Informática
Psicologia e Informática: Interfaces
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No artigo anterior, desenvolvi algumas
reflexões iniciais sobre a polêmica a respeito da “Psicoterapia pela Internet”.
Neste artigo, em vez de nos restringirmos à polêmica, vamos abordar algumas
das diversas formas de interação entre psicólogos e informática. Os psicólogos
têm se envolvido em projetos na área de informática desde os primórdios
das pesquisas sobre inteligência artificial, e posteriormente participaram
da formação de uma nova disciplina acadêmica, a Ciência Cognitiva. Há também outras formas de participação. Uma linha de pesquisa bastante interessante diz respeito ao estudo dos impactos da informática sobre a subjetividade e a identidade. Uma pioneira dessa área é Sherry Turkle, inicialmente uma pesquisadora de formação lacaniana, mas que desde seu livro de 1984, “The Second Self”, procura identificar os efeitos do contato com a informática na vivência subjetiva das pessoas. Assim, ao entrevistar estudantes de computação, verificou que o discurso com o qual descreviam a si mesmos era derivado de noções à vezes bastante sofisticadas de programas de inteligência artificial. |
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| Também analisou como o contato das crianças com programas de computador e robótica modificava a formação do conceito de “ser vivo”. Seu livro mais recente, “Life on the Screen”, de 1995, aborda as experiências de imersão em “mundos virtuais”, onde pode ocorrer o desenvolvimento de diferentes “personas” vividas simultaneamente pelo mesmo usuário, com um concomitante questionamento a respeito da identidade individual e a diminuição da distância entre realidade representada, interativa e virtual, e a “vida real”. Podemos dizer que esse livro de Turkle, ao tratar da Internet, refere-se à “segunda onda” na história do computador. A “primeira onda” é relativa ao desenvolvimento do computador como parte de um esforço de guerra, continuado depois num contexto de guerra fria. O computador devia ser um instrumento militar de “comunicação, comando e controle”. Nessa fase, temos a concepção do computador como um instrumento altamente técnico. O desenvolvimento inicial de uma rede de computadores, a Arpanet, cujo objetivo era ser uma rede de defesa indestrutível por não ter centro, também ocorreu nesse ambiente. Essa rede altamente técnica sofreu modificações com as inovações da segunda onda, até transformar-se na atual Internet. | ||
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A segunda onda iniciou-se na década de 1970, especialmente no chamado Vale do Silício, nos Estados Unidos. Por características específicas, acidentais desse local – uma cultura universitária típica, com influência do clima dos anos 60, a existência de institutos de pesquisa e a concentração de empresas tecnológicas pequenas, com hábitos diferentes das grandes corporações –, criou-se uma nova forma de conceber a computação, com ênfase na interatividade, na expressividade e na formação de comunidades virtuais e de redes. A atual onda de expansão informática contém muitas dessas características. Uma delas, a comunicação em rede, também foi fortalecida por certas configurações específicas da sociedade capitalista que já estavam em curso. A “sociedade das redes”, para Castells, é anterior à Internet. A internacionalização do capital e as telecomunicações já estavam criando uma “sociedade das redes”. A partir da perspectiva da inserção socioeconômica, também podemos entender como o desenvolvimento recente dos computadores está associado à indústria cultural, à comercialização e ao consumismo. Alguns autores atuais que escrevem sobre a segunda onda são: Susan Leigh Star (“The Cultures of Computing”), Brenda Laurel (“Computers as Theatre”), Allucquère Rosanne Stone (“The War of Desire and Technology”), e Janet Murray (“Hamlet on the Holodeck”). |
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Indico a seguir alguns livros, traduzidos ou escritos em português, que se constituem em ótimas apresentações a muitas das questões relativas às novas tecnologias e seus efeitos na cultura, na subjetividade, na identidade e na individualidade. “A Vida no Ecrã” é a tradução portuguesa de “Life on the Screen”, de Sherry Turkle. Uma ótima introdução à Ciência Cognitiva é “A Nova Ciência da Mente”, de Howard Gardner, editada pela Edusp. |
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Uma abordagem instigante sobre ciberespaço e hipertexto pode ser encontrada em “As Tecnologias da Inteligência”, de Pierre Lévy. Sobre as novas estruturas de significado e navegação, leia-se “O Labirinto da Hipermídia”, de Lúcia Leão, da Iluminuras. Sobre a interação entre economia, política e novas tecnologias da informação, recomenda-se “A Sociedade em Rede”, de Manuel Castells. Um livro mais filosófico, denso, mas cuja clareza argumentativa permite que seja compreendido mesmo pelos iniciantes que se dedicarem com afinco é “Da Ciência Cognitiva à Dialética”, de Marcos Barbosa de Oliveira, da editora Discurso Editorial. E finalmente citamos os artigos bastante críticos de Valdemar Setzer, que podem ser encontrados em seu site: www.ime.usp.br/~vwsetzer. Visite o site sobre atendimento mediado pelo computador http://www.crpsp.org.br/atmc/ Elisa Sayeg cyborg@uol.com.br http://sites.uol.com.br/cyborg |
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