cadernos temáticos do CRP/SP

A XII Plenária do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo incluiu, entre as suas ações permanentes de gestão, a continuidade da publicação da série CADERNOS TEMÁTICOS do CRP/SP, visando registrar e divulgar os debates realizados no Conselho em diversos campos de atuação da Psicologia.

Essa iniciativa atende a diversos objetivos. O primeiro deles é concretizar um dos princípios que orienta as ações do CRP/SP — o de produzir referências para o exercício profissional dos psicólogos; o segundo é o de identificar áreas que merecem atenção prioritária, em função da relevância social das questões que elas apontam e/ou da necessidade de consolidar práticas inovadoras e/ou reconhecer práticas tradicionais da Psicologia; o terceiro é o de, efetivamente, dar voz à categoria, para que apresente suas posições e questões, e reflita sobre elas, na direção da construção coletiva de um projeto para a Psicologia que garanta o reconhecimento social de sua importância como ciência e profissão.

Os três objetivos articulam-se e os Cadernos Temáticos apresentam os resultados de diferentes iniciativas realizadas pelo CRP/SP que permitem contar com a experiência de pesquisadores e especialistas da Psicologia e de áreas afins para debater questões sobre as atuações da Psicologia, as existentes e as possíveis ou necessárias, relativamente a áreas ou temáticas diversas, apontando algumas diretrizes, respostas e desafios que impõem a necessidade de investigações e ações, trocas e reflexões contínuas.

A publicação dos Cadernos Temáticos é, nesse sentido, um convite à continuidade dos debates. Sua distribuição é dirigida aos psicólogos e aos parceiros diretamente envolvidos com cada temática, criando uma oportunidade para que provoque, em diferentes lugares e de diversas maneiras, uma discussão profícua sobre a prática profissional dos psicólogos.

Este é o sexto Caderno da série. O seu tema é a Psicologia e Educação: contribuições para a atuação profissional. O primeiro Caderno tratou da Psicologia em relação ao preconceito racial, o segundo refletiu sobre o profissional frente a situações tortura. O terceiro Caderno, “A Psicologia promovendo o ECA”, discutiu o sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente. O quarto número teve como tema a inserção da Psicologia na Saúde Suplementar. O quinto número referiu-se Cidadania Ativa na Prática Contribuições da Psicologia e da Animação Sociocultural. A este, seguir-se-ão outros debates que tragam, para o espaço coletivo de reflexão, crítica e proposição que o CRP/SP se dispõe a representar, temas relevantes para a Psicologia e a sociedade.

Nossa proposta é a de que este material seja divulgado e discutido amplamente e que as questões decorrentes desse processo sejam colocadas em debate permanente, para o qual convidamos os psicólogos.

Diretoria do CRP 6ª Região (SP)
Gestão 2007-2010


apresentação

Ao fazermos uma retrospectiva histórica, verificamos que a Psicologia nasce no Brasil no interior da Educação. As primeiras escolas normais tiveram a Psicologia em seus currículos e receberam os primeiros laboratórios de Psicologia no Brasil. Com a instituição da profissão de psicólogos, em 1962, a concepção de profissão se amplia para outros âmbitos e por motivos históricos, políticos e sociais, os currículos de psicologia centram-se, a partir da década de 1960, na perspectiva clínica, cujo modelo passa a ser o de atendimento individual, com base na Psicometria, no Psicodiagnóstico e nas Psicoterapias.

Só mais recentemente é que tais modelos passam a ser questionados e são retomadas outras formas de pensar a ciência psicológica e a profissão de psicólogos, articuladas à necessidade de compreendermos a profissão no interior de políticas públicas, que de fato respondam à democratização do estado brasileiro, à diminuição da desigualdade social e à ampliação da participação da população nos rumos sociais e políticos do país. A retomada do lugar político da prática psicológica faz com que a Psicologia Brasileira se organize por meio de seus Conselhos de Classe e crie um Sistema Conselhos de Psicologia que juntamente com o Conselho Federal de Psicologia estruturam formas de entender a Psicologia na perspectiva do compromisso social e da construção de políticas públicas. Nesse processo, algumas áreas da Psicologia foram priorizadas: Saúde, Saúde Mental, Direitos da Criança e do Adolescente e Direitos Humanos. Neste conjunto de áreas, a educação não contou com a discussão na profundidade que se requer ao tema, tendo em vista os desafios postos à Psicologia no contexto do sistema educacional brasileiro.

