Opinião

Provão ou Verificação?

No dia 11 de junho do ano 2000, alunos dos cursos de Psicologia de todo o país estarão fazendo, pela primeira vez, o provão. Alguns aspectos importantes devem ser considerados para uma análise crítica do provão: primeiro, é preciso lembrar que é um retrocesso na concepção de avaliação, na medida em que traz de volta visões tradicionais, já superadas por tendências mais progressistas e atuais da pedagogia.

A concepção de avaliação pelo produto foi superada pela idéia de avaliação permanente do processo educacional como um todo. Avaliar nossas escolas deve significar acompanhar seu trabalho, a partir de objetivos e procedimentos definidos pela instituição, considerando as condições que lhes são dadas, na inserção que têm na sociedade, na qual interesses estão em jogo e normas e políticas definidas pelo Estado interferem no cotidiano escolar. Neste sentido, o provão não é uma avaliação; é uma processo de verificação. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação está em perfeita consonância com essa perspectiva, ao incentivar e possibilitar a livre iniciativa e a concorrência no setor educacional, à imagem e semelhança das empresas.

As escolas podem oferecer o produto que desejarem e vendê-lo da forma como considerarem mais adequado. Mas como o Estado não abriu mão de seu papel de controle da qualidade da formação de sua população (ou melhor, de sua mão-de-obra), coloca-se como verificador da qualidade desse produto, por intermédio do provão. Neste sentido, podemos até defender que os resultados do provão possam ser utilizados pelas escolas, pelo MEC e pelas entidades interessadas na questão da formação, mas não se pode pensar que uma avaliação está sendo feita. É preciso compreender o provão como uma verificação. Um outro aspecto é a indústria de cursos pré-provão que vão surgindo por aí. Ora, se era a intenção verificar o resultado, não há por que considerar estranho que escolas possam fazer um trabalho desqualificado e salvar-se no final pelo reforço trazido pelos cursinhos pré-provão. Afinal, o que importa é o resultado!

Cabe ainda um outro elemento importante, conseqüência do provão. Corremos o risco de retomarmos uma concepção de educação como um trabalho que visa fixar na memória dos alunos informações importantes e necessárias para sua vida e seu trabalho. Provar que aprendeu significa ter memorizado as informações, podendo reproduzi-las em uma prova final. O trabalho educacional será reforçado como um trabalho de depositar informações na memória dos alunos. Que pena que isso esteja acontecendo no país de Paulo Freire, que combateu a educação bancária com todas as forças! Outro aspecto que vale a pena trazer para análise é a responsabilidade que o Estado, que faz a verificação por meio do provão, está se colocando, no sentido de apresentar condições para que os problemas apontados sejam sanados. Parece-nos que se está culpando alunos e professores, retirando qualquer responsabilidade das políticas educacionais adotadas pelo governo e, neste sentido, nenhuma medida será tomada. Apenas se verifica e, quando não há cumprimento de um mínimo de qualidade, pune-se.

O Estado e suas políticas ficam isentos de qualquer responsabilidade. Aliás, essas políticas não passam pelo provão, porque o provão é a política. Quem verifica o Estado? Para finalizar esta pequena reflexão sobre o provão da Psicologia, gostaria de apontar um dos aspectos que deve preocupar professores, alunos, gestores de escolas e entidades da profissão. Temos uma ciência e uma profissão feitas por nós, psicólogos, no decorrer da história. Muitas tendências têm caracterizado a Psicologia em seus espaços acadêmico-científico e profissional.

Orgulhamo-nos da diversidade que temos tido e procuramos lidar com ela de forma construtiva e dialógica. No entanto, quando uma dessas tendências se torna dominante, porque é ela que está expressa no provão, corremos um enorme risco de termos as escolas reforçando essa determinada tendência em seus currículos. Esse risco é aumentado quando da verificação feita depende, de certo modo, a sobrevivência da escola. Que Psicologia estará sendo reforçada pelo provão que aí vem? Seja ela qual for, já podemos apontar um prejuízo: a tendência à homogeneização da Psicologia. Nossa diversidade poderá estar sendo lamentavelmente negada. A diversidade é a riqueza de uma ciência, e temos reconhecido isso procurando espaços de debate franco, democrático, inclusivo, no qual a diversidade esteja colocada com clareza e o debate se faça de modo produtivo e estimulador. Mas o provão poderá vir como um rolo compressor que, pelos interesses comerciais que esconde, fortalece, sem discussão ampla, uma ou outra tendência na Psicologia.

Com isso estamos querendo alertar para a interferência que o provão faz na história da Psicologia, como ciência e profissão. É preciso que estejamos atentos para isso, e aqueles que serão chamados a opinar e a avaliar o provão deverão fazer essa tarefa considerando a necessidade de respondermos que Psicologia o provão veio reforçar. Nossa ciência e nossa profissão avançaram nestes últimos anos na direção de um conhecimento e uma prática comprometidos com a realidade social de nosso país. Temos buscado com firmeza construir uma Psicologia com compromisso social. Será que o provão poderá de alguma forma reforçar essa busca? Acreditamos que temos, hoje, um espaço adequado para que esse debate seja feito: a Associação Brasileira de Ensino de Psicologia, Abep. É nele que poderemos, unidos pela vontade de continuar a interferir no futuro de nossa profissão, realizar a análise crítica necessária. Provem e verifiquem. Nós continuaremos querendo avaliar. Avaliaremos nossa formação, como temos feito há anos. E ao avaliarmos estaremos apreciando também o papel do provão no desenvolvimento da Psicologia, como ciência e profissão.

Ana Mercês Bahia Bock
Diretora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP e presidente do Conselho Federal de Psicologia, gestão 1998/2001


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