Opinião
Psicólogos e políticas do governo
Todos sabemos que a situação econômica e política do país atinge todos os seus segmentos. Ninguém escapa. No entanto, não fazemos, com freqüência a análise de como está se dando esta influência em nossas vidas profissionais. Assim, considerei excelente esta oportunidade de, nesse espaço do Jornal do CRP de São Paulo, poder ensaiar uma primeira análise.
Penso que o desemprego é a primeira e mais evidente conseqüência, para a nossa profissão. As restrições nos gastos com as políticas sociais vão reduzindo o mercado de trabalho dos psicólogos nas áreas da saúde, da educação e da assistência social. Interessante notar que, paradoxalmente, temos dados que indicam que a demanda para o trabalho do psicólogo aumenta nos momentos de crise, mas o mercado diminui, pois as oportunidades de emprego nos serviços de atendimento são reduzidas. Mesmo nos consultórios há uma redução da clientela, pois o poder aquisitivo da população cai.
Outra conseqüência, talvez não tão evidente, é o efeito causado pela política e pela cultura da privatização. Há uma redução dos espaços de trabalho para o psicólogo no serviço público de atendimento à população. Há uma crescente valorização dos serviços que são pagos, comprados, particularizados. Os atendimentos via serviços públicos vão aos poucos sendo desvalorizados. Aumenta o campo dos atendimentos particulares e, com isso, a pior de todas as conseqüências: reduz-se o acesso de enormes setores da população aos serviços dos psicólogos. Apenas poucos privilegiados podem ter acesso a esses serviços.
As políticas de livre concorrência e de livre mercado atingem também os psicólogos. A disputa entre os profissionais pelas fatias estreitas, que sobram no mercado, aumenta. Isso tem trazido conseqüências danosas para nossa profissão, pois os psicólogos passam a competir como qualquer outro comerciante no mercado, e isso tem feito com que apelem também para “efeitos especiais” em seus produtos. Buscam-se verdadeiros efeitos pirotécnicos para vender o produto: o atendimento psicológico. São práticas alternativas, sem fundamentos científicos que são apresentados à população como verdadeiras fontes de milagre.
Há ainda um outro aspecto importante a ser analisado com cuidado: a desregulamentação das profissões. As medidas educacionais apresentadas pela nova Lei de Diretrizes e Bases, as novas medidas para os cursos de nível superior, a política de extinção dos currículos mínimos e definição de diretrizes curriculares, a abertura irresponsável e descontrolada de cursos superiores nas várias áreas e em Psicologia, os cortes nas verbas para pesquisa, tudo parece nos dizer que manter profissões regulamentadas ficará completamente obsoleto.
Nossa profissão, que vem engatinhando na sua institucionalização e reconhecimento social; nossa profissão que vem buscando, através do trabalho coletivo das entidades de Psicologia, demarcações que possam garantir um exercício profissional ético e comprometido com as necessidades da população, vê-se ameaçada por uma visão política na qual as regras são, por princípio, nocivas para o mercado.
A Psicologia, através de suas entidades e seus profissionais, deve se manter atenta, analisando as medidas que vão sendo tomadas pelo Governo. Nada deve prejudicar nosso firme propósito de termos uma profissão importante que responda dignamente às necessidades de nossa população brasileira.
Ana Mercês Bahia Bock
Presidente do Conselho Federal de Psicologia e diretora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP
Gestão pública, um front urgente
O esgotamento final do modelo econômico articulado em torno do Plano Real fez eclodir, no centro da conjuntura nacional, enormes contradições sociais. A mais importante delas é a que diz da necessidade de se redesenhar o pacto federativo, assegurando-se condições melhor qualificadas para a gestão pública nos níveis estadual e municipal e, portanto, garantindo maior descentralização dos recursos aquinhoados pela União.
Devemos lembrar, foi esse o sentido mais geral da luta dos movimentos sociais quando da elaboração da atual Constituição, em 1988. Naquele momento, lutamos pela maior horizontalização do processo político-administrativo, dando ênfase aos municípios como locus de realização das políticas públicas federais. Foi naquele contexto que surgiram as propostas de municipalização do ensino e do Sistema único de Saúde, áreas nas quais nossa categoria tem uma participação ativa. A ameaça a esses sistemas já é motivo suficiente para que nossa categoria se faça presente na luta política. Penso, entretanto, que isso não basta. Devemos definir nossa contribuição na elaboração de políticas públicas que, contribuindo para a construção de uma sociedade saudável, promovam o desenvolvimento.
Hoje, as doenças mentais provocadas pelo trabalho – e pela falta dele – já ocupam o terceiro lugar no ranking nacional dos motivos de afastamento, em caráter permanente ou temporário, da mão-de-obra ativa. Isso significa uma dilapidação monstruosa de recursos humanos e, o estrangulamento gradativo do sistema previdenciário, gerando respostas como o incremento das previdências privadas, a sobretaxação de aposentados, pensionistas e ativos.
As pesquisas sobre o tema são escassas, as informações, pouco confiáveis, o sub-registro, elevado. Nossa atuação nesse campo tem sido tímida, tanto no que diz respeito ao número de psicólogos que se dedica a esse grave problema, como no que se refere a uma elaboração teórica específica. Freqüentemente o que temos feito nesta área de atuação não vai além de uma adaptação do modelo clínico. Vivemos uma oportunidade sem igual para que nossa categoria, mostrando à sociedade e aos movimentos sociais esse verdadeiro “ovo da serpente” que já começa a trincar a casca, ocupe um lugar relevante entre os atores sociais, lugar de onde temos sido paulatinamente expulsos pelo governo federal.
A partir de nosso campo de atuação e de conhecimento, ou seja, da saúde, da educação e outros, devemos apresentar propostas que viabilizem para a população o acesso a um atendimento de qualidade e que realmente respondam às necessidades existentes. Uma delas é a preservação da saúde mental nesse que tem se transformado num dos mais poderosos determinantes de sua debilitação: o local de trabalho.
Entretanto - e esse é o grande desafio - precisamos ter em mente que o conceito de saúde envolve tanto a situação particular do indivíduo como as condições que o rodeiam, o determinado modo de viver de uma determinada sociedade. A prevalência dos valores de mercado, elevados à enésima potência pelo programa neoliberal de gestão do Estado, inverte tudo o que sonhamos para o mundo: o trabalho impede o bem viver ao invés de ser o promotor da “boa vida”. Portanto, se quisermos subverter essa lógica, teremos de aprender a trabalhar interdisciplinarmente e a ir além de nossa formação acadêmica, superando-a, resignificando-a e reinventando um modelo de atendimento.
Silvana Leite Pereira
Secretária de Administração e Finanças da Federação Nacional dos Psicólogos
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