Prática

Psicologia, para uma saúde pública integral

O SUS oferece várias opções para a atuação do profissional de Psicologia. No Estado de São Paulo, segundo a Secretaria Estadual de Saúde, existem 832 psicólogos trabalhando na rede.

Além da área de saúde mental (veja na pag. 12), os profissionais da Psicologia trabalham em programas de doenças sexualmente transmissíveis (DST/AIDS), em Centros de Referência da Saúde do Trabalhador, Unidades Básicas de Saúde, no Programa Saúde da Família, em hospitais públicos e também planejando políticas públicas de saúde. “Nos últimos 20 anos, houve uma enorme ampliação das vagas para o psicólogo na saúde pública. Os profissionais de Psicologia descobriram a potencialidade dessa atividade e têm construído espaços importantes de trabalho”, comenta Lumêna Furtado, conselheira-presidenta do CRP SP. Para Luís Carlos Raya, Secretário Municipal de Saúde de Ribeirão Preto, a participação do psicólogo na saúde pública é fundamental: “Muitos dos problemas de saúde a que atendemos dizem respeito a distúrbios emocionais. O psicólogo deve ser parte integrante da equipe de saúde, deve ser valorizado, prestigiado, responsável por parcela importante da atenção à saúde”.

Assessora de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Campinas, a psicóloga Florianita Coelho Braga é exemplo de profissional participando na elaboração de estratégias políticas: ela colabora na implementação de uma nova gestão para a saúde pública da cidade. “No consultório, somos escolhidos pelos nossos pacientes e estamos, ao mesmo tempo, superprotegidos e solitários. Na saúde pública podemos nos relacionar com outros especialistas de outras áreas”, ela comenta. O psicólogo que atua em uma Unidade Básica de Saúde, UBS, integra uma equipe multidisciplinar com pelo menos quinze categorias diferentes e tem em torno de si uma gama interessante de profissionais envolvidos com o mesmo objeto. É o que acontece, também, com o psicólogo que integra as equipes dos Centros de Referência do Trabalhador, vinculadas ao SUS. Elas são formadas, além do psicólogo, por médicos do trabalho, psiquiatras e assistentes sociais e realizam trabalhos de assistência direta ao trabalhador e pesquisas visando mapear as causas mais freqüentes de problemas de saúde que os atingem.

Normalmente, os trabalhadores são encaminhado aos Centros pelos seus sindicatos ou pelos médicos das empresas em que atuam. “A área da saúde do trabalhador é relativamente nova em Psicologia, mas urgente. Começaram a ocorrer muitos problemas de afastamento no trabalho por motivo de saúde e não existia um local que cuidasse desses problemas. A demanda levou à criação dos Centros de Referência”, explica Ana Lúcia Dorattioto Leite, integrante do Grupo de Psicologia e Trabalho do CRP SP. A partir do acompanhamento dos casos que chegam aos Centros, o psicólogo consegue estabelecer um nexo causal para essas doenças. “A dificuldade que enfrentamos hoje é provar esse nexo causal. Além disso, seria preciso que o psicólogo estivesse dentro da empresa para conseguir fazer um trabalho preventivo e evitar essas ocorrências”, ela comenta. Outra forma de auxílio que o psicólogo da área pode prestar é ajudando o trabalhador a “ter uma visão global da atividade que realiza, ressignificando seu trabalho e reduzindo a possibilidade de adoecer”.

O profissional envolvido no trabalho com saúde pública não trata apenas “do psiquismo das pessoas; ele mexe também com o seu ‘estar’ no mundo de alguma forma”. Essa é a opinião de Maria Luiza Santa Cruz, integrante de um grupo de saúde mental que respalda cinco equipes do Projeto Qualis (veja página ao lado), na Zona Norte de São Paulo. A idéia que norteia o trabalho do Qualis é a da “integralidade” do atendimento. “Discutimos com as equipes os problemas das famílias atendidas; nos casos de maior gravidade nos quais as equipes de PSF acreditam que seja necessária nossa intervenção direta, fazemos um trabalho conjunto. Atendemos na casa das pessoas e nosso trabalho não se volta apenas para o paciente que está em evidência. Todas as pessoas da família são ouvidas e entendidas como pacientes”, relata. Nesse sentido, a ação é ampla, “vai no rumo da cidadania”. É para esse aspecto – o exercício da cidadania e do compromisso social – que Lumêna Furtado, do CRP SP, chama a atenção: “A riqueza clínica do trabalho em saúde pública é inigualável, pois o profissional atende a uma população diversificada, com vários tipos de sofrimentos psíquicos. Isso exige criatividade, competência e capacidade de criar respostas, e elaborar novas possibilidades de intervenção”, afirma.

Essa permanente reinvenção da prática psicológica faz parte do cotidiano de Marilene Pinto Rabello Correa, psicóloga há 23 anos, há quatro atuando com prevenção de DST/AIDS em Sorocaba, SP. “Surgiu a oportunidade de trabalhar no COAS com aconselhamento e prevenção de DST/AIDS e vi nisso um desafio pessoal e profissional”, recorda. O Centro de Orientação e Apoio Sorológico, COAS, faz parte do Programa Municipal de DST/AIDS de Sorocaba, uma parceria com o Ministério da Saúde. “O trabalho é intenso e, apesar disso, sempre deixa sensação de muito a ser feito. Atendemos a população em geral, com um fluxo enorme. Desenvolvemos o projeto ‘Multiplicadores de Informações’, que leva treinamento e capacitação sobre o assunto a escolas e empresas”, comenta Marilene. Na saúde pública, afirma a psicóloga, “o número de pessoas a serem atendidas é sempre grande e o tempo, curto; essa alta rotatividade nos deixa sem feedback, mas a diversidade de problemas e pacientes é sempre enriquecedora e instigante”.

