Gênero

Movimento de mulheres: um ponto de vista psicológico

“Esta humanidade da mulher, levada a termo entre dores e humilhações há de vir à luz, uma vez despidas, nas transformações de sua situação exterior, as convenções de exclusiva feminilidade. Os homens que não a sentem ver ainda, serão por ela surpreendidos e derrotados. Um dia..., ali estará a mulher cujo nome não mais significará uma oposição ao macho nem suscitará a idéia de complemento e de limite, mas sim a vida, de existência: a mulher- ser- humano.” (Rilke, R.M., 1966).

A idéia que o poeta coloca, a de ver a mulher não mais como complemento do homem, mas como um ser livre, é, para o cientista social e o da saúde, uma grande alegria. Como psicólogos, estamos acostumados a ouvir queixas de mulheres que se sentem tolhidas, ressentidas, cansadas, entediadas, em suas relações com os homens nos vários papéis que ocupam. Isso, às vezes, reveste-se de um caráter manipulativo, em que a mulher, ao eximir-se da responsabilidade de se relacionar de forma simbiótica, culpa o outro por sua frustração. Este outro é uma figura que existe e que certamente também necessita de um complemento vicário e ficam todos envolvidos em um jogo de poder.

Após o período de aparente submissão à expectativa do outro, a pessoa se revolta. Esse movimento aparece no discurso mencionado antes, de mágoas colecionadas, jogadas em cima de outras pessoas. É uma reparação em função da espoliação sentida. Essa revolta nos mostra que o tempo de mudança chegou. É a época da oposição, da qual fala Rilke: oposição ao homem, às instituições, aos valores, a tudo que pode ser nomeado naquele momento como responsável pelo distanciamento da mulher em relação aos seu desejo de auto-realização.

A submissão e a posterior revolta nos lembram a revolução contra o patriarcado, tão bem colocada na mitologia e na psicanálise. Deméter, inconformada com o desaparecimento da filha, entra em depressão (metaforicamente ela seca, pois é a deusa da natureza). Exige de Zeus uma reparação. Com a ameaça de não dar mais frutos, traz a filha de volta (em um ato de cidadania reparte com Hades, o marido, sua convivência) e permite que o povo usufrua de sua maternidade (a natureza recria seu ciclo).Também as sociedades passam por períodos de vida - morte - vida.

Os movimentos pelos direitos da mulher começaram por uma revolução, ao negar o patriarcado e a forma pela qual o homem conquista seu espaço. Hoje, esse discurso revolucionário guarda daquela época a necessidade constante de colocação de limites e abertura de espaços pela mulher e para a mulher (Rilke escreveu a carta em 1916). Se nos anos 70 esta movimentação se revestia de um certo grau de agressividade, seguida nos anos 80 pela união das facções político-partidárias em torno da questão de poder econômico-social, hoje a tônica está mais no exercício da ética e moral libertária. (Gohn, 1994).

A questão de gênero, referente à assimetria de poder entre homem e mulher, ainda é preocupante. A violência doméstica é grande, exigindo a construção de casas abrigo e a formação de grupos de líderes de comunidades de bairro e delegadas populares. Os grupos de mulheres tornam-se então um espaço de luta e também de desenvolvimento pessoal. Quem participa de entidades ou grupos autônomos sabe do quanto o discurso feminista propicia a participante – especialmente às mais excluídas socialmente, que não têm acesso à educação e cultura (por dificuldades de locomoção, de idade, financeiras, ou por preconceito mesmo) – um continente – de expressão de suas dores e desejos, de compreensão, de incentivo, de aconselhamento.

Voltando ao poeta Rilke, surge a mulher - ser - humano, que busca um relacionamento igualitário, que a cada dia luta contra sua própria acomodação e a acomodação daqueles com quem convive. Procure entrar na casa de uma líder de um grupo de mulheres às vésperas de uma comemoração ou encontro de mulheres. Ela geralmente não está. Quem abre a porta é o marido, que diz com um ar de justificativa e desalento: “Se você está trazendo coisas, pode deixar lá no quarto à esquerda. A Maria está fora, atrás de uma mulher que vai dar palestra...” E a Maria, como está? Na maior parte das vezes esbaforida, preocupada com o sucesso da reunião, atrás de uma manicura, perguntando-se talvez: “Será que vale a pena tanto sacrifício? Sempre sobra para mim na correria?...”

Na finalização do encontro, no dia seguinte, ela ouve a resposta à questão: “De que serve para mim a participação no grupo Maravida ?”(um grupo de comunidade de bairro, nome fictício). Levanta-se uma mulher negra, vestida simplesmente, que diz: “Sabe, antes eu não saía de casa. Meu marido era muito ciumento. Agora eu vou para a reunião e ele sai com os amigos. No começo os filhos, ele, reclamavam, sabe como é. Hoje não, faz parte.” E quando é inquirida por uma psicóloga, membro de um dos grupos, acerca do que mudou para ela como pessoa, ela responde: “Sei lá, acho que sou livre...”

É interessante participar de toda essa movimentação. A alegria de Maria (que na véspera questionava sua liderança), ao ouvir o depoimento da companheira, o espanto curioso da psicóloga que pensa: “Ué!...parece grupo de crescimento!...”, e, principalmente, o potencial de acolhida dessas mulheres, – merecem um olhar cuidadoso e solidário. Alguma coisa acontece quando mulheres se reúnem e não é bruxaria, como diziam na Idade Média. É, isto sim, um encantamento: desencadeado pelo discurso de dignidade, liberdade e pertinência, curiosidade frente ao novo, capacidade de superar limites, profunda aceitação de sua natureza feminina e, principalmente, a esperança infinita de atravessar o rio que ainda nos separa do total entendimento homem-mulher-sociedade.

Sim, sem dúvida alguma, o discurso dessas mulheres fortes, discriminadas, bravas, negras, solidárias, homossexuais, brancas, heterossexuais, encarceradas (nas grades ou no medo), frágeis, sábias - é um discurso encantado que diminui as distâncias sociais e derruba nossos muros internos.

Noeliza B.S. Lima
Psicóloga, psicoterapeuta, mestranda em Psicologia Clínica -PUC-Campinas, bolsista CAPES e membro do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher em Campinas.

Referências: GOHN, M. G. (1994), A Formação da Cidadania no Brasil Através das Lutas e Movimentos Sociais, Campinas, Revista Cidadania - Textos, n° 1, GEMDEC, UNICAMP. RILKE, R. M. (1966), Cartas a Um Jovem Poeta, Porto Alegre, Ed. Globo. Trad. Paulo Rónai..


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