Do ponto de vista acadêmico, podemos dizer que a discussão referente à temática das políticas públicas em educação é recente no campo da Psicologia Escolar e Educacional. Tal discussão remonta, no caso brasileiro, pouco mais de 20 anos. Essa discussão só tem sido possível à medida que a Psicologia e mais especificamente a Psicologia Escolar passaram a ser questionadas nas suas bases epistemológicas e nas suas finalidades. Nesse processo de questionamento, a Psicologia e a Psicologia Escolar passaram a perguntar a serviço de quê e de quem estariam, em uma sociedade de classes, bem como a que práticas psicológicas se vinculariam. A crítica centrava-se no fato de a atuação profissional do psicólogo no campo da educação avançava pouco a serviço da melhoria da qualidade da escola e dos benefícios que esta escola deveria estar propiciando a todos, em especial, às crianças oriundas das classes populares, ressaltando a presença da carência cultural como a teoria que embasava as explicações para o mau desempenho escolar das crianças das escolas públicas. É importante ressaltar que esta crítica partiu do interior da Psicologia sendo, portanto, uma autocrítica. A partir dos anos 1980, tinha início, na trajetória da Psicologia e da Psicologia Escolar, um conjunto de questionamentos a respeito: a) do papel social da Psicologia enquanto Ciência e Profissão e da Psicologia Escolar, enquanto campo de atuação do psicólogo e b) dos pressupostos que norteavam a construção do conhecimento no campo da Psicologia e da Psicologia Escolar, bem como suas finalidades em relação à escola e àqueles que dela participam.

As críticas que a Psicologia apresenta comparecem em um momento político nacional bastante propício para a discussão teórico-metodológica em uma perspectiva emancipatória e enraizada na realidade social. Pois, nesta mesma década, intensificam-se os movimentos sociais pela redemocratização do Estado brasileiro, tais como movimentos de trabalhadores metalúrgicos, movimentos de professores, movimento pelas eleições diretas em todos os níveis e cargos de representação política e rearticulação dos partidos políticos. Além disso, no plano político, lutava-se por uma nova Constituição que retirasse do cenário legislativo o que se denominava de “entulho autoritário”, oriundo de mais de vinte anos de Ditadura Militar no Brasil. A Constituição de 1988, denominada “Constituição Cidadã”, abre caminhos para a institucionalização dos espaços democráticos, na recuperação de direitos civis e sociais, centrada em dois princípios básicos: a descentralização do poder do Estado e a participação social ampla nas decisões políticas. A ela seguem-se o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), a Declaração de Educação para Todos (1990), a Declaração de Salamanca (1994) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996), apenas para citar algumas das mais importantes iniciativas institucionais de introduzir mudanças estruturais nas relações sociais e civis no campo dos avanços dos direitos sociais e humanos. Portanto, é no bojo da redemocratização do Estado, da descentralização do poder para os Municípios e Estados, que a educação passa a ter autonomia para planejar, implementar e gerir suas políticas educacionais.

A partir das discussões e críticas presentes no campo da Psicologia na sua relação com a educação escolar, a Psicologia Escolar e Educacional inauguraram uma década de pesquisas que se voltaram para o novo objeto de estudo da psicologia: o fracasso escolar. Discussão iniciada ao final dos anos 1980, o tema do fracasso escolar passa a centralizar questões que envolvem os estudos sobre a escola, tanto no campo da Psicologia, quanto no campo da Educação. Temas, tais como: vida diária escolar, práticas educacionais, relações institucionais na escola, processos de estigmatização escolares, diferenças de classe social na escola e de gênero, papel das avaliações psicológicas para as crianças que apresentavam dificuldades de aprendizagem, instrumentos de diagnóstico e de avaliação dos processos escolares, papel do psicólogo, identidade profissional e o lugar da Psicologia enquanto ciência em uma sociedade de classes foram pesquisados e problematizados pelos psicólogos e estudiosos da área.

A análise do fracasso escolar tem como um de seus principais argumentos, o fato de que os problemas de aprendizagem incidem maciçamente sobre as crianças das classes populares e é sobre elas que durante décadas recaem as explicações a respeito dos chamados problemas de aprendizagem: ou porque apresentam problemas psicológicos, ou biológicos, ou orgânicos ou mais recentemente, sócio-culturais; bem como analisando o caráter ideológico e repleto de equívocos presentes nessas explicações, resultado de concepções preconceituosas a respeito do pobre e da pobreza no Brasil.

