Livros

Compromisso com (o) Ser Humano

Novo Livro Revela Gilberto Safra em Momento Mutativo

A Face Estética do Self, Teoria e

Clínica De Gilberto Safra Unimarco

Editora 168 páginas, R$ 14

Tel.: (11) 274-5711, r. 261/295

unimarco@server.s.marcos.br

Para aqueles que têm acompanhado o percurso de Gilberto Safra por meio de suas palestras, seus artigos e suas disciplinas ministradas na pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP e da USP, encontra-se finalmente disponível a referência bibliográfica mais adequada. Para outros, que o conhecem somente como autor de “Momentos Mutativos em Psicanálise: Uma Visão Winnicottiana” (São Paulo, Casa do Psicólogo, 1995), a surpresa será impactante. “A Face Estética do Self” apresenta a metamorfose de Gilberto. Um verdadeiro momento mutativo, não só do autor, mas, certamente, da psicanálise praticada no Brasil.

O qualificativo “visão winnicottiana” já não o veste mais, apesar de Winnicott ser o autor de maior referência no texto. Aos familiarizados com o campo psicanalítico, será difícil não reconhecer neste livro o nascimento de uma psicanálise brasileira, e não apenas praticada no Brasil. Sem dúvida, dirão alguns que não se trata de psicanálise, porque segundo Freud, Klein, Lacan, Bion, Winnicott... Mas isso não tem a menor importância, pois o compromisso de Gilberto não é com os autores e suas teorias. Seu compromisso é com a clínica e, fundamentalmente, com a vida, com o mundo, enfim, com o homem. Compromisso explícito, anunciado em sua dedicatória: “Aos que já estiveram, aos que estão, aos que estarão: ao homem!”.

Este é um trabalho de fôlego do autor, revelando sua erudição. Porém, o adjetivo “eclético” não lhe é pertinente, pois há um rigor teórico fundamental nesse tipo de empreitada. Gilberto passeia por diferentes áreas do conhecimento: psicanálise, filosofia (ocidental e russa), teologia russa, antropologia, arquitetura, geografia, ciência política, literatura, artes plásticas e dança. Usa os autores, no sentido winnicottiano do termo, e posiciona-se frente a eles. O fio condutor de toda discussão recai sobre as questões da estética e do self, tendo sempre como pano de fundo a experiência clínica do autor. Apesar de uma escrita simples e límpida – por vezes, poética –, sua leitura não é fácil, devido à complexidade do tema e das articulações.

Os capítulos versam sobre a constituição do self a partir dos fenômenos estéticos. O self, segundo o autor, é corpo marcado pela presença do outro significativo, é acontecer humano no mundo. Questões essas tematizadas pela discussão da temporalidade, das diferentes organizações do espaço, do gesto criador e transformador, dos artefatos desveladores da existência humana, da inserção do homem no mundo e do caminhar para a morte como realização última do self. Trata-se, portanto, de um texto bem-vindo que realiza uma contribuição significativa para o campo psicanalítico e que apresenta de forma contundente o sentido da frase: “O homem é seu estilo mesmo”.

Kleber Duarte Barretto
Psicólogo, professor da Unip e do Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise da Universidade São Marcos


Mexendo na Ferida Narcísica

A Psicoterapia na Instituição Psiquiátrica Relatos de vivências da equipe do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas Oswaldo Ferreira Leite Netto (org.)
Editora Ágora, 152 páginas, R$ 17

Em pleno final de século, voltam à tona discussões e estudos que colocam a temática organicista e a psiquiatria biológica como aspectos centrais naquilo que diz respeito à problemática do sofrimento mental. A descoberta de novos medicamentos e o interesse de indústrias farmacêuticas na produção das descobertas vêm fortalecendo a retomada dessa tônica como ordem do dia. É considerando esse contexto que podemos reconhecer o mérito da recente publicação de um grupo formado principalmente por médicos do Setor de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da USP.

Ao partir do pressuposto que o avanço da psiquiatria, nos últimos dez anos, pode fortalecer a crença de que a abordagem psicológica seja desnecessária na atenção psiquiátrica, esse grupo se propõe a demonstrar a importância da dimensão psíquica no trato ao portador de transtorno mental. Buscam cumprir tal objetivo relatando as experiências vividas pela equipe no Setor, tendo como eixo principal o lugar da psicoterapia no desenvolvimento do trabalho terapêutico. Por ser uma instituição-escola, onde assistência, ensino e pesquisa constituem o tripé da organização institucional, os relatos estão voltados para basicamente três temas: formas de psicoterapia adotadas e suas indicações; tipos de supervisão oferecidos aos médicos residentes do Instituto de Psiquiatria; e temáticas presentes no processo psicoterapêutico da demanda atendida no Serviço.

De maneira geral, há uma preocupação em enfatizar a complexidade do fenômeno mental, buscando incluir diferentes abordagens, sejam estas de cunho biológico, sejam de caráter psicodinâmico, no entendimento e na intervenção terapêutica. O reconhecimento da necessidade de trabalho em equipe – a partir da articulação entre diferentes profissionais e setores do Hospital – e a tentativa de somar variados tipos de pensamento e de linhas de trabalho no cotidiano institucional se fazem presentes.

No entanto, essa tentativa de somar um conjunto heterogêneo de experiências e pensamentos, tendo como denominador comum “a valorização da vida psíquica”, impede em várias passagens do livro o reconhecimento de que algumas contradições emergentes no cotidiano sejam vistas como próprias do contexto institucional, e não necessariamente negativas ou impeditivas para a condução do trabalho. A utilização de técnicas de grupo ou de abordagens de psicoterapia breve, por exemplo, é mencionada como forma de conter a demanda de um serviço público de grande porte. São vistos como problemas a serem minimizados, também, o fato de parte significativa da população usuária do serviço apresentar postura passiva ou desconhecimento em relação à psicoterapia; ou ainda a intrusão de dimensões institucionais na relação terapêutica. A idealização de um modelo de psicoterapia fundamentado eminentemente na clínica dual parece colocar num segundo plano, ou como paliativas, algumas iniciativas criativas que podem representar formas de superar contradições institucionais. Algumas indagações poderiam ser feitas nesse sentido: por que não conceber os grupos de espera das instituições públicas em grupos de caráter eminentemente terapêutico, para que eles não se tornem apenas um aperitivo que antecede a psicoterapia? Não seria necessário considerar na relação terapêutica/institucional as representações que circulam no âmbito social sobre a instituição psiquiátrica e a “doença mental”?

Tais questões introduzem uma outra dimensão para essa reflexão: a da função psíquica da instituição. Como nos diz o psicanalista francês René Kaës, a instituição nos confronta com uma quarta ferida narcísica após as descobertas de Copérnico, de Darwin e de Freud, que retiraram o homem de sua posição central no espaço, na espécie e na concepção de si mesmo. Foi-nos necessário admitir que a vida psíquica não seria uma espécie de propriedade privada do sujeito individual. Ao contrário, uma parte desse sujeito, parte que compõe seu inconsciente, não lhe pertence. Pertence, sim, às instituições sobre as quais se apóia e que se mantêm por esse apoio. “Mas cuidemos para não cultivar a ferida: a descoberta da instituição não é apenas a de uma ferida narcísica, é também a dos benefícios narcísicos que sabemos tirar das instituições, a preços variáveis.” (Kaës, 1991)

Ianni Régia Scarcelli
Psicóloga sanitarista do Laboratório de Estudos em Psicanálise e Psicologia Social, Lapso, do Instituto de Psicologia da USP; doutoranda em Psicologia Social no Ipusp


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