Na área da Psicologia Hospitalar, não é diferente. “A área pública é muito mais rica, os casos são diversificados e é bem gratificante”, comenta Kasuko Dagomori Ichimohe, que atua como psicóloga hospitalar desde 1995 no setor de pediatria do Hospital do Servidor do Município, na Capital paulista, atendendo também outras demandas do SUS. O público que a procura provem de várias realidades sociais: de filhos de servidores públicos a adolescentes em situação de risco. O atendimento tem amplo alcance: “Há casos em que coletamos dados sobre a família para ajudar no diagnóstico”, ela afirma.

Antecipar cuidados reduz os custos e os danos

A prevenção e a ampliação do alcance da atenção básica fora dos “equipamentos” de saúde são diretrizes prioritárias do SUS. Para isso, foram criados programas nacionais que pretendem agir diretamente na redução das doenças, disseminando na população conceitos básicos de higiene e de pequenos tratamentos, de forma a desafogar as Unidades Básicas e os ambulatórios de hospitais.Muitas atividades nesse sentido têm sido realizadas pelos municípios por meio do Programa de Saúde da Família, PSF, criado em 1994 objetivando organizar as Unidades para oferecer atendimentos básicos, contando com profissionais capacitados a dar atenção integral às comunidades. Junto ao PSF, tem sido implantado também o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, PACS, que capacita pessoas das próprias comunidades a levar orientação e coletar dados que auxiliam na prevenção das doenças. “O Estado de São Paulo possui muitas equipes de PSF já atuando e diversos municípios estão solicitando habilitação para o Programa, neste momento inclusive a capital”, afirma dr. José Enio Servilia Duarte, Secretário Municipal de Saúde de Marília, município que possui oito unidades do PSF em funcionamento.

“Temos claramente colocado no modelo preconizado pelo SUS uma proposta que reverte a velha rede assistencial de saúde pública, que girava em torno dos hospitais; buscamos uma forma de assistência integral à saúde da população, o que significa entender a saúde em todos os seus aspectos”, comenta Lumêna Furtado, do CRP SP. Existem várias propostas de reversão do sistema. No PSF clássico, proposto pelo Ministério da Saúde, está prevista uma equipe mínima de um médico, uma enfermeira e agentes comunitários de saúde. “Na verdade, isso cobre apenas uma porção da necessidade da população. Existe toda uma outra parte de atenção à população que precisa ser considerada na rede assistencial”, comenta Lumêna. Em São Paulo, temos o Qualis – Programa de Saúde da Família, estabelecido pelo Governo do Estado, experiência que incluiu outras categorias profissionais além do médico, do enfermeiro e do agente comunitário, que tradicionalmente compõem as equipes básicas de saúde. “Temos vários Qualis funcionando em São Paulo nos quais a inserção do profissional de Psicologia acontece de diferentes formas. Em alguns deles, a questão da saúde mental foi bastante contemplada”, afirma Lumêna.

A implantação do PSF é uma prerrogativa dos municípios. Campinas, por exemplo, está implementando um projeto adaptado à sua realidade, o “Paidéia de Saúde da Família”. “Paidéia é uma palavra grega que indica desenvolvimento integral do ser humano. Desenvolvimento no sentido de autonomia, capacidade crítica e autocuidado”, traduz dr. Gastão Wagner de Souza Campos, Secretário Municipal de Saúde de Campinas. A idéia é construir um sistema de saúde capaz de contrapor a medicalização e a institucionalização. “Na atenção básica, estamos fazendo uma adaptação do PSF. Estamos mesclando o modelo tradicional dos centros de saúde com o PSF”, ele complementa.

A proposta prevê a criação, nos Centros de Saúde, de uma rede de “Equipes de Apoio” que se encarregará de cooperar, em áreas específicas, como a de saúde mental, com as Equipes Locais de Referência que responderão pelo atendimento direto às famílias. Dessa forma, as equipes do Paidéia serão ampliadas. “Estamos colocando um pediatra, um ginecologista e profissionais de saúde mental”, afirma dr. Gastão. Um diferencial desse programa é que o agente de saúde será um técnico de saúde pública. “Estamos formando os agentes para trabalharem com prevenção, educação em saúde, controle de vetores e controle de mosquitos.” Além disso, o trabalho é norteado pelo conceito de vínculo entre “o paciente com o seu terapeuta; estamos trabalhando para valorizar a responsabilização clara entre a equipe e a clientela”, define.

A idéia de uma “clínica ampliada” é primordial para adequar o combate às doenças à realidade social em que vive a população. “Deve-se compreender saúde e doença como um processo dialético, que tem determinações sociais de lazer, educação, trabalho e moradia. Portanto, trabalhar com saúde é trabalhar com ações intersetoriais, com as condições de vida; é discutir com a população o exercício da cidadania”, resume Lumêna Furtado.


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