A concepção teórica de que o fracasso escolar é produto da escola resgata pelo menos duas grandes questões para o psicólogo e para a formação de profissionais que atuam no campo da educação escolar: a primeira referente ao posicionamento político de compromisso com o excluído, principalmente com as crianças e adolescentes, e a segunda, não menos importante, relativa à superação de referenciais teórico-metodológicos oriundos da Psicologia que têm levado à produção da exclusão por meio de concepções medicalizantes a respeito da queixa escolar.

A apropriação do referencial teórico crítico, oriundo da sociologia e as metodologias de pesquisa qualitativas, provenientes de perspectivas antropológicas para a análise do processo de escolarização apontam para o fato da complexidade desse processo, tratado até muito recentemente como uma questão individual, familiar, meramente metodológica ou ainda como uma relação entre professores e alunos. Os referenciais teóricos tradicionalmente presentes na Psicologia e de caráter heredológico, ambientalista, interacionista e behaviorista mantiveram como eixo de análise ora os aspectos referentes ao psiquismo e ao desenvolvimento cognitivo do indivíduo, ora os aspectos meramente pedagógicos. Portanto, a discussão crítica no campo da Psicologia Escolar insere um novo eixo de análise: o processo de escolarização, constituído a partir das condições objetivas, concretas, que permitem, ou não, que a escola possa cumprir as suas finalidades sociais.

A concepção teórica que nos permite analisar o processo de escolarização – e não os problemas de aprendizagem – desloca o eixo da análise do indivíduo para a escola e o conjunto de relações institucionais, históricas, psicológicas, pedagógicas e políticas que se fazem presentes e constituem o dia a dia escolar. Ou seja, os aspectos psicológicos são parte do complexo universo da escola, encontrandose imbricados nas múltiplas relações que se estabelecem no processo pedagógico e institucional presentes na escola. Não se trata, portanto, de uma ampliação do contexto como observamos com autores que buscam relações entre psicanálise e materialismo histórico, ou ainda com a psicogênese, mas sim de ruptura com uma leitura que desconsidera a escola enquanto positividade e que analisa as dificuldades no processo de escolarização como problemas de aprendizagem. Ao considerar o processo de escolarização, a Psicologia Escolar passa a enfatizar a necessidade de que a escola é o espaço em que relações sociais e individuais se articulam numa rede de relações complexas e que precisam ser analisadas como tal. Ou seja, quando o psicólogo recebe uma queixa escolar, esta se constitui em um fragmento de uma complexa rede de relações sociais com as quais ele terá que trabalhar a partir do seu campo de conhecimento. O psiquismo é um dos aspectos constitutivos do processo de escolarização e ao elegê-lo como o aspecto central de sua análise, o psicólogo ou qualquer outro profissional incorrerá no erro de desprezar inúmeras outras situações que, segundo várias pesquisas na área educacional apresentam, são constitutivas de ações realizadas pelas crianças e de reações a determinados contextos extremamente hostis. E mais do que isso, explicitará o fato de que o profissional desconhece o que se passa na escola, não tendo a dimensão de que o fracasso ou o sucesso no processo de aprendizagem escolar é muito menos determinado por questões individuais do que por mecanismos institucionais e políticos.

Assim, pesquisar a escola, as relações escolares, o processo de escolarização a partir dos anos 1980, significou pesquisar uma escola que foi e está sendo atravessada por um conjunto de reformas educacionais, fruto de políticas públicas (ou estatais) no campo da educação escolar. Se a crítica à Psicologia Escolar tradicional levavanos a compreender a escola e as relações que nela se constituem a partir das raízes históricas, sociais e culturais de sua produção, mister se fazia pesquisá-las no contexto das políticas públicas educacionais. No campo da Psicologia Escolar, entender as políticas públicas é compreender como os educadores, alunos e gestores vivenciam sua implantação e participam de sua concepção. Portanto, conhecer como as políticas são implementadas, as questões postas pelos educadores com relação às concepções e perspectivas, as condições de trabalho para sua implementação são fundamentais para que o psicólogo atue no campo da educação.

Este é o objetivo desses Cadernos Temáticos, que possamos, a partir da sistematização da discussão que se retomou nos últimos cinco anos no Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, avançar na direção de pensarmos propostas e realizarmos encaminhamentos e ações para que seja possível uma participação do psicólogo, efetiva, no campo da educação, no interior da realidade brasileira.

Marilene Proença
Conselheira Coordenadora do Grupo de Trabalho Psicologia e Educação
Conselho Regional de Psicologia de São Paulo
Email: marileneproenca@gmail.com

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