Trabalho
Diversidade Mostra que o Preconceito é Improdutivo
Seminário Promovido pelo CRP SP e Ceert Debateu os Desafios da Inclusão no Trabalho
“Quando há homogeneidade, não há criação. O cerne da criatividade é o diverso; a uniformidade, por sua vez, é burra.” A declaração de Maria Aparecida Silva Bento, diretora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, Ceert, exprime as positividades que programas de diversidade no trabalho podem trazer. Ao eliminar o preconceito, essa política inclui diferentes segmentos populacionais no mercado formal, mostrando-se vantajosa tanto para as empresas quanto para os trabalhadores e consumidores. Resultado de anos de pressão social, as políticas de diversidade pretendem trazer, para o quadro de pessoal e para a imagem das empresas, os vários grupos populacionais que normalmente são excluídos.
Ao eliminar a exclusão motivada por cor, raça, gênero, religião e opção sexual, os programas de diversidade têm provado que o preconceito é improdutivo. “Não é nada interessante para uma empresa ter uma propaganda só com homens de olhos azuis. A população está ficando cada vez mais exigente, inclusive com o quadro de pessoal, e espera que a empresa a reflita enquanto consumidora. Atua-se hoje em mercados diferentes, com consumidores diversos e com produtos que vão para inúmeros lugares. A empresa deve refletir a diversidade da comunidade na qual está inserida”, afirma Maria Aparecida.
A fim de instalar e dar visibilidade ao debate sobre diversidade, foi criado, em 1997, o Projeto Diversidade e Igualdade no Trabalho. Composto pelo CRP SP, Sindicato dos Psicólogos, Ceert e Associação Paulista de Administração de Recursos Humanos, Aparh, o Projeto promove seminários anuais e reuniões periódicas. Inclusão no Trabalho: Desafios e Perspectivas é o título do seminário deste ano. A Comissão de Recursos Humanos do CRP SP, por sua vez, conta com um grupo que discute a questão da diversidade em conjunto com os profissionais de Psicologia que atuam em organizações. Por ser o mediador das relações entre empregador e empregado, o profissional de recursos humanos ocupa posição estratégica.
Nos programas de diversidade ele é incitado e capacitado a fazer uma leitura crítica das normas que regem essa relação, analisando se elas favorecem a igualdade. “O mote do nosso trabalho é chamar a atenção para a responsabilidade social dos profissionais de RH. O preconceito pode interferir até mesmo em uma avaliação psicológica para recrutamento, por exemplo. Há estudos que mostram que o mais competente é o mais parecido conosco. Preocupamo-nos em capacitar o profissional para refletir sobre sua própria prática e sobre a prática da empresa, de forma que ele possa, assim, promover a igualdade”, garante Maria Aparecida.
O empresariado brasileiro, entretanto, está atrasado no processo de instalação de programas de diversidade. A multinacional Levi-Strauss, seguindo os passos da matriz nos Estados Unidos, iniciou a implantação do programa há 15 anos. Hoje, a empresa procura aplicá-lo no quadro de pessoal, propaganda e produtos. “Nós não vendemos calças apenas para um rapaz branco e de classe alta; vendemos para todo mundo. Para entender todos, precisamos dessas representações internamente. Quando falamos a língua do consumidor, conseguimos vender o nosso produto. É uma conseqüência natural”, afirma a consultora de Recursos Humanos da Levi-Strauss, Darcilene Padilha. A iniciativa de implantação da diversidade, entretanto, não partiu do empresariado. É resultado de pressões do movimento social de mulheres, negros e homossexuais e do movimento sindical. Este último vem lutando pela introdução de cláusulas de não discriminação nos contratos de trabalho. “Uma empresa com pessoal homogêneo comete um mal ao excluir, já que não cumpre seu papel social. Ela está excluindo pessoas por razões que não representam seu objetivo final.
Se o movimento social acorda e denuncia, essa empresa terá um prejuízo maior, decorrente do boicote ao seu produto”, aposta o presidente da CUT Nacional, Vicente Paulo da Silva. Apesar do esforço e mobilização do movimento social e sindical, Maria Aparecida afirma que levar o assunto da diversidade para as empresas não tem sido fácil. “O empresariado brasileiro é extremamente conservador. Atuo no movimento social e sindical há mais de dez anos, e levar a diversidade para o empregador foi complicado. A empresa tem uma lógica de funcionamento muito diferente da Psicologia. A empresa visa ao lucro; essa é a finalidade dela. Nunca podemos nos iludir.”
Diagnóstico da Exclusão no Brasil
Fazer um diagnóstico da exclusão no trabalho e discutir novas formas de enfrentar a desigualdade dentro das empresas foram os propósitos do Seminário Inclusão no Trabalho: Desafios e Perspectivas, realizado nos dias 21 e 22 de outubro no Espaço Empresarial da Rua Frei Caneca, em São Paulo.
Promovido pelo CRP SP e pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, Ceert, o seminário é parte do Projeto Diversidade e Igualdade no Trabalho.
O evento reuniu nomes importantes na área do trabalho, como o presidente da CUT Nacional, Vicente Paulo da Silva, o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, o economista Paul Singer, além de representantes do movimento pela inclusão dos EUA e África do Sul.
Contatos com o Ceert pelo telefax (11) 263-7927 ou e-mail ceert@uol.org.br.
Comissão de Recursos Humanos do CRP SP: aberta à participação de todos os psicólogos interessados na área. Informações sobre agenda de reuniões na Secretaria do Conselho.