Conversando com o psicólogo

Empresas exigem avaliações psicológicas para extorquir desempregados

Denúncias indicam que agências de recursos humanos cobram de candidatos despesas com testes para vagas de emprego, supostamente existentes

Em tempos de desemprego, empresas de recolocação profissional de idoneidade duvidosa exigem dos candidatos a realização de avaliações psicológicas para assumirem supostas vagas de emprego. Cuidado, pode ser uma fraude! A Comissão de Orientação do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo tem recebido consultas de psicólogos sobre a legalidade da aplicação dos testes e de avaliações realizadas nessas circunstâncias e queixas de usuários lesados com a fraude.

Preocupado com o volume de queixas e dúvidas, o CRP vem informar e orientar os psicólogos/usuários com relação à questão: o psicólogo pode estar incorrendo em práticas que ferem não somente o Código de Ética, mas que também denigrem o conceito que a sociedade tem do profissional em Psicologia.

A extorsão praticada por agências de recursos humanos está na mira não só do CRPSP, mas de órgãos reguladores como a Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor. A assistente de direção do PROCON, Sônia Cristina Amaro, observa que este tipo de ação ocorre e que, geralmente, as pessoas só percebem que foram logradas depois de terem feito os gastos e de perceberem que a empresa não fez a sua parte no contrato.

O caso mais recente é de Fernando Mendes Oliveira, que procurou, em janeiro, o CRP-SP para se queixar de duas consultorias de recursos humanos que lhe ofereceram vagas nas áreas financeira e contábil. Ambas chegaram a ele através de seu currículo à disposição no site de uma empresa de recolocação profissional. A condição para participar do processo seletivo era o pagamento pela realização de testes como Inventário Fatorial de Personalidade e o Perfil Profissional, que custavam entre R$ 100 e R$ 600. Desconfiado, ele procurou duas clínicas e o CRP-SP, além de consultar os departamentos pessoais da General Motors e da Telefonica, onde trabalhara, e descobriu que os testes geralmente são pagos pela empresa contratante e não pelo candidato. Diretora da área de avaliação psicológica do Instituto de Psicologia Organizacional, a psicóloga Tatiana Wernikoff confirma que os custos das avaliações são de responsabilidade da empresa empregadora. A exceção, diz, é para concursos públicos como o de juiz federal, que determina ao candidato a entrega da avaliação junto com o restante da documentação exigida e para quem procura orientação vocacional ou de carreira.





“Os custos das avaliações são de responsabilidade da empresa empregadora”
Tatiana Wernikoff
   

Tatiana Wernikoff adianta que exigir dados pessoais específicos e avaliação psicológica é uma etapa avançada no processo seletivo. Antes, o candidato precisaria ter passado por entrevistas e testes técnicos ou de competências técnicas e ser informado sobre a vaga, as condições de trabalho e as perspectivas, para também ter dados que o auxilie a fazer suas opções (valorização da liberdade de escolha, mesmo em um mercado difícil!). “É um desrespeito e injusto submetê- lo a um processo seletivo que não o informa para qual empresa ele está se candidatando”, avalia.

Informações — Para esclarecer dúvidas de psicólogos e contratantes quanto ao custo das avaliações psicológicas, o CRP-SP disponibiliza em seu site (www.crpsp.org.br) uma tabela referencial de honorários e faz alguns alertas em relação ao assunto:

1a) Os candidatos têm direito a receber as informações decorrentes das avaliações psicológicas a que se submeteram;

2a) Pessoas, que não são psicólogas, não são autorizadas a fazer avaliação psicológica;

3a) Caso o psicólogo seja conivente com a empresa que lhe solicita as avaliações de candidatos sem que haja vagas para os mesmos, o profissional estará cometendo uma infração ética, ou seja, “o psicólogo, em função do espírito de solidariedade, não será conivente com erros, faltas éticas, crimes ou contravenções penais praticadas por outros na prestação de serviços profissionais” ( Art. 9).

Para evitar transtornos, a Comissão de Orientação do CRP-SP aconselha os psicólogos procurados por consultorias de recolocação profissional, ou que já tenham con- “Os custos das avaliações são de responsabilidade da empresa empregadora” Tatiana Wernikoff 04 psi jornal de psicologia crp sp jan | fev 2004 tratos de trabalho para realização de avaliações psicológicas, que se mantenham informados sobre a reputação da empresa, a existência efetiva das vagas e a validade dos testes apropriados, considerados aptos para o uso pelo Conselho Federal de Psicologia e disponíveis no site www.pol.org.br . Os profissionais podem ainda consultar sobre as empresas na base de dados on-line do PROCON, no www.procon.sp.gov.br ou pelo telefone (11) 3824-0446.

Na questão dos documentos decorrentes de avaliação psicológica, é preciso lembrar a importante questão do sigilo profissional. O documento deve ser enviado em envelope lacrado com uma etiqueta “confidencial”, tendo em vista preservar os dados da pessoa, quando encaminhado a quem de direito. O acesso a estes dados só será permitido a quem estiver igualmente sujeito, por dever do Código de Ética, ao sigilo profissional, sendo que esta condição deve ser alertada ao profissional a quem foi endereçado o relatório.

Toda pessoa, que se submeter a uma avaliação psicológica, terá direito a receber a devolutiva ao final do processo. Como não há normatização quanto à formatação, a devolutiva poderá ser feita verbalmente ou por escrito.

   


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