Cultura
O holocausto e a violência de cada dia
Estão concorrendo ao Oscar dois filmes de rara beleza: A Vida é Bela é um filme italiano e tem como diretor Roberto Benigni; já Central do Brasil, filme brasileiro, foi dirigido por Walter Salles. A Vida é Bela mostra, novamente, uma fase nada bela da nossa história: o nazismo, com um enfoque bastante original, sob o olhar sensível de um pai que tenta poupar seu filho daquele martírio. Já Central do Brasil nos mostra a vida cotidiana e silenciosa de nossa gente sofrida. É um filme sobre a identidade do país, sobre esta busca por um pai que o país faz cotidianamente. Quem vai assumir a paternidade dessa terra de ninguém?
Esses filmes nos falam mais que seus enredos; estamos prontos para enxergar a violência dos campos de concentração e ficamos todos sensibilizados com a dor de um povo perseguido, excluído. Temos horror a esse episódio de nossa história, porém, Central do Brasil nos mostra um cotidiano feito de uma violência silenciosa e banalizada, tão comum... Os noticiários relatam: morreram tantos numa chacina neste final de semana; no outro também: morreram outros tantos no Carnaval, e tudo continua igual! Não há reação, nem horror frente à violência vivida por nossa gente.
A imagem dos caminhões levando os judeus para os campos de concentração e a imagem dos trens suburbanos se confundem. Imagens tão próximas carregam a cara da morte: uma mais certeira e veloz, outra sorrateira e constante, a morte em vida de cada dia! Quantos já morreram de fome, na fila de algum hospital público, nas secas, nas chacinas, no Carandiru, na Candelária, na Favela Naval? Sem contar as crianças sem escolas... e grande novidade do nosso país: o ônibus de Corumbá!
Estamos mais preparados para consumir a dor do Holocausto e menos conscientes para olhar para o nosso umbigo e ver tantos campos de concentração escondidos pelo cotidiano a cada esquina de nosso Brasil.
Central do Brasil nos mostra que a vida de muitos brasileiros não é nada bela!
Vania Conselheiro Sequeira
Comissão de Direitos Humanos- CRP/SP
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