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Subsede Campinas

Identidade do trabalhador psicólogo

Especialistas discutem a trajetória da Psicologia no Brasil e seu ajuste ao mercado de trabalho

A atuação do psicólogo no mercado de trabalho brasileiro motivou o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, através da Subsede de Campinas, a formar o Grupo de Trabalho para discutir o assunto. Fruto da reunião de estudiosos do tema no simpósio “O Trabalhador Psicólogo, Trajetória e Perspectiva”, que ocorreu em setembro de 2003, o GT diagnosticou a necessidade de atualização dos profissionais para uma inserção mais ativa na sociedade, dadas às poucas oportunidades de empregos formais para o psicólogo.

Os psicólogos traçaram a jornada trilhada pela profissão nas últimas décadas e identificaram rumos para o futuro. “Com as transformações sociais significativas em que a sociedade está inserida e no intuito de avaliar o desempenho desse profissional diante das adversidades, faz-se necessário repensar a atuação do psicólogo,” afirma a subcoordenadora da Comissão Gestora da subsede, Osmarina Dias Alves.

Durante o simpósio, Júlia M. Cassulari Motta, professora-supervisora da Federação Brasileira de Psicodrama (FEBRAP) e do Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas (IPPGC), explicou que, para enfrentar o subemprego e as novas exigências no campo profissional, a categoria deve se mobilizar e assumir uma atuação mais consistente rumo às mudanças. “Precisamos reinventar a profissão e buscar saídas, criando assim uma resposta nova para uma situação antiga”, definiu. Coordenadora do GT Mercado de Trabalho, Osmarina acrescenta que, para lidar com os conflitos sociais atuais, a categoria deve indagar se a teoria e as técnicas psicológicas, que sustentam a profissão, são, de fato, suficientes para atender as mudanças em curso.

Se, na era colonial, a Psicologia esteve entrelaçada à educação de índios pelo clérigo, no último século, cedeu lugar, antes ocupado pela educação teológica, a uma perspectiva mais social, que a psicóloga Júlia Motta alerta ter sido desencadeada por uma sucessão de fatos, que modificaram a profissão até hoje.
     
  A Revolução Industrial trouxe o eixo trabalho para o contexto psicológico, continua a pesquisadora. “A conquista do direito a salários abriu como precedente a perspectiva da concorrência entre os que têm a mesma força de trabalho, além da fragmentação do ofício que gerou certos descontentamentos entre os operários”. Nesse período, a Psicologia no Brasil ganhou espaço e credibilidade, consolidando a profissão com a fundação de instituições voltadas para o treinamento de trabalhadores e o reconhecimento como disciplina acadêmica.

Começa, então, uma mudança no cenário mundial, voltada para os primeiros passos da globalização na década de 80, em que o número de carteiras de trabalho assinadas passa a cair vertiginosamente. “A nova realidade dos trabalhadores, em geral, é o subemprego, a terceirização e o trabalho autônomo inseguro. Abre-se um novo campo para o psicólogo, que pode atuar na melhoria da qualidade de vida do trabalhador”, comenta a pesquisadora Júlia Motta.

Perspectiva e Tendências – “O século XX é o período da história humana de transformações radicais. O trabalho e a força de trabalho, a sociedade e a forma de governo são, nas últimas décadas, qualitativamente e quantitativamente diferentes de tudo o que já existiu em qualquer momento histórico” avalia a consultora em Recursos Humanos, coordenadora do curso de especialização em Psicologia e Gestão da PUC-Campinas e psicóloga clínica do Centro de Saúde da Comunidade da UNICAMP, prof. Dra. Maria Elenice Quelho Areias, que também participou do encontro em Campinas.

“Hoje, o mundo do trabalho está em reconstrução. O aumento da potência tecnológica é mais rápido que a criação de novos empregos. É necessário reestruturar os modelos de vida e de produção. O papel do psicólogo também está em transformação. Neste sentido, o cuidado com a saúde e a qualidade de vida dos trabalhadores devem ser o foco principal neste processo de reformulação”, sugere.

Identidade profissional – No mesmo evento de setembro, com a temática “O Mundo Atual e o Lugar do Psicólogo no Mercado de Trabalho”, o mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas e doutor em Psicologia Social, Roberto Heloani, ponderou que “ser um adaptador de gente para condições de trabalho diversas não é a única identidade profissional do psicólogo”. “A Psicologia Aplicada se fez necessária para que o Brasil deixasse de ser agrário para ser industrializado. Como havia pessoas preocupadas com modelos de gerência, os psicólogos viabilizaram e legitimaram esse processo disciplinador”, afirmou Heloani, que leciona na Faculdade de Educação da UNICAMP, na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e UNIMARCOS, e é professor convidado na pós-graduação na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.

Para inverter o jogo opressor da falta de emprego, que prejudica o trabalhador psicólogo, estreitando as oportunidades de colocação profissional nesse século, Heloani apontou alternativas em várias outras áreas, como hospitais e corporações policiais, ONGs, associações de classe, sindicatos e outras que necessitem desse tipo de intervenção, desde que haja uma consciência política de que nossa contribuição histórica não é a de aumentar o capital nem a mais valia absoluto. “Temos é que nos determinar a favor das pessoas”, posicionou- se.

A partir dessas discussões, o GT Mercado de Trabalho continuará estudando aplicabilidades na evolução da ciência e da profissão. “De posse desse saber compactado, procuramos auxiliar na fomentação de novas oportunidades no mercado de trabalho”, comprometeu-se Osmarina. Para ela, a importância deste GT está em manter aberto, no CRP-SP, um espaço reflexivo para as inquietações dos psicólogos com relação ao seu lugar, suas perspectivas e seu papel no mundo do trabalho atual.

 


Subsede Baixada Santista e Vale do Ribeira / Campinas

Famílias provisórias ao invés de abrigos

Programa dá novos lares a crianças em situação de risco social

Famílias substitutas para crianças em situação de risco social estão sendo preparadas por psicólogos em várias cidades do Estado de São Paulo. O programa Família Acolhedora tem sido implantado pelas Secretarias de Assistência Social nos municípios em que as leis já regularizaram seu funcionamento.

O Conselho Regional de Psicologia (CRP-SP), através de suas subsedes, tem estimulado a discussão sobre a formatação desses programas, promovendo debates e incentivando os membros do Grupo de Trabalho Criança, Adolescente e Família a participarem dos diversos Conselhos Municipais e dos Conselhos Tutelares, essenciais nesse processo. “A criança que é retirada do lar da família em situações comprovadas de abandono, violência doméstica ou desarranjo familiar, mesmo que momentâneo, vai conviver com outro lar, ao invés de ir para um abrigo”, explica a conselheira do CRP-SP e membro da comissão gestora da Subsede Baixada Santista e Vale do Ribeira, Carla Bertuol.

Para ela, o programa dá aos psicólogos nova dimensão de trabalho familiar, lidando com dois núcleos simultaneamente, o que perde a guarda da criança e o que a recebe no momento de crise, o que não acontece com o atendimento tradicional. “As famílias substitutas abrem uma perspectiva de compreensão do universo infantil e a possibilidade de a criança lidar com dispositivos menos autoritários que favorecem a sua voz”, comenta.

São programas baseados na não institucionalização da criança, que sofre com um ambiente de tratamento pouco personalizado. “Normalmente as crianças institucionalizadas vivem em ambientes que são lugares de poucas trocas verbais e afetivas, elas não são estimuladas na linguagem verbal, o que pode comprometer sua forma de se expressar e a construção de sua individualidade”, diz. Para Carla Bertuol, a vida institucionalizada interfere, mais tarde, em diversas relações humanas, inclusive nas que teriam numa família adotiva, por exemplo, tais como poder disciplinar-se com horários ou no senso de propriedade.

Sob o aspecto psicológico, o tema é atrativo e complexo, afirma Carla. O profissional deve estar atento a vários processos, como o vínculo com a família de origem é rompido e como se dão as tentativas de preservação ou de reconstrução com a nova família, que pode ser até temporária, já que a substituta pode assumir apenas a guarda e não a adoção.

Carla Bertuol acrescenta que é preciso trabalhar no sentido de considerar as famílias acolhedoras como parceiras da equipe de psicólogos. “Mesmo que seja uma situação transitória, o efeito é positivo para a criança. Trata-se da sua história e da sua vida”, ressalta ela.

Experiências reais
– Em Campinas, a prefeitura municipal implantou o programa de famílias acolhedoras em 1997, através do Serviço Alternativo de Proteção Especial à Criança e ao Adolescente (SAPECA).

Nos mesmos moldes pretendidos em Santos, o SAPECA oferece acompanhamento social e psicológico sistemático às famílias das crianças e adolescentes que estão acolhidas e as observa por mais cinco anos, após o retorno ao grupo familiar de origem, evitando a revitimização de crianças que sofreram violência doméstica. “Venho buscando a delimitação de um campo de trabalho que contribua com essa proposta, tanto na sua dimensão política e pública, quanto na dimensão da subjetividade das crianças, seus familiares, consangüíneos ou não e seus acolhedores”, garante a psicóloga do Programa, Daniela Martins Peterli.

Recentemente, o programa SAPECA realizou um seminário para propor uma alteração no artigo 90 do ECA, incluindo o atendimento psicossocial aos familiares de origem, para enfrentarem os problemas que os levaram à perda da guarda da criança ou adolescente. “O propósito é garantir cuidados à família de origem e dar-lhe o direito e condições de ter seu filho de volta”, declara a assistente social e coordenadora do SAPECA, Janete Aparecida Giorgetti Valente. A proposta de inclusão na lei tem sido encabeçada pelo próprio SAPECA e pelo Juizado da Infância de Campinas, com a participação das prefeituras de Franca e do Rio de Janeiro, que desenvolvem projetos desse tipo.

Duas conquistas recentes do programa renovaram as expectativas de sucesso na preparação das famílias. Em 2003, um usuário do SAPECA foi eleito na composição do Conselho Municipal de Assistência Social e uma família acolhedora participou do processo eleitoral para o Conselho Tutelar de Campinas, mostrando na prática o envolvimento do público alvo do programa com a causa dos direitos da criança e do adolescente.
   





“As famílias substitutas abrem uma perspectiva de compreensão do universo infantil e a possibilidade da criança lidar com dispositivos menos autoritários que favorecem a sua voz”
Carla Bertuol


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