Contando com a participação de usuários da rede de Saúde Mental do Estado de São Paulo, a I Feira da Saúde Mental, realizada na área externa da Escola de Enfermagem da USP (EEUSP), em São Paulo, marcou o encerramento da semana da Luta Antimanicomial. O evento teve início com a entrega de 58 Certificados do Curso de Multiplicadores em Saúde Mental e do Sistema Nacional de Cooperativas de Economia e Crédito Solidário (ECOSOL).

Em seguida foi realizado o lançamento da Moeda Social “Qualquer” a ser utilizada nas transações entre as iniciativas de Economia Solidária.

O Cordão Carnavalesco BibiTantã deu início à tarde de apresentações culturais. Também se apresentaram o grupo Luis Groove, a banda King Rassan, do DJ Nenê, o grupo de Dança Cigana do CECCO Bacuri e da Ala Loucos pela X-9, que fechou o evento com muito samba no pé e grandes alegorias.

No total circularam pela Feira cerca de 500 pessoas, entre o público da saúde mental e transeuntes da região da EEUSP. Os projetos de trabalho e renda, organizados coletivamente entre usuários, familiares e técnicos da saúde mental puderam ser conhecidos nas dezenas de barracas instaladas no local. O evento teve como parceiros o CRP SP, a Secretaria Estadual de Saúde, a Escola de Enfermagem da USP, a Associação Vida em Ação, a Associação Franco Basaglia, e o Fórum Paulista de ECOSOL.

Também contribuíram as prefeituras de Santana do Parnaíba, Embú das Artes, São Carlos, Santa Rita do Passa Quatro e Suzano que disponibilizaram transporte para a locomoção dos projetos de geração de trabalho e renda.


MÍDIA E LOUCURA

Mídia e Loucura foi o tema do debate realizado na sede do CRP SP no dia 20 de maio. O evento teve a participação do psicólogo e professor da PUC SP, Odair Furtado; do jornalista e escritor Renato Pompeu e de Kayke Avraham, há três anos usuário do CAPS Itapeva.

Renato Pompeu, jornalista há 49 anos, ganhador de diversos prêmios ao longo de sua carreira em veículos como Veja, Folha de São Paulo e Jornal da Tarde, falou de sua experiência em instituições psiquiátricas nas quais esteve internado. Ainda que se mostrando favorável a diversas propostas da Luta Antimanicomial, ele considerou que as internações podem ter aspectos positivos e serem necessárias ao processo de recuperação. Kayke Avrahan também relatou suas experiências, destacando as filmagens de Sociedade Secreta, no qual mostra cenas do dia-a-dia feitas no CAPS Itapeva, do qual é usuário. Furtado falou do papel da mídia na formação, pelos sujeitos, de sua visão subjetiva da realidade. Notou que, ao longo do tempo, ela tem se sobreposto à influência da família e da escola e que, por estar em mãos de grupos privados, obedece a uma lógica de mercado que nem sempre atende às necessidades da população. Nesse sentido, destacou a importância da Conferência de Comunicação prevista para esse ano, alertando, contudo, para as resistências que serão colocadas pelos principais conglomerados da mídia.



DINHEIRO SEM CARIMBO – Complexa, a questão da saúde mental abarca diversos aspectos, que envolvem desde a gestão dos serviços até o financiamento. Como é sabido, desde a Constituição de 1988, cabe aos municípios a tarefa de criar e gerir serviços, como no caso dos CAPS. Estado e União têm seus papéis específicos, entre eles o de participarem do financiamento. Um dado importante nesse cenário foi a mudança na forma de financiamento dos CAPS, ocorrida no ano passado.

A verba federal que remunerava os procedimentos CAPS era originária do Fundo de Ações Estratégicas do Ministério da Saúde. Essa remuneração não levava em consideração o teto financeiro dos municípios, isto é, o tanto que cada município pode faturar junto ao SUS. A partir de 2008 esses valores foram incorporados aos valores destinados aos procedimentos de média e alta complexidade. O teto foi elevado, mas isso significa que aquele dinheiro deixou de ser “carimbado”, ou seja, ele pode ou não ser destinado à Saúde Mental, dependendo do gestor público. Para Regina Bischaff, à incorporação dos procedimentos CAPS ao SUS é positiva, mas ela teme que a atenção à saúde mental fique fora das prioridades dos gestores locais. “Isso vai exigir de nós um esforço no sentido de sensibilizar esses gestores”.

A questão da Saúde Mental, contudo, passa longe de se limitar ao aspecto financeiro. Exemplo disso, segundo Regina, pode ser visto na questão da desinstitucionalização dos 6.349 moradores de hospitais psiquiátricos levantados no Censo Psicossocial realizado pela Secretaria Estadual. “Discutimos aqui na Secretaria a necessidade de incentivar financeiramente a implantação de residências terapêuticas e criamos uma linha de incentivo com esse fim. O município que aceitar montar uma residência receberia assim 10 mil reais do Ministério da Saúde, mais 10 mil da Secretaria Estadual da Saúde e mais algo em torno de 8 mil reais, correspondendo ao teto de 8 moradores. Além do dinheiro há todo o nosso apoio técnico no sentido de montar o serviço. Penso que é uma iniciativa com condições de ser bem-sucedida. Até agora, no entanto, esses projetos avançam com dificuldade.” Segundo Regina, parte delas pode ser atribuída a pressões dos hospitais psiquiátricos sobre as prefeituras para que não implantem um serviço desse tipo. Mas ela também ressalta um aspecto cultural. “Muitos enxergam nessa proposta algo como ter ‘um bando de loucos soltos aí’; não é, ao final das contas, algo que gere dividendos políticos”.

O fato é que, sem uma rede alternativa de cuidados em quantidade suficiente, com distribuição apropriada no território e com um treinamento adequado de pessoal, o modelo falha em atender à população e se expõe a críticas da sociedade e fortalece a posição dos interessados em explorar a Saúde como negócio. Para a psicóloga e Conselheira do CRP SP, Maria Ermínia Ciliberti, o problema não está na reforma psiquiátrica, como muito tentam fazer crer. “O problema está no fato de que a reforma não foi implantada da forma como estava prevista até agora, nem na velocidade necessária para funcionar adequadamente”. Se não ocorreram mudanças nesse sentido, um esforço de décadas pela humanização na saúde mental pode se ver seriamente comprometido.

não é só dinheiro, mas...

Gilson Carvalho, pediatra e especialista em Saúde Pública, fala na entrevista a seguir sobre os desafios enfrentados para se concretizar o modelo da Saúde Mental nos termos propostos pela Reforma Psiquiátrica. O financiamento, contudo, continua sendo fundamental para que ela se concretize. Segundo ele, só pelo descumprimento dos mínimos constitucionais, União e Estados estão devendo à Saúde algo em torno de 45 bilhões de reais.

PSI – Como você vê as resistências ao modelo de atendimento proposto pela Reforma Psiquiátrica?
Gilson Carvalho – A população precisa “comprar” o modelo, o que não é uma coisa simples. É muito mais cômodo quando alguém diz algo como “eu cuido do doente para você”. Esse é o modelo que privilegia o hospital. Não é que a família queira se livrar do paciente. Só quem vive essa situação é que entende como se opera a dinâmica. Nós todos temos dificuldades de relacionamento. Mas é preciso que haja um bom apoio, para que a proposta do novo modelo seja amplamente assumida. Acho que ainda não chegamos, com exceções, claro, a ter um modelo que realmente sirva de suporte para essas famílias.

PSI – A questão é apenas de financiamento?
Gilson Carvalho – De jeito nenhum. Precisamos de mais gestão. Precisamos melhorar a gestão, a saúde é muito complexa, e nós estamos despreparados. Há também questões sobre o modelo de fazer, da adequação do modelo em cada realidade. Há dificuldade de contar com profissionais que entendam este modelo, e queiram fazer com que ele aconteça. É claro que para ampliar a estrutura física ambulatorial como o modelo CAPS, dar treinamento aos trabalhadores de saúde que trabalham nessa área é preciso dinheiro.

PSI – O dinheiro que está faltando, de onde deve vir?
Gilson Carvalho – O financiamento da saúde é trilateral: federal, estadual e municipal. A Emenda 29 estabeleceu um valor para a União diferente daquele proposto em 1993, que previa, no mínimo, 30% dos recursos da seguridade para a Saúde e 10% dos recursos fiscais da União, estados e municípios. Durante o governo FHC, a proposta foi modificada e a base de financiamento reduzida. A base colocada pelo governo, que atrelou o recurso federal ao valor nominal do PIB fez com que nós perdêssemos mais da metade dos recursos previstos pela proposta de emenda constitucional do ex-deputado Eduardo Jorge. Os estados foram sacrificados em mais 20%, era 10% passaram para 12%. E os municípios foram sacrificados em mais de 50%, porque era 10%, virou 15%. Para corrigir essa distorção está em votação no Congresso um projeto de regulamentação da EC-29 que deve ocorrer a cada cinco anos e já deveria estar em vigor desde 2005. Esta regulamentação manteve os 15% de município e os 12% dos estados, mas deu um “apertão” no governo federal pra que ele mudasse de base.

PSI – O que isso representou em perdas?
Gilson Carvalho – Fiz recentemente um cálculo segundo o qual a União, em dinheiro corrigido pelo IGPM, a partir de 2000, que foi a Emenda Constitucional 29, está devendo 20 bilhões de reais por descumprimento dos mínimos constitucionais. Quanto aos estados, segundo levantamento de 2006, apenas nove cumpriam a Emenda Constitucional. Nós temos 18 estados que não cumprem, o que dá perto de 25 bilhões por descumprimentos. E os municípios são aqueles que, efetivamente, estão colocando mais dinheiro. Dados também de 2006, mostram que os municípios colocaram 6 bilhões a mais do que o mínimo devido.

PSI – Em que situação está a questão do financiamento no Congresso?
Gilson Carvalho – Atualmente há no Senado o Projeto de Lei 121, do senador Tião Viana, que é muito bom sobre o quantitativo, prevendo a alocação pela União de 10% da Receita Corrente Bruta. Há também um projeto na Câmara, que mantém o atual quantitativo pelo PIB e prevê a criação da CSS, Contribuição Social para a Saúde – outro nome para a antiga CPMF, só que, agora, exclusivamente para a Saúde. O Senado deve avaliar os dois e vai ter este problema: terá de escolher o dele, ou o da Câmara, ou criar um terceiro a partir dos dois, compondo os artigos já existentes e sem poder modificá-los. Daí seguiria para o presidente Lula sancionar. A questão é que o presidente já declarou que, se chegar algum projeto aumentando os recursos da saúde, sem a indicação de onde virá o dinheiro, ele irá vetar.

PSI – Como você o papel dos psicólogos neste cenário?
Gilson Carvalho – Eu tenho falado para os gestores: “contratem terapeutas da escuta e da palavra, para a saúde mental”. Psicólogos principalmente. É um profissional pouco utilizado e que os serviços de saúde deveriam contratar mais para sua rede. Por que? Porque nós somos um dos países que mais usa medicamentos para o sofrimento mental. Veja, determinados desequilíbrios bioquímicos só se corrigem com medicamentos. Mas atualmente nós ficamos só com a terapia do medicamento. Um psicólogo pode ajudar muito com a terapia da escuta e da palavra e também poderia determinar um encaminhamento quando o indivíduo precisasse do medicamento.


álcool e drogas: além do discurso autorizado



Debate sobre álcool e drogas que lotou o auditório do CRP SP.

Se o atendimento na Saúde Mental já representa grandes desafios, uma área, em específico, é ainda mais delicada: a que deveria atender usuários com transtornos decorrentes do uso e dependência de álcool e drogas. O tema foi objeto do debate “Políticas Públicas e Atenção Psicosocial aos usuá­rios de Drogas – Desafios e Perspectivas”, realizado no Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, no dia 25 de junho.

O evento contou com a participação de especialistas como Mônica Gorgulho Rodrigues, coordenadora da ONG Dínamo; Décio de Castro Alves, representante do Ministério da Saúde; Adriana Barbosa Sócrates, assessora técnica do Departamento de Proteção Social Especial da Secretaria Nacional de Assistência Social do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Márcia Ferreira, coordenadora da Área Técnica da Pessoa Usuária de Álcool e outras Drogas da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo; Cristina Shimabukuro, assistente do Centro de Vigilância Sanitária e conselheira do Conselho Estadual sobre Drogas (CONED - SP); Cristiano Ávilla Maronna, conselheiro do Conselho Estadual sobre Drogas (CONED - SP) e Elisaldo Luiz de Araújo Carlini, diretor do CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) do Departamento de Psicobiologia da Unifesp.

As apresentações foram concluídas com mesa redonda sobre o tema Atenção Psicossocial aos Usuários de Drogas, que contou com as participações de Abílio da Costa Rosa, professor do Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, campus de Assis; Eroy Aparecida da Silva, psicoterapeuta familiar, pesquisadora na área de álcool e outras drogas – disciplina Medicina e Sociologia do Abuso de Drogas e de Dênis Roberto da Silva Petuco, sociólogo, redutor de danos, educador popular e terapeuta comunitário.

Petuco abordou a questão da redução de danos e falou da necessidade de se rever paradigmas na abordagem dessa questão. Confira, na entrevista a seguir, algumas das idéias apresentadas por ele ao longo do evento:

PSI – O que é redução de danos?
Dênis Petuco – Existem algumas definições, mas a que eu prefiro é a do movimento social, inscrita nos materiais da ABORDA (Associação Brasileira de Redutoras e Redutores de Danos). Segundo essa definição, redução de danos é um paradigma, é um conjunto de estratégias e é também uma política pública. E com relação ao paradigma, acho importante dizer, que se trata de uma noção de paradigma como temos nas ciências humanas e sociais, ou seja: não como uma idéia que derruba todas as anteriores, mas como uma nova contribuição, que convive com as idéias anteriores, sem destruí-las, obrigando-as à reflexão e à transformação.

PSI – Qual a primeira experiência de redução de danos no país?
Dênis Petuco – Historicamente falando, a primeira experiência brasileira com redução de danos aconteceu em Santos, em 1989, e estava focada na disponibilização de seringas descartáveis para pessoas que faziam uso de drogas injetáveis. Para que se tenha uma idéia da resistência a esse tipo de proposta, basta dizer que algumas pessoas que participaram desse processo foram processadas pelo artigo 12 da antiga lei de drogas, isto é, foram equiparadas a traficantes de drogas. Hoje existem diversas iniciativas na linha de redução de danos espalhadas pelo país, mas absolutamente aquém da necessidade epidemiológica brasileira.

PSI – Como você vê esse tipo de atendimento no âmbito do SUS?
Dênis Petuco – Está lá, na Constituição, que a saúde é direito de todos e dever do Estado. A redução de danos leva para o serviço de saúde pessoas que não conseguem parar de usar drogas, ou até mesmo pessoas que não querem parar de usar drogas. São pessoas que, historicamente, não são atendidas no sistema público de saúde. Isso leva a um questionamento, a um esgarçamento dos princípios do SUS, e especialmente do princípio da Universalidade. O SUS é mesmo para todos? Se for, deveria incluir essas pessoas também. A redução de danos acaba sendo um analisador da qualidade com que cumprimos os princípios do SUS, e também da Reforma Psiquiátrica, no cuidado de pessoas que usam drogas.

PSI – E a questão da cidadania?
Dênis Petuco – Entender a dimensão da cidadania traz uma outra reflexão. Existem discursos que são interditos e outros que são autorizados quando se dá voz às pessoas que usam drogas. Os discursos autorizados são “o discurso do herói” (aquele que venceu a batalha e deixou as drogas), e o “discurso do desesperado” (aquele que se encontra no fundo do poço e pede ajuda). A minha pergunta é: será que num CAPS-ad há uma escuta aberta para algo diferente disso? A redução de danos vai a campo e encontra discursos diferentes. Nós nos habilitamos a atender aquelas pessoas que usam drogas e que não conseguem, ou até mesmo que não querem parar de usar. E quando nos propomos a cuidar dessas pessoas sem lhes exigir que se adequem à qualquer exigência, terminamos por nos abrir a outras possibilidades, para outras falas. Acolhemos a pessoa como ela é, com seus desejos e possibilidades, e não como gostaríamos que ela fosse